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29.3.10

Magister dixit?


Eu gostava que alguém me explicasse o que é que Anselmo Borges escreveu de tão extraordinário, no artigo publicado há dois dias no DN, para que tantas almas - cristãs, agnósticas ou ateias - o citem e louvem com incomensurável veneração. Disse o mínimo e o óbvio que milhares de pessoas repetiram, nos últimos dias e no mundo inteiro.

A diferença reside apenas no facto de ser do conhecimento público que ele é padre, eu sei, e é isso que contesto, porque é o velho argumento de pseudo-autoridade, que vem nestes momentos ao de cima, incrustado que está no mais profundo das nossas entranhas. Pseudo-autoridade já que, segundo julgo saber, ele não exerce qualquer função de chefia que lhe permita, amanhã, entregar um eventual padre pedófilo aos tribunais ou afastá-lo de funções. O cidadão Anselmo Borges - teólogo, filósofo e professor universitário -, limitou-se a escrever, e bem, um artigo de opinião, que não assina como padre. Mas o que passou a ter importância foi o que se sabe acerca do mensageiro e não propriamente a mensagem. Sem que  o dito mensageiro tenha qualquer responsabilidade, como é óbvio.

Se amanhã o padre Anselmo Borges vier dizer que, enquanto tal, se recusa a participar em cerimónias durante a visita de Bento16 a Portugal, ou pedir a resignação do papa e explicar porquê, aí, sim, citá-lo-ei com a maior das admirações.

P.S. - O Miguel Serras Pereira adaptou o texto dos dois comentários que aqui deixou e transformou-o em post publicado agora no Vias de Facto. A discussão passa para um outro patamar.

19 comments:

Ana Paula Fitas disse...

Subscrevo, Joana. Obrigado.
Um abraço.

Ana Paula Fitas disse...

E escrevi sobre a matéria.

Miguel Serras Pereira disse...

Cara Joana,
estou absolutamente de acordo com as preocupações que o teu post transmite. Ressalvo - mas isso não afecta nada de essencial - que considero que a crónica do Anselmo Borges está muito bem construída, evita o sensacionalismo e põe os pontos nos ii que decide analisar.
Estando pois de acordo com o que escreves, levo mais longe as nossas preocupações afins. E creio que me acompanharás ou, se for caso disso, me corrigirás na formulação que lhes tentarei dar a seguir.

Receio, com efeito, que o escândalo dos padres predófilos e da protecção de que gozaram, que as imputações que a esse propósito são feitas a Ratzinger no desempenho das suas altas funções anteriores às do pontificado, que, em suma, a crítica dos maus costumes que encontraram abrigo no espaços mais intra muros eclesiástico, desviem a atenção da questão de fundo que uma concepção minimamente exigente da democracia não pode deixar de levantar perante as pretensões políticas da Igreja de Roma em geral e da sua reiteração particularmente intensa por parte do actual papa, que nisso permanece idêntico ao que já sustentava com insistência nos tempos do seu antecessor.

Bento XVI, que nem a alegada inspiração do Espírito pôde desfazer do seu ratzingerianismo anterior, destaca-se, na realidade, pela reafirmação dos direitos de supervisão e intervenção que competiriam à Santa Sé em matéria política, direitos que equivalem a outras tantas limitações da democracia.

Nos termos da sua concepção, o debate e a liberdade democráticos só seriam legítimos mediante a subordinação dos seus participantes à interpretação da "lei natural" de que Roma e a hierarquia eclesiástica, que gozam como se sabe de uma via de comunicação privilegiada e autorizada com a divindade, são detentoras. Fora disso, ou contra o magistério papal e eclesiástico na matéria, a liberdade democrática torna-se abominação, usurpação e ilegitimidade. Pelo que aos poderes políticos, espiritualmente aconselhados por Roma, em troca da consagração por esta da sua legitimidade, competem o direito e o dever de subordinar a liberdade de deliberação e decisão dos cidadãos ao "esplendor da verdade" (para me servir do título de uma das mais ratzingerianas encíclicas do anterior chefe de Estado do Vaticano).
(cont.)

Miguel Serras Pereira disse...

