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12.4.12

Desenhar a liberdade numa cela de Caxias



(Pintura de Mário Silva, feita em Caxias, em 1962)

Regresso à Crise Académica de 1962 porque João Gaspar, editor-executivo do Jornal Universitário de Coimbra «A Cabra», me enviou agora este texto. Faz parte de um número especial daquela publicação – «50 anos de Dia do Estudante»  – que eu já tinha referenciado.


Em 62, estudantes disseram que não ao regime, vaiaram o reitor e ainda desenharam a democracia numa cela de Caxias. Esta é a história de gente que se fez candeia no meio da desgraça.
 
Quatro da manhã e o ambiente na sala é tenso. O receio espalha-se pelos olhos dos presentes e não há espaço para muitas falas. Os colegas que manifestavam apoio ao cerco na rua já haviam sido dispersados brutalmente pela polícia. 

Vão espreitando à janela. Lá fora, já conseguem ver as carrinhas da PSP. O cerco aperta-se e as movimentações sugerem que a barricada vá ser arrombada. Reúnem-se todos na sala e sentam-se no chão à espera de ouvir o estrondo de cadeiras e mesas a cederem à entrada da polícia de choque. São uns gorilas, homens de negro dos pés à cabeça, de capacete, armados até aos dentes, e que aparecem em tantas histórias como carrasco de rebeldias durante o Estado Novo.

O coração apressa-se e o estrondo ouve-se. A barricada é abatida pela força e os polícias de preto apressam-se a chegar à sala onde 150 estudantes estavam sentados. Num impulso repentino, imposto pelo medo do embate, meia dúzia de estudantes levanta-se e começa a cantar “A Portuguesa”. Todos os outros imitam o gesto. No meio, vozes tremelicam de tantos nervos. A polícia de choque hesita e fica sem saber o que fazer. Pára diante dos estudantes, de pé, a entoarem o hino nacional. O cântico acaba e os polícias começam a encaminhar os estudantes para fora do Palácio dos Grilos, que não oferecem resistência. Evita-se a pancada. O comandante da polícia, reconhecendo, entre os estudantes, Mário Silva, dirige-se a ele:

-Estão aqui todos?

-Sim, senhor comandante.

Mentia. Uns quantos tinham-se escapulido para o sótão. Mostram-se documentos e vai toda a gente em carrinhas para o quartel da Guarda Nacional Republicana, na Avenida Dias da Silva. 

Os cerca de 150 estudantes fazem fila à espera de saber o que os espera. São identificados e revistados um por um. Tiram-se fotografias e impressões digitais. A certa altura, aparece o implacável inspector Sachetti, conhecido de tantos que lá estavam. Põe uma secretária e pede para que se faça uma fila com os estudantes. Fica à frente, a separar trigo de joio. Na secretária, rodeado de papéis com o carimbo da PIDE, Sachetti faz perguntas breves e curtas, num ar de satisfação. Finalizado o interrogatório, escolhe para que lado vai o estudante. Chega a vez de José Augusto Rocha, velho conhecido de Sachetti, de tantas vezes que foi exigir a libertação de colegas presos. Sachetti sorria em traços largos, tamanho era o ódio que tinha a José Augusto Rocha. Emanava a perfumes, como sempre. Um cheiro imundo. Impecavelmente vestido, careca, cara redonda, sem pescoço, entroncado. Eis Sachetti e José Augusto Rocha, frente a frente. 

-Finalmente apanhei-o! – diz, triunfal.

José Augusto Rocha, não se intimida com Sachetti, que até já tinha prendido dois dos seus próprios sobrinhos.

-Veremos no futuro… 

Nessa madrugada de 19 para 20 de Maio, vai na primeira carrinha para Caxias. Juntam-se a ele mais 38, enquanto quatro raparigas ficam presas na sede da PIDE em Coimbra. Os restantes estudantes saíam, em liberdade.


Um abalo sem-medo

Não foi preciso 62 para José Augusto Rocha ganhar a consciência de que aquela liberdade tinha muito pouco disso mesmo. Na sua cabeça rodopiavam desde muito cedo os ensinamentos de António Sérgio. Ainda estudante liceal em Viseu, devorou os oito volumes de ensaios do filósofo português. O neorrealismo português, de Manuel da Fonseca a Carlos de Oliveira, era também de leitura obrigatória. Percorriam-se livrarias à procura de obras escondidas, trocavam-se depois à socapa, distribuíam-se panfletos e ensaios franceses rodavam de dono. Os olhos perdiam palas. 


