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23.2.16

Ajoelhar no milho



«No tempo do Marquês de Pombal existiam castigos muito comuns que se aplicavam aos alunos mal comportados: a palmatória ou o ajoelhar no milho. Este consistia em que o aluno se ajoelhasse com os joelhos nus sobre grãos de milho cru.

Além da dor e dos vestígios que deixava (hematomas profundos), funcionava como humilhação. O vexame caiu em desuso. Nos últimos dias muitos membros da nossa pequena e média elite têm discorrido sobre o facto de o Governo ter "ajoelhado" perante Bruxelas. Gostariam do regresso do castigo de ajoelhar no milho. Uns clamam contra o facto para que os portugueses se esqueçam que eles próprios ajoelharam em silêncio e em privado perante a troika de uma forma ainda mais ostensiva: ajoelhando-se ainda antes de alguém pedir isso, para mostrarem o seu afinco e fé. Outros, aparentemente, saúdam o facto porque acham que Portugal, para se redimir, deve estar debaixo de uma tutela ou de uma canga por parte dos iluminados de Bruxelas, "para aprender".

Ajoelhar é um sinal de submissão. Quem se levanta vive. Bruxelas e o seu coro de Schäubles, Dijsselbloems e Moscovicis desejam que Lisboa se ajoelhe perante eles. Não têm coragem para pedir o mesmo a Londres, mas isso é outro assunto. Que tem mais que ver com ser forte com os fracos e fraco com os fortes.

Portugal é, há muitos séculos, um servo da dívida. Mas sempre garantiu alguma soberania, apesar das suas elites. Por isso o que custa não é este ajoelhar contínuo. É o secreto prazer que alguns têm em louvá-lo. Como se o nosso destino fosse sempre ter de haver um mestre-escola, de preferência estrangeiro, a dar-nos reguadas pelo mau comportamento, a empobrecer as gentes deste país, a destruir qualquer ponta de orgulho nacional que nos possa restar.

Há quem deseje que não sejamos independentes. Preferem que sejamos um colonato de Bruxelas e a praia de Frankfurt. Alguns devem estar desejosos de ser os concessionários locais dessa empreitada. Porque já empenharam o seu orgulho.»

Fernando Sobral

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