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28.3.16

Em 1967, foi polémica a vinda de um papa a Fátima



Era minha intenção ter «desenterrado» este texto quando Marcelo Rebelo de Sousa foi a Roma convidar oficialmente o papa para vir a Fátima em 2017, mas os dias foram passando e só agora lá chego.

Quando já é praticamente certa a vinda do actual papa ao centenário que será celebrado em Fátima, recuo cinquenta anos e recordo factos, provavelmente pouco conhecidos ou entretanto apagados das memórias, relacionados com a primeira visita de um papa a Portugal – Paulo VI, por ocasião do cinquentenário das supostas aparições na Cova da Iria –, nomeadamente o insistente desejo de Salazar para que a mesma não tivesse lugar.

Este texto é retirado do meu livro Entre as brumas da memória – Os católicos portugueses e a ditadura, Âmbar, 2007. Limito-me aos parágrafos que referem os factos, omitindo as reacções dos chamados «católicos progressistas» – que foram muitas e que, em princípio, virei a abordar mais tarde.

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Na segunda metade do ano de 1966, começou a ser ventilada a hipótese de Paulo VI se deslocar a Fátima por ocasião do cinquentenário das aparições, em 13 de Maio de 1967.

Em Novembro de 1966, a Conferência Episcopal dirigiu- lhe um convite formal nesse sentido, mas só em 1 de Maio de 1967 é que foi oficiosamente comunicada a decisão definitiva à embaixada de Portugal no Vaticano. Viria a ser oficialmente confirmada pelo próprio Papa, dois dias depois, na Basílica de S. Pedro.

De Novembro a Maio, subsistiu a dúvida e a posição de Salazar foi clara: «Não devemos dar um único passo ou ter um gesto que o Papa possa interpretar como significando interesse da nossa parte em que venha a Fátima.» (1) O ressentimento [devido à ida do Papa a Bombaim, em 1964, considerada como uma afronta depois da anexação de Goa pela União Indiana] não tinha passado. Mas quando a decisão foi conhecida, o governo afirmou que, «seguro de interpretar os sentimentos profundos de todos os portugueses, quer nesta ocasião expressar a honra e o júbilo da Nação Fidelíssima perante este acontecimento da maior relevância histórica» (2). (…)

Aproximava-se o dia 13 de Maio. Soube-se que o Vaticano tinha «despolitizado» a viagem: o Papa não viria a Lisboa (o avião papal aterraria em Monte Real), não condecoraria ninguém (em Bombaim, o presidente da União Indiana tinha recebido a mais alta condecoração concedida pelo Vaticano a não cristãos), não seria hóspede do governo mas sim do bispo de Leiria.

Sabe-se agora que, cerca de uma semana antes da viagem, o governo recebeu uma informação da Embaixada de Portugal em Madrid, segundo a qual se preparavam atentados contra personalidades portuguesas de vulto e contra o próprio Papa. De Nova York, terá vindo uma outra notícia dizendo que um grupo de oficiais estava a organizar um golpe de estado contra Salazar. Estes boatos obrigaram a um reforço das medidas de segurança em Fátima, impedindo, por exemplo, que Paulo VI fizesse alguns percursos a pé, como inicialmente previsto. (…)

Nos bastidores do poder, passaram-se episódios que só muito mais tarde viemos a conhecer. Com a aversão que tinha a Paulo VI e com a sua proverbial misantropia, Salazar ficou furioso quando soube, na véspera das comemorações e já em Monte Real, que o Papa queria que a irmã Lúcia estivesse presente, porque considerou tratar-se de um acto puramente demagógico. Ameaçou mesmo regressar imediatamente a Lisboa, mas acabou por ficar – no Hotel de Monte Real, onde a estadia, com meia pensão, custou 220$00…

Para Franco Nogueira, «foi um dia de grande emoção popular, de grande espectáculo, de grande política para a ala conservadora da Igreja.» (3)

Para os que não se incluíam nessa «ala conservadora», as feridas estavam abertas e, para alguns, não se fechariam.

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Lá chegarei um dia destes, até porque estive muito envolvida em todo o processo.

(1) Franco Nogueira, Salazar, Vol. VI – O Último Combate (1964 – 1970), 3ª edição, Civilização, Coimbra, 2000, p. 275.
(2) Idem, ibidem, p. 278.
(3) Franco Nogueira, Um político confessa-se – Diário (1960-1968), Civilização, Porto, 1986, p. 236.
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