À sua frente e todos os dias, José Almeida, estudante de liceu que mais tarde iria parar à guerra colonial, via um Portugal atrasado e sonolento, disciplinado pelos polícias, dominado pela Igreja e pelos caciques do salazarismo. Hélder Costa, alentejano de Grândola, ganhava consciência numa terra onde panfletos comunistas e movimentações clandestinas estavam sempre presentes.

Também outros sentiam esse Portugal no seio da família, marcados à nascença. Rui Namorado tinha como tio o poeta Joaquim Namorado, militante comunista e colaborador da revista Vértice. Mário Silva também já estava marcado. O seu pai, velho inimigo de Salazar, entrava em 1947 na lista de docentes e cientistas afastados das universidades portuguesas.

Mas, no cinzentismo mudo, veio em 58 um general sem-medo para abalar Portugal. Dizia que demitiria Salazar se vencesse as presidenciais. O abalo sentiu-se nos estudantes. José Augusto Rocha logo se prontificou a apoiar Humberto Delgado. David Rebelo, de Medicina, perdeu-se na campanha e acabou o ano só com uma cadeira feita. Os estudantes rodeavam o general em campanha, colavam cartazes e distribuíam panfletos, electrizados pelo sonho de um Portugal livre. Jacinto Rodrigues e João Rego, jovens do Porto, que já se atreviam em artigos de cariz social no jornal de liceu Elo, encontram um mar de gente a encher a cidade no dia em que Humberto Delgado fora ao Porto. No meio da multidão, João Rego, em euforia, perde o livro no meio da manifestação.


Academia de boca calada

Apesar do apoio da população, Humberto Delgado perde as eleições, forjadas pelo regime. O país começa a ganhar consciência e a aperceber-se de que é possível fazer frente ao Estado Novo. Mas em Coimbra a ressaca das presidenciais ainda não se faz ouvir. A Associação Académica mantém-se do lado do regime, as famílias republicanas contam-se pelos dedos das mãos e a actividade cultural é quase inexistente. Todavia, alguns jovens, alimentados pelo romantismo juvenil, já assobiam outras ideias, contrárias àquelas que o regime inculca. 

O Palácio dos Grilos, edifício da associação, é um local quase morto. Aulas, passeios pela baixa, cinema, algumas tertúlias, café e pouco mais. Olhos no chão e boca calada. Uma Coimbra marcada pela tradição, onde os fados ainda pesam mais que Zeca Afonso ou Adriano Correia. A Balada de Outono já se canta mas poucos a ouvem.

 A esquerda tenta ganhar as eleições, contudo as listas são politicamente muito marcadas. Eis que em 1960 interrompe-se a hegemonia conservadora. O Conselho das Repúblicas convida José Belo Soares para se candidatar, que recusa, convencido de que era uma lista destinada a perder, apontando o nome de Carlos Candal. Convida-se Candal, tido como orador nato, de palavra cortante e cerebral. Materializa-se a contestação que até então se fazia de cochichos e conversas informais. Florescem tertúlias, debates, colóquios, alimentados por novas secções culturais. 


Um passo de mulher

As mulheres ganham outra liberdade. Até então, o seu papel discreto e reservado, quase que as fazia passar por fantasmas. O controlo das freiras não as deixa a muito mais, assim como os olhares de uma sociedade machista e conservadora. Quase que silenciadas, vão despertando pelos seus próprios pés. Eliana Gersão é uma das que toma iniciativa. No bar de Letras, dá um passo dentro. Repara logo nos mirones constrangidos, são eles rapazes de Medicina e de Direito que ocupam o bar para namoriscar com os olhos as meninas de Letras. Não era normal uma mulher entrar no bar. Continua, indiferente. Já no Conselho Feminino a estudante rompe com a ideia da mulher doméstica. Acompanhada por Candal, vai aos lares pedir às freiras para deixarem as raparigas participarem nas actividades à noite. Lá conseguem que as raparigas saíssem em grupos de cinco ou mais, mas com a condição de voltarem logo assim que as actividades terminassem.

