27.11.20

A quem estamos entregues?

 

«(Declaração de interesses: tenho 76 anos e devo admitir que o choque pessoal que me causaram as notícias de hoje possa influir neste escrito. Tentarei evitá-lo) 

A notícia do dia é a de um plano estratégico de vacinação contra a covid elaborado por um grupo não identificado da DGS e apresentado por Graça Freitas numa reunião do Conselho Nacional de Saúde Pública. Antes de o comentar, deixo a minha perplexidade pelo processo. O governo nomeou um grupo de missão para a vacinação, que, dentro de um mês, terá de apresentar um plano de que consta, obrigatoriamente, a estratégia, com a definição de prioridades e do escalonamento por fases de vacinação. Sendo assim, o que levou Graças Freitas a este enorme erro político, com óbvias consequências na opinião pública, de apresentar à discussão um plano chocante e polémico, prematuro e à revelia das competências do grupo oficial de trabalho, e que o próprio primeiro ministro, como veremos adiante, já teve de vir fazer a “reparação de danos”? 

Já depois das primeiras notícias, veio o Ministério da Saúde esclarecer que a estratégia de vacinação ainda não foi discutida com a tutela e que as informações vindas a público estão incluídas num documento meramente técnico e são parcelares e desactualizadas. Mas o mal já está feito e é, a meu ver, o erro mais grave de todos os já cometidos pela DGS. 

O plano é chocante, absurdo e, pelo que pude estudar hoje, duvidosamente baseado em evidência científica. Quase que é caso para se exigir a identificação, para memória futura, dos seus autores. 

A opção mais surpreendente é a de não considerar como prioritário o grupo etário dos mais de 70 anos (ou 75, o que vem a dar quase no mesmo). Desde o início da pandemia que sempre foi considerado como um grupo a proteger e a quem era recomendado o cuidado de se resguardarem no domicílio, tanto quanto possível. Muito bem. Note-se que não são de risco só por sofrerem mais frequentemente de comorbilidades; a idade é um fator de risco, em si mesma. 

Agora, diz a DGS que as informações das farmacêuticas e da EMEA não apresentam evidência a favor da vantagem da vacinação dos maiores de 75 anos. Podia dizer-se que pode ser mais um caso de diferença entre “não evidência de que” e “evidência de que não”. Mas é mais. Não consegui confirmar essa informação. Pelo contrário, o que li sem margem para dúvidas, por parte da Pfizer, da Moderna e da AstraZeneca, é que as suas vacinas são eficazes em todos os grupos etários. 

Há prioridades no plano que são indiscutíveis: o pessoal e utentes dos lares e o pessoal dos serviços de saúde. Note-se que nos utentes dos lares não haverá distinção de idades, apesar da tal alegada ineficácia da vacina nos mais idosos, que são a esmagadora população dos lares. 

Neste primeiro grupo incluem-se também cerca de 250000 pessoas entre 50 e 75 anos com insuficiência cardíaca, respiratória e renal. Não se conta com os diabéticos e hipertensos descompensados, que são muito mais numerosos e que só virão no último escalão de prioridade. Até agora, a percentagem de mortes no escalão etário 50-70 anos é de cerca de 12%, sendo os restantes 88% de idade superior a 70 anos. A vacinação dos primeiros, no caso de todos os tais 250000 poderem ser infetados, evitará, portanto, cerca de 30000 mortes, teoricamente. A vacinação dos maiores de 75 anos (cerca de 1,7 milhões, 16,3% dos portugueses), mesmo que neste caso, por exercício de argumento, a eficácia da vacina seja de 60%, protege cerca de 1,5 milhões de pessoas, nas mesmas condições teóricas (possibilidade de todos serem infetados). Ao que parece, as únicas contas que este plano fez, numa perspetiva estritamente médica e insensível a considerações éticas e de saúde pública global, baseiam-se no facto de a maioria dos internados em cuidados intensivos serem doentes entre os 50 e os 70 anos com comorbilidades graves. Mas pode ser este o critério principal, por muito que preocupe os médicos intensivistas? De entre os 4276 mortos, no total, e do excesso de mortes não relacionadas diretamente com a covid, que percentagem representam os mortos em UCI? 

Já agora, um aspeto porventura menor. Vão ser vacinados prioritariamente 45000 membros das forças de segurança. Qual é, até agora, a incidência e a mortalidade covid neste setor? Tem afetado significativamente a função das forças de segurança? No meio de tanto disparate, nem me tranquiliza o facto de isto se dever a um erro exclusivo da DGS. As primeiras declarações de Francisco Ramos, responsável pelo grupo agora nomeado pelo governo, não mostram desmarcação em relação a este plano, embora ainda não saibamos o que vai ser o plano definitivo do grupo. 

Fica ao menos alguma esperança no discernimento político de António Costa, que hoje já veio pôr água na fervura, afirmando que "as vidas não têm prazo de validade” e que "há critérios técnicos que nunca poderão ser aceites pelos responsáveis políticos”. Oxalá. E porque estão calados todos os outros responsáveis políticos e partidários? Já se deviam estar a ouvir os clamores. 

P.S. - E também Marcelo. “É de presumir que as pessoas responsáveis não tenham ideias tontas”.» 

João Vasconcelos-Costa, médico virologista, no Facebook (27.11.2020, 17:00)
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