(continuaçãao)

Acontece que este "paradigma" do esplendor de uma verdade revelada, superior ao que é acessível ao juízo falível da simples razão humana entregue a si própria, e cuja interpretação correcta é objecto de administração hierárquica, é na realidade a negação da democracia e do regime peculiar de liberdade de interrogação e crítica que é condição necessária da sua extensão e desenvolvimento. Bem pode o papa dizer depois que "só a verdade liberta" e que o esplendor da verdade é seu penhor. Porque, se não há verdade senão a que cabe na interpretação romana da "lei natural" e/ou na revelação autorizadamente interpretada, a liberdade deixa de ser escolha e responsabilidade dos humanos, deixa de ser deliberação pelos cidadãos das suas formas de vida e convivência, decisão pelos mesmos cidadãos do quadro dos trabalhos e dias da sua cidade. Ao autogoverno, autodeterminação e autonomia da política democrática, secularizada e não-profissional, substitui-se o objectivo de assegurar que o rebanho será bem governado, por um lado, e que, por outro, todos deverão integrar-se, em princípio, no rebanho e, enquanto não o fizerem, ser controlados na sua liberdade de movimentos de maneira a não prejudicarem a segurança das ovelhas ou a autoridade do pastor e o seu magistério.

Acrescento ainda que este paradigma se mantém sob aspectos essenciais e continua a ser uma negação fundamental da democracia se à revelação e à interpretação da "lei natural" substituirmos o "esplendor da verdade" - dita só ela "revolucionária" - detida pelo Partido Comunista, "consciência organizada dos trabalhadores", e cientificamente aplicada ao governo da sociedade, sem complacências para com as falsas ou ilusórias representações da classe empírica, tributárias de um desconhecimento das leis da história, das exigências da infra-estrutura ou do saber superior dos "revolucionários profissionais".

É esta dimensão e longo alcance tanto da "questão religiosa" como daquilo a que tenho chamado a exigência (democrática) de destituição política da religião e do seu paradigma de governo que receio ver obnubilada pelo escândalo da pedofilia sacerdotal e do seu encobrimento pela hierarquia eclesiástica romana. Estes devem sem dúvida ser denunciados e condenados, mas sem perdermos de vista que a questão religiosa tem mais que se lhe diga - um pouco do mesmo modo que é insuficiente, sempre do ponto de vista democrático, denunciarmos os casos de corrupção sem levantarmos o problema do governo da actividade económica no seu conjunto e o das condições da devolução aos cidadãos do seu poder de deliberação e decisão nessa esfera.

Um abraço

Joana Lopes disse...

Miguel,

Percebo a tua preocupação quanto a um possível desvio das atenções unicamente para estas questões ligadas à pedofilia, mas julgo, por um lado, que se trata neste momento de algo imparável, embora provavelmente temporário e, por outro, que pode haver um abalo suficientemente forte para que sejam equacionadas algumas das questões de fundo que abordas a seguir. Ou seja, para que saia gravemente esfarrapada a autoridade que Roma sempre reivindicou.

Nunca haverá «democracia» porque se manterá «o "paradigma" do esplendor de uma verdade revelada», gerido centralmente no Vaticano – ou seria a implosão da própria instituição, hipótese que me parece pouco provável.

Mas, voltando ao que está em causa e pegando no teu último parágrafo, penso que aquilo a que estamos a assistir pode tornar para muitos evidente que a instituição hierárquica da igreja que corporiza a autoridade religiosa é má, não é benéfica para a humanidade nem para a verdadeira democracia e que têm de se livrar dela definitiva e rapidamente. Como, há algumas décadas, tantos saíram porque perceberam isso mesmo com a traição às vãs esperanças criadas pelo Vaticano II, que não passaram de ilusões.

Miguel Serras Pereira disse...

Cem por cento de acordo, camarada Joana!
A minha ideia era só dizer que só a densidade da floresta permitia, entre outras coisas, esconder esta árvore.
Abrç

msp

Alexandra Tavares Teles disse...