Já em 61 surge o primeiro convívio das três academias nacionais. Na manhã do rescaldo, Eliana Gersão, a sair de casa vê a cidade coberta de panfletos anónimos a perguntar onde é que as raparigas das academias teriam dormido. “A Voz”, jornal colado ao regime, continua com as insinuações grotescas, a avisar as famílias dos comportamentos que as suas filhas teriam. A difamação resulta. Os pais intervêm e o Conselho Feminino fica dividido. Convoca-se assembleia magna. Eliana Gersão, perante duas mil pessoas, dirige-se ao púlpito. Magra, baixinha e meio atrapalhada no meio de tanta gente, deixa o nervosismo de lado e discursa em defesa das estudantes.  

Entretanto rebenta a guerra colonial em África. O medo nos jovens estudantes de Coimbra faz-se sentir e desertar é palavra de ordem para alguns, sujeitos a um qualquer dia receber a carta de mobilização para a guerra. 

“Senhor presidente/ devo dizer-lhe que a minha situação está tomada/ eu vou desertar”. Nas ruas alguns já assobiam a “Desérteur” do francês Boris Vian e os colegas africanos e indianos começam a desaparecer, a responder à guerra de libertação. Na Latada de 61, estudantes angolanos seguram num cartaz a dizer “Angola é nossa” - a mesma frase que os jovens portugueses têm de gritar na recruta. Também a direcção de 61/62 da academia sente na pele a guerra do ultramar. A lista proposta para suceder a Carlos Candal é encabeçada por José Almeida. Em Maio, numa terça-feira, ganham as eleições. Na sexta-feira seguinte José Almeida recebe o guia de marcha para reincorporar a tropa, com vista à mobilização para a guerra colonial. Em Angola debate-se perante o dilema de o empurrarem para lutar por uma causa que condena. A direcção-geral fica sem presidente. Escolhe-se Jorge Aguiar. Acontece-lhe o mesmo fado. 

Vem o nome de Francisco Paiva, que está isento do serviço militar por já ter ido às inspecções militares antes de a guerra começar. Francisco Paiva assume a presidência da direcção-geral, sem saber que no ano seguinte seria tempo de crise académica. 


O Kremlin de Coimbra

No Mandarim, ‘habitat’ de muitos dos jovens de esquerda, as discussões eram acesas e arrastavam-se até às duas da manhã. Apelidado de Kremlin pelos de direita, os dois andares do café enchem-se de fumo e de conversas cruzadas. Apesar dos debates agressivos e das anedotas à volta de mais uma qualquer frase desconexa do presidente de Portugal, Américo Tomás, os olhos estão sempre atentos aos homens vestidos de forma suspeita, figurinos pidescos, de óculos escuros, que rondam o Mandarim à coca de frases menos ingénuas. Dentro do café, alguns vão à casa-de-banho, para lançarem segredos abafados pelo som do autoclismo, com medo de escutas. 

No Mandarim agitado folheia-se a semanal Via Latina, escrita e dirigida por estudantes e para estudantes. Avelãs Nunes era o director e José Carlos Vasconcelos o chefe de redacção. Numa altura em que os jornais ou aparecem mudos ou a vociferar como marionetas salazaristas, as oito páginas da Via Latina insurgem-se como alternativa e esgotam facilmente, quer nas mãos do porteiro da associação, quer na sacola do ardina Teixeira, que anuncia com a sua voz rouca, na Praça da República, mais um número. Já em 62, na altura do assalto ao quartel de Beja, um grupo de estudantes pega nos jornais e diz-lhe:

-Ó Teixeira pá, tu vendes isso pá, é se tu disseres que isso traz uma entrevista com o Humberto Delgado! 

Ele acata e começa a anunciar, de Via Latina na mão: 

-Olhá Via Latina! Traz entrevista com o Delgado!

 Muitos poemas e ensaios não saem da censura. Muita finta se tinha de fazer ao lápis azul, apesar de em Coimbra a censura ter na secretária um velho coronel, reformado, e que vê mal. Censura cega de corte ao metro. Para receber o carimbo de aprovação da PIDE, escolhe-se um estudante de ar calminho e aprumado. Numa dessas vezes, vai o César Oliveira, que, entre os artigos, tinha um poema seu com um grande sentido de intervenção. O coronel, que cortava em doses industriais, faz uma proposta ao estudante:

-Sabe, a minha netinha faz anos amanhã. Se me escrevesse uns versos… deixo-lhe passar o poema.

