10.8.18

Incêndios: o nosso Frankenstein



«Em 10 de Abril de 1815, na paradisíaca ilha de Sumbawa na Indonésia, o vulcão Tambora rebenta. A explosão é tão devastadora que a montanha onde está o vulcão perde 1.500 metros de altura, passando de 4.300 metros para 2.800. O estrondo escuta-se a centenas de quilómetros de distância. Milhares de pessoas morreram, entretanto, devido aos gases tóxicos ou queimadas pelas cinzas. Para a atmosfera são largados enxofre e cinzas numa escala nunca conhecida. Uma nuvem negra transforma o dia em noite. E esta nuvem, caminhando lentamente, acaba por chegar à Europa em meados de 1816, e deixou o Velho Continente sem Verão. Foi nesse mundo de frios aguaceiros que Mary Shelley criou a imortal personagem Frankenstein. Em Junho de 1816, em Villa Diodati, Lorde Byron desafiou os presentes ali a escrever um conto de terror. O ambiente externo é convidativo: chove durante três dias seguidos e o céu está sempre escuro. Frankenstein torna-se um símbolo dos nossos medos. Shelley sonhou com um cientista que criava a vida e ficou horrorizado com o resultado do que fez.

Os incêndios tornaram-se o nosso Frankenstein. O verde transforma-se em cinzento, o azul dos céus em cinzento. E o medo vai corroendo todas as certezas. O incêndio que começou em Monchique vai alimentar muitas teorias, certezas e incómodos. Durante muito tempo. Mas, independentemente de tudo, ele mostra a incapacidade estrutural de Portugal conviver com os seus problemas. Numa época em que o eucalipto se tornou o Diabo à solta e o culpado de todos os males, convém discorrer sobre um tema mais vasto: a sustentabilidade do nosso interior. Na zona de Monchique, o eucalipto domina, mas o sobreiro e o medronheiro também existem em grandes quantidades. E é ele o pulmão económico da região, mesmo com a chegada do turismo. E é aí que voltamos à questão crítica: como é possível ordenar o território, que a cada ciclo de 12 anos se tem de defrontar com incêndios destes (fala-se já que o próximo de grandes dimensões será na serra de São Mamede), se a pequena propriedade privada domina e o Estado tem uma pequena parte do território, ao contrário do que sucede na Europa? Mais, como Estado parece ser incapaz de gerir o que tem (veja-se o incêndio do ano passado no pinhal de Leiria), que lições pode dar para que os pequenos proprietários se juntem? Sem esta questão prévia parece impossível combater-se o que será um hábito, até por causa das alterações climáticas.

A economia é fulcral. A ela alia-se o repovoamento. Sem oferta, não se atraem jovens para reocupar estas terras isoladas e desertas de gente. A política de abandono por parte do Estado do interior levou também a estas catástrofes. Ou seja, sem uma reforma estrutural da acção do Estado, sem uma gestão profissional da "floresta" e sem a associação de pequenos proprietários (uns idosos, outros ausentes), nada mudará. Há depois a capacidade operacional dos bombeiros (e a sua coordenação). Parece que as opções com base política ainda se sobrepõem muitas vezes à qualidade e conhecimento. Será fácil agora criarmos uma caça às bruxas para descobrir culpados. Mas este Frankenstein veraneante que nos incomoda tem que ver sobretudo com a incapacidade de Portugal tomar decisões estruturais. Neste sector, como em muitos outros.»

.

2 comments:

Carlos Pinheiro disse...

O nosso Frankenstein foi o diabo, tão apregoado que vinha o ano passado, que andou e continua a andar por aí à solta. Claro que o desordenamento florestal existe. Claro que a falta de pessoas no interior é evidente. Tudo isso é verdade, mas se não andasse por aí à solta o tal diabo nos dias de muito calor, de muito vento e de humidade zero, com os fósforos ou os isqueiros na mão, se calhar não teriam havido os incêndios tenebrosos de 2017 nem este de 2018.

FERNANDO ANTÓNIO DOS REIS DE DEUS disse...

Aos pequenos proprietários foram oferecidos os eucaliptos. Prometeram lhes assim uma fonte de renda. A propriedade privada é sagrada, cada um faz o que lhe der na real gana, nunca será responsabilizado pelos eventuais danos a terceiros. O eucaliptal, a tal fonte de renda, nunca é nem será alvo de ordenamento. Por conta dele, foi montada uma nova INDUSTRIA, a do FOGO. com tudo o que ela arrasta, e não é pouco, industria essa que mexe com muitas centenas de milhares de euros. Ponham os donos dos eucaliptos a pagar os bombeiros, a pagar os danos que fazem.