N... Ver maisão posso concordar, Joana. Primeiro, porque o mensageiro interessa, claro que interessa, quanto mais não seja porque a credibilidade da mensagem, quando assinada na primeira pessoa, depende da credibilidade de quem a emite. E em Portugal, na luta por uma Igreja decententemente cristã, Anselmo Borges destaca-se desde sempre. E destaca-se como padre ( e eu sei-o bem porque tenho o privilégio de conhecer desde criança). Além disso, Joana, acreditar que n foi também o padre quem escreveu o artigo é fazer crer aos outros que se pode ser e defender às segundas, quartas e sextas o contrário do que se é e defende às terças, quintas e sábados. Impensável em Anselmo Borges. Quanto ao último parágrafo, vai desculpar-me Joana, mas parece-me demasiado demagógico e fácil para caber no que conheço da autora. Investigue-se o Vaticano, juntem-se provas, acuse-se o Papa, leve-se a tribunal, condene-se,se for caso disso - e então, depois, venham os cristãos exigir a resignação. O papa n está cima da lei dos homens mas tb n pode estar abaixo. Está sob suspeita, ponto. E por isse, devem os cristãos exigir uma investigação exaustiva à responsabilidade do Vaticano nesta tragédia. E o que eu acabei de dizer pesa mais se for dito por mim, cristã, do que se for dito pela Joana, ateia. Podemos dizer as duas o mesmo mas só eu estou a apontar o dedo para mim mesma.

Joana Lopes disse...

Alexandra,

Copio para aqui o que lhe respondi no Facebook:
Pois discordamos, Alexandra, mas não por ser cristã e eu não. Nem está em causa a pessoa de AB que não conheço mas gosto de ler. Mas sim a tal questão da mensagem e do mensageiro e do argumento de autoridade.

E acrescento: o último parágrafo, foi para se perceber o tipo de exemplos em que AB agiria como padre. Não pretendo dizer, obviamente, que os cristãos devam «exigir» a resignação de Bento16 ontem ou hoje.

Rui Bebiano disse...

O artigo de Anselmo Borges tem maior peso justamente porque é um discurso normal que vem de um universo anormalmente silencioso (e silenciado, ou autosilenciado). Por isso tem mais força e autoridade do que se viesse de um leigo. Há ainda outra razão para lhe darmos algum relevo: quantos outros padres católicos têm afirmado publicamente as «trivialidades» que AB aqui adianta? Leio vários jornais todos os dias e não me lembro da última vez que dei com algo nesta direcção escrito por um padre português... (...minto: li há tempos um outro artigo, talvez um pouco mais «cauteloso» porque foi escrito noutro contexto, do mesmo AB)

Joana Lopes disse...

Rui,
Em relação à importância do mensageiro, repito o que disse no post e à Alexandra. Claro que por calcular que a minha posição não era a mais mais corrente é que escrevi o post, depois de ver n citações do texto de AB, em nem sei quantos blogues, como se Cristo tivesse vindo à terra anunciar coisas extraordinárias.

Independentemente disso, o AB só é talvez uma voz única se nos mantivermos ao nível da «paróquia», ou seja de Portugal. Como calculas, já nem sei quantos textos li nos últimos dias sobre o assunto, muito mais radicais, vindos de dentro da igreja.

Rui Bebiano disse...

Mas então estás a dar razão aos argumentos de quem defende a importância *para a paróquia* do texto do Anselmo...

A propósito e sobre a originalidade portuguesa de AB: "Do Mesmo ao Diferente. Questões deste Tempo", publicado pela Figueirinhas em... 1979. Um destes dias, se me chegar a arte e o engenho (como diz o outro), ainda escreverei sobre este livro. Merece.

Joana Lopes disse...

Rui,
Cada um acha umas coisas mais importantes do que outras: entramos no domínio do subjectivo.

E eu continuo a não considerar importante, nem para a «paróquia», o que um padre, por ser português, pensa desta questão que é mundial. Tal como, quando leio um texto no teu blogue, não lhe dou mais ou menos força por seres historiador e teres nascido neste país à beira mar plantado, mas pelo conteúdo.

Joana Lopes disse...

P.S. - O Miguel Serras Pereira adaptou o texto dos dois comentários que aqui deixou e transformou-o em post publicado agora no Vias de Facto. A discussão passa para um outro patamar.

http://viasfacto.blogspot.com/2010/03/da-pedofilia-privada-aos-vicios.html

Rui Bebiano disse...

Não quero desviar a conversa, Joana, mas mais uma vez discordo da perspectiva que, a título de exemplo, adaptas a mim próprio. Não é verdade: o facto de ser historiador de profissão determina responsabilidades e fórmulas de autoridade, em temas conexos, que o cidadão comum geralmente não possui. Muitas vezes bem preferia que não fosse assim... E por isso mesmo muitas vezes me calo quando me apetecia opinar: justamente porque aí o peso é outro e deve ser mais ponderado em termos de rigor e clareza. Dependendo muito do local e da circunstância em que tal acontece, evidentemente.