Faz-se a transacção. A neta recebe uns versos mimosos e o poema sai na Via Latina. Antes do jornal ser proibido, fica outro momento de finta. O Encontro Nacional de Estudantes, marcado para 9 a 11 de Março, é proibido. Apesar disso, e seguindo a posição das academias nacionais, a Via Latina decide escrever um artigo, de véspera, sobre a realização desse mesmo encontro. Para escapar ao olho da censura, fizeram a notícia o mais pequena possível e puseram-na na secção Porta Férrea, destinada a notícias mais modestas. Óscar Monteiro, moçambicano, ar bem posto, foi ter com o velho coronel, na tentativa de o convencer de que eram tudo notícias corriqueiras. Dá-lhe as notícias para a mão e o coronel começa a ler. Óscar Monteiro desvia-lhe a atenção da secção Porta Férrea:

-Ó Coronel, já sabe como é, são as notícias habituais.

Passou. E com aquela pequena notícia fez-se toda a primeira página da Via Latina. O pessoal da censura fica fulo e telefona para a redacção:

-Vocês são uns vândalos! Isto não pode acontecer! Vamos-vos proibir o jornal!

José Carlos Vasconcelos, ainda a saborear a rasteira, argumenta:

-Mas ela foi visada pela censura.

Não valeu de nada. Ainda antes de 24 de Março, dia do estudante, a Via Latina deixa de circular. A 13 de Março, a direcção-geral aproveita a inauguração da Biblioteca-geral para tentar uma entrevista com o ministro da Educação Nacional, rejeitada anteriormente. 500 estudantes com faixas e cartazes, começam a berrar lá fora palavras de ordem “Liberdade! Liberdade associativa!”. 

A gritaria continua, e na janela vêem-se cabeças do regime espantadas. Entre elas, a do todo-poderoso Sachetti. O inspector da PIDE vai ter com os estudantes e pede para a manifestação ser desconvocada. José Augusto Rocha rejeita a desmobilização e exige um encontro com o ministro. Conseguem a entrevista e o ministro compromete-se a satisfazer as reivindicações dos estudantes. Contudo, no dia do estudante, a conversa fica-se pelo fiado. Centenas de estudantes que se querem dirigir a Lisboa no dia 24 vêem a sua acção impedida pela polícia. Autocarros, comboios e até alguns carros são impedidos de continuar o trajecto.


O atropelo e o comboio parado

José Augusto Rocha, António Taborda e Margarida Losa metem-se no Mini beje de David Rebelo, sabendo que nos outros transportes dificilmente chegavam a Lisboa. No Carregado, a polícia de trânsito manda parar o Mini, de matrícula TO-31-14. Falharam num ponto: iam de traje. A polícia ronda o carro à procura de qualquer coisa. David Rebelo salta do carro.

-Senhor guarda, porque é que estamos aqui parados?

-Então… estão parados porque… atropelaram um ciclista em Leiria.

Até no polícia se via que era mentira.

-Mas onde é que o carro está amolgado?

Sem resposta, o polícia andou à volta do carro e encontrou um risco com ferrugem ao pé da roda traseira.

-Vê? Está aqui!

-Então mas isso já tem ferrugem. E na traseira…

Depois de três horas de frete acabam por deixar os estudantes seguirem caminho para Lisboa. Quando chegam, a manifestação já tinha sido dispersada pela polícia de choque. Também Rui Namorado, César Oliveira, Cabral Pinto e Jacinto Rodrigues não têm melhor sorte. Com os comboios para Lisboa interceptados, lembram-se de apanhar a carruagem da Linha do Oeste. Mais astutos, Rui Namorado e César Oliveira deixam a capa e batina em casa, e vão apanhar o comboio à futrica, juntamente com malta do Coral de Letras. Contudo, na Amadora, o comboio pára. Alguns passageiros estranham. O comboio não parava naquela estação. A espera alonga-se até que a polícia de choque entra na carruagem. “Todos os estudantes de Coimbra para fora do comboio”. Cabral Pinto vê pela primeira vez uma metralhadora apontada ao seu peito. Jacinto Rodrigues, perante o aparato, ainda desafia um dos brutamontes:

-Então esse armamento é a sério ou é só para assustar a malta?

