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3.2.16

O cessar-fogo



«Vespasiano chegou ao poder e teve a desagradável surpresa de encontrar as arcas vazias. Nero e as guerras civis tinham deixado Roma sem um sestércio. Vespasiano, ousado, aprovou um imposto sobre a utilização dos banhos públicos.

Tito, desagradado com a medida, questionou o pai. E este respondeu-lhe: "O dinheiro não tem cheiro." Mário Centeno, para fazer jus ao seu passado, poderá pensar que não tem. O problema é que Bruxelas gosta do dinheiro com um cheiro e PCP e BE do vil metal com um aroma totalmente diferente. Sendo assim, como é que todos poderão frequentar os mesmos banhos públicos, sem uma tempestuosa gritaria no seu interior?

O OE não é uma questão, mesmo atraente, sobre que sabonete usar ou que perfume pôr. Este, de 2016, atrasado como o país, ainda não vai implicar que alguém atravesse o Rubicão. Porque todos têm algo a ganhar se ele não for chumbado em Bruxelas ou, de forma mais panfletária, no Parlamento português. Por isso quem vai negociá-lo não é o ministro das Finanças, Centeno, mas António Costa. Será ele que, nos gabinetes de Bruxelas e Berlim, terá de mostrar que este OE não é uma lotaria. Não é fácil, mas é negociável. Mas, claro, o resultado vai ser um cessar-fogo em que todos os intervenientes não acreditam na paz eterna.

No meio de tudo isso, Mário Centeno percebe que a técnica perdeu face à táctica. Porque a técnica era má e só a táctica pode salvar a face do Governo. Não é contorcionismo: é realismo. Agora ninguém ganha com a guerra. Mas, um dia destes, a paz será impossível.»

Fernando Sobral
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