Woman Once a Bird disse...

Chego tarde, mas chego a tempo.
Concordo com a Alexandra e com Rui Bebiano. Neste caso em específico interessa especialmente que o mensageiro seja quem é, exactamente porque se acusa a Igreja de silêncio ensurdecedor quanto a estes casos. E neste caso específico interessa ainda mais porque Anselmo Borges não tem sido uma voz silenciosa até agora sobre matérias banstante incómodas para Igreja. "Limitar-se a escrever" aqui não é apenas isso e é injusto, permita-me, que tenha menorizado de tal forma a rectidão do artigo assinado por AB.

Declaração de interesses:
Fui aluna de Anselmo Borges e continuo a considerar-me sua aluna de cada vez que leio os seus artigos ou o que tem publicado. Não sou católica (apesar de ter sido educada enquanto tal) e bati a porta a uma instituição que me pôs de fora, pelo facto de ser mulher. Também sobre isto AB tem sido voz incansável. O homem, o cidadão, o teólogo, o filósofo, o professor universitário Anselmo Borges nunca se furtou, desde que o conheço, a questionar o que quer que seja. E não será por ser padre que a sua frontalidade deve ser menorizada.

Miguel Serras Pereira disse...

Caros Interlocutores,

quero crer que há aqui dois problemas distintos.
1. Na medida em que a opinião de AB é a de uma voz que vem do interior da igreja em apreço, e na medida em que veicula uma crítica a certos aspectos da organização e da disciplina eclesiásticas, é evidente que significa qualquer coisa mais do que a mesma opinião emitida por um cidadão exterior à colectividade dos fiéis. Do mesmo modo, denunciar o PEC como uma opção política que visa consolidar a posição de vantagem dos detentores das alavancas de comando e direcção da actividade económica tem implicações peculiares quando aparece nas declarações de um membro do PS - implicações que a mesma denúncia não assume na boca de um militante do BE ou de um independente -, na medida em que manifesta um conflito interno, uma luta de tendências, etc. no interior do aparelho partidário.
2. Mas isto não significa que, quando se trata de avaliar o desempenho político da Igreja de Roma, ou o seu comportamento perante a questão da pedofilia praticada por alguns dos seus sacerdotes, a pertença eclesiástica implique por princípio um juízo melhor ou mais lúcido do que o dos cidadãos comuns. Sustentar o contrário não andaria muito longe de sustentar que só os governantes ou os membros responsáveis de um partido governante podem avaliar bem as dificuldades, os problemas, as prioridades políticas, etc., uma vez que são eles que estão por dentro… do governo.
Assim, dizer que AB tem mais autoridade para falar da crise que o escândalo da pedofilia causou na praça pública do que os cidadãos comuns, pelo facto de ser sacerdote e eles não, equivale a afirmar que a pertença à hierarquia católica romana é uma superioridade quando se trata de discutir publicamente os comportamentos dessa hierarquia.
Por mim, creio que o post da Joana foi contra este tipo de raciocínio que quis alertar. E foi por isso que aproveitei a sua deixa no sentido em que o fiz aqui.

Saudações republicanas

msp

Alexandra Tavares-Teles disse...

"Não pretendo dizer, obviamente, que os cristãos devam «exigir» a resignação de Bento16 ontem ou hoje."

Mas o que a Joana diz é que só citaria AB com admiração se ele o fizesse pouco se importando com um pormenor: o Papa não foi condenado por nenhum tribunal. Há suspeitas investigue-se, é o que neste momento devem exigir os cristãos.

Joana Lopes disse...

Alexandra: já expliquei mas repito. O que quis dizer é que destacaria o «mensageiro» se o fosse na sua função de padre. Mais nada.

O meu último parágrafo começa por «SE AMANHû, sem que isso signifique 4ªf, 31 de Março, como é óbvio, mas sim «no futuro». Mas, se preferir, acrescente-se «caso venha a provar-se que o papa é culpado de...».

alexandra tavares-teles disse...

Quando nos dois comentários falo em cristãos,estou, obviamente, a referir cristão católicos.