 Não obtém resposta e o silêncio deixa arrepios nos estudantes. Ficam cercados os cerca de 60 estudantes pelo dobro de polícias. No meio da confusão, duas raparigas começam a desabafar, atrapalhadas e com medo. 

-Tenho gente à minha espera em Lisboa. Eu que nem ia ao dia do estudante, só ia aqui no comboio…

César Oliveira ouve-as e incita-as a reclamar. Aproxima-se do polícia mais próximo.

-Senhor guarda, está aqui gente que não vem para o Dia do Estudante. Não é aceitável terem arrancado essas pessoas do comboio, que até têm gente à espera… 

-Mas porque não disseram isso no comboio?

-Mandaram sair todos os estudantes de Coimbra! Não falaram em Dia do Estudante.

O polícia vai ter com o seu superior e arranja uma carrinha de caixa aberta, com bancos de madeira, para os levar para Lisboa. César e Rui, à civil, colam-se às duas raparigas e acabam por rumar a Lisboa. Às dez da noite eram deixados no Rossio. Os restantes estudantes são postos em carrinhas da GNR, aos empurrões. Dentro da carrinha fazem um festival de berros ao entoarem o “Canta, camarada, canta”. A certa altura, conseguem parar num descampado com a desculpa da bexiga cheia. Alguém avisa os polícias:

-Senhor guarda, ou faço xixi ou morro.

Param num descampado, já com a noite caída. Rui Neves, um dos estudantes, avisa a Cabral Pinto que não vai voltar. Calmamente e cheio de cautela vai-se afastando. Cabral Pinto nunca mais o viu. 

Em Maio, já depois de a associação pedir a demissão do reitor Braga da Cruz, as instalações da associação são encerradas. No dia 7, quatro mil estudantes saem do Palácio dos Grilos e dirigem-se ao Governo Civil. José Augusto Rocha vai à cabeça da manifestação, ainda estupefacto com tanta gente mobilizada. Na rua Alexandre Herculano, José Augusto Rocha vê que atrás das árvores da praça e para os lados do Jardim da Sereia encontravam-se polícias armados. A manifestação pára e toda a gente se senta no chão. José teme um confronto. Vai ter com o comandante e diz que a única solução é uma reunião com o governador civil. Estudantes sugerem que se avance, outros, mais moderados, pedem uma negociação. 

José Augusto Rocha pesa os dois lados. Tinha vontade de avançar, mas todas aquelas metralhadoras ali à sua frente, a possibilidade de haver mortos… Acaba por fazer recuar e desmobilizar a manifestação. Conversa com o governador civil, mas entretanto os diálogos acabam. 


A 1ª ocupação

Decide-se, em magna, ocupar o Palácio dos Grilos. Um grupo de estudantes arromba a porta da torre da universidade, e Alçada Baptista, todo cheio de genica, toca o sino a rebate. Ouve-se na cidade inteira a Cabra. Uns tratam de ocupar o palácio, outros mobilizam o pessoal, quer nas ruas, falando com os futricas, quer nas aulas, que interrompem para chamar os estudantes.

Dentro do velho edifício, os estudantes reúnem-se, formam barricadas, recebem mantimentos vindos do muro que dava para o pátio interior. Lá dentro Mário Silva pinta um mural onde se vê um estudante agarrado às grades de uma prisão, a olhar para o sol da liberdade. Alguns cumprem o programa de sono, outros entregam-se a utopias cheias de luz. Entre eles, há estudantes que, arrebatados com tamanha movimentação e impelidos pelo romantismo, chegam até a pensar, no vento que lhes passa, que o reitor se vai demitir ou até que o regime vai cair. De manhã acordam com o sonho em ferida. 

