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22.6.16

Tempos interessantes



«“Possam os teus filhos viver tempos interessantes”, ou seja, que as complicações que normalmente advêm da vivência de importantes acontecimentos históricos não aconteçam no (meu) tempo presente. Este é o verdadeiro sentido do célebre adágio chinês. (…)

Eu já vivi sucessivos tempos interessantes, (revolta estudantil de 1962, revolução do 25 de Abril de 1974, ingresso na Comissão Europeia em Janeiro de 1989, excluindo da lista os mais de 4 anos de serviço militar obrigatório, com passagem pela guerra colonial), e por isso sou levado a não concordar com a prudência chinesa, pois nem tudo é mau quando se vive tempos interessantes, sendo que o pior são as ilusões perdidas, aquilo que se projectava conquistar e não se realizou. Ainda hoje sinto isso em relação aos ideais do 25 de Abril, vividos com grande esperança de renovação da sociedade portuguesa e a triste desilusão que se nos depara no país actual. O mesmo se passará, ainda com mais intensidade, em relação aos países africanos que se tornaram independentes há 40 anos, de quem fui companheiro de sonhos na minha juventude, mas cujos descendentes actuais só muito tenuemente possuem consciência dos projectos falhados dos pioneiros das independências. (…)

Vem isto a propósito de mais dois acontecimentos interessantes deste mês de Junho, o “Brexit” e as eleições espanholas, que dizem respeito não apenas aos eleitores daqueles países, mas a todos nós. (…)

Não é por acaso que as principais centrais sindicais britânicas Unite, Unison e outras, com um total de 6 milhões de aderentes, apelam ao voto pela manutenção na União Europeia, pois que o governo conservador, no caso do voto pelo “Brexit”, se apressará a desmantelar os direitos laborais que ainda são respeitados por via dos tratados europeus. O mesmo fez o actual líder do Partido Trabalhista Jeremy Corbyn, que tinha sido até agora um eurocéptico.

Três dias depois do referendo sobre o “Brexit”, em 26 de Junho, haverá eleições legislativas em Espanha, onde o Podemos, aliado com o Unidos (que resultou do desmantelamento do PCE), defende uma política ao mesmo tempo soberanista e europeísta, conforme refere num artigo recente no El País o seu líder Pablo Iglesias. Sendo que a parte europeísta é associada aos direitos sociais, em que num novo modelo produtivo se aliariam forças políticas e sociais com sectores estratégicos do empresariado, tanto em Espanha como na Europa. Temos de convir que para chegar a este objectivo muito caminho terá de ser feito. Mas é isto que faz os nossos tempos interessantes e valerem a pena ser vividos.»

José Pereira da Costa

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