A polícia de choque rodeia o Palácio dos Grilos, e, por sua vez, uma onda de estudantes de todas as faculdades rodeia a polícia. Clima tenso. Dentro e fora do edifício. Eliana Gersão, cá fora, não pensa em abandonar os colegas. Ninguém pensa. Mantêm-se firmes, mesmo que o medo do confronto cirandasse nos seus pensamentos. Chega uma comissão de professores para negociar com os estudantes. As chaves do edifício são entregues pela direcção-geral à comissão a troco de algumas promessas. As magnas passam a realizar-se no campo de Santa Cruz, mas quando é nomeada uma comissão administrativa para a secção de futebol, a decisão é tida como uma provocação do reitor Braga da Cruz.

Era preciso ocupar uma segunda vez o Palácio dos Grilos. Não se podia convocar a ocupação em magna, que se corria o risco de encontrar a polícia no edifício quando lá chegassem. Então, Francisco Delgado, membro do CITAC, usa da sua voz forte, treinada pelo teatro, e lança-se aos estudantes:

-Vamos todos ao assalto à Bastilha! Vamos todos à Associação Académica!

Tinha medo que ninguém o seguisse, mas quase duas centenas de estudantes respondem ao pedido. Num esticão estão lá, a correr que nem miúdos, prontos para a reocupação. Jacinto Rodrigues e o seu colega Aidos atiram-se à porta. Vale o corpanzil de Aidos para a porta ceder. Rui Namorado, Luís Madeira e outros estão encarregues de tocar o sino a rebate. Chegam à torre e a porta está trancada com traves de madeira. Vão a umas obras que havia ali perto e pegam num barrote. Conseguem arrombar a porta e Luís Madeira sobe até ao topo, mas não sabe tocar o sino a rebate. Malograda a tentativa, descem e vêem já a polícia a cercar a frente do Palácio dos Grilos. Encontram maneira de descer por uma escada para a sede da AAC. Mas a ocupação acaba com a ida dos 39 para Caxias, numa madrugada fria. A eles junta-se, dias depois, Mac Maon, presidente da Assembleia Magna. Ficam formados os 40 de Caxias.


A democracia em prisão

Presos, aprendem o significado de palavras que lhes estão tão longe. Lá dentro vivem, antecipadamente, um projecto embrionário de democracia directa, com rotativismo de tarefas, num espelho daquilo que desejam para o país. Impõem a sua própria liberdade. Surge o Ministro do Interior, do Exterior, das Limpezas, da Saúde, do Yoga, e Mac Maon a liderar os colegas, com a sua postura implacável, digna, cheia de alma. Em linguagem firme, defende os estudantes dos guardas prisionais. Cantam gritos de revolta, ouvem histórias que saíam de outras celas. Histórias de mineiros de Aljustrel, que lhes ensinam cantares de gente amordaçada.   

Uns vão saindo e trazendo novidades de fora. Jacinto Rodrigues manda um postal para os que ainda estão dentro de Caxias. “Está um sol quente. Mas eu tenho raiva em poder participar de uma coisa que vos é negada”. No final do postal, diz que o mundo os acabaria por escutar. 

Passado um mês, com todos cá fora, reúnem-se em Coimbra, para um jantar com os 40 cachos e as quatro uvas, como dizia a ementa desenhada por Mário Silva. No meio do alvoroço e de cantigas, Jacinto Rodrigues atira-se para cima da mesa de jantar e dança a kalinka, em jeito de troça por serem chamados de comunistas.

Seguem-se os processos disciplinares na universidade. O grupo já tinha combinado apenas reconhecer a assinatura e a recusar-se a prestar declarações. Chega a vez de Rui Namorado se ir a interrogatório. Quando chega ao pátio da universidade encontra o seu pai, médico que tinha sido proibido de exercer a profissão em qualquer estabelecimento público. Dirige-se a ele e ouve as palavras que ainda hoje o fazem tremer. 

-Filho, não tens que ceder em nada. Se fores expulso és expulso, mas nunca baixes a cabeça. 

 Nenhum baixou a cabeça. 


Esta reportagem foi escrita com base nos depoimentos de Artur Pinto, Cabral Pinto, David Madureira Rebelo, Eliana Gersão, Francisco Paiva, Hélder Costa, Jacinto Rodrigues, João Martins Rego, José Augusto Rocha, José Carlos Vasconcelos, José Lopes de Almeida, Judite Cortesão, Luís Lemos, Mário Silva, Mendonça Neves e Rui Namorado.  
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