11.5.10

Habemos papa (2)


Do bom gosto…

E, afinal, parece que «O Papa não usa Prada, mas Cristo».
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Habemos papa (1)


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Ainda sobre «A Esquerda Radical»


Ausente do outro lado do mundo, não estive no lançamento do livro de Miguel Cardina, mas chamo a atenção para a entrevista que deu à Angelus Novus.

A última pergunta e a respectiva resposta:
P. Existe uma “esquerda radical” hoje? Dito de outra forma: o Bloco de Esquerda é o “herdeiro natural” do legado (ou legados) da esquerda radical? E, admitindo que a resposta é positiva, o que significa isso?

R. Várias perguntas com diferentes respostas. Vamos por partes: existe hoje uma esquerda radical que ainda pensa e age de acordo com os cânones da esquerda radical das décadas de 1960 e 1970. Tem pequenas expressões organizativas, mas é sobretudo uma maneira de ver o mundo e a política que também conflui com modos de activismo presentes no Bloco de Esquerda. Mais complicada é a questão de saber se o Bloco de Esquerda é o “herdeiro natural” desse legado. Eu diria que é e não é. Por um lado, o BE tem uma parte da sua origem associada a partidos de extrema-esquerda, de matriz trotskista e maoísta, que decidem operar uma espécie de salto qualitativo que lhes permitisse sair do gueto no qual pareciam estar condenar a ficar. Mais: muitas das suas bandeiras de luta, que em última análise remetem para um entendimento da opressão – e da emancipação – como realidade plural, tiveram a sua génese ou reconfiguração no radicalismo dos anos sessenta e setenta. Por outro lado, é hoje evidente que as melhores e mais qualificadas intervenções do BE são feitas a partir do Parlamento, para onde canalizam boa parte das suas energias. Este aspecto, bem como uma postura mais dialogante para com os restantes partidos de esquerda, são, em certa medida, uma novidade que não se encontra no radicalismo daqueles anos.
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10.5.10

Visita do papa - última hora


Homem de pouca fé, Bento16 temeu que a nuvem o impedisse de aterrar em Lisboa e veio andando: anda incógnito pelo Douro, tentando vindimas fora de época.
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Lost in transition


De Calcutá para Lisboa, do Sol indiano para o mundo dantesco que passou a ser, intermitentemente, o dos aeroportos europeus, numa experiência que ultrapassa tudo o que as televisões possam tentar mostrar.

Passo a resumir. Depois de uma etapa Calcutá – Frankfurt, longa mas até relativamente repousante, deparámos com um primeiro e assustador «Cancelled» alinhado com o anúncio do nosso voo para Lisboa. Nem sonhávamos então o que viriam a ser as treze horas que se seguiram, de check-in em check-in até ao desespero quase total. Finalmente, o quarto cartão de embarque para a quarta fila de espera em aviões superlotados deu-me o último lugar no último voo da noite. Menor sorte tiveram alguns companheiros de viagem que, à hora em que escrevo, ainda não chegaram a casa.

Indo um pouco atrás. Se ninguém pode prever quando vem e para onde vai a malfadada nuvem, seria de esperar que a experiência de semanas tivesse servido para corrigir algumas aberrações, como, por exemplo, a rigidez da Lufthansa que, mesmo sabendo que a TAP, seu parceiro na Star Alliance, estava a voar para Lisboa com muitos lugares vagos, não nos encaminhou para os mesmos, insistindo em nos manter em filas de espera irrealistas nos seus próprios aviões. Se o caos é inevitável, não parece haver grande empenho ou profissionalismo em o minimizar.

Viagem Frankfurt – Lisboa, portanto? Não necessariamente: meia hora antes da aterragem, soubemos que esta aconteceria… no Porto, onde autocarros esperavam para nos trazer a Lisboa. Ironia de destinos vários: em Frankfurt, os voos para o Porto estavam a ser cancelados…

Na recolha das malas, verifiquei que a minha - e só a minha!... – não tinha vindo, facto que esteve na origem do episódio mais kafkiano da noite (já início do dia de hoje, pelas 6 da manhã). Depositada na Portela, impunha-se que fosse declarar que a minha bagagem não tinha chegado ao destino. Para isso, tinha de entrar por uma porta pela que é suposto que apenas se saia, já que se reclama o extravio de malas no átrio em que as mesmas são normalmente recolhidas, antes de se passar a alfândega e de sair para o hall das Chegadas. Eu estava do lado de fora, claro, porque não está previsto que se faça um voo… de autocarro! Nada convenceu os mais de vinte seguranças com que falei, das mais variadas empresas, a acompanhar-me, já que a nenhum competia essa tarefa. Todos me diziam que só me restava tomar o meu lugar numa fila para o minúsculo balcão de Apoio ao Cliente, com dois ou três funcionários, onde centenas de pessoas (milhares?) esperavam em serpentina, que, bem esticada, deveria dar a volta a todo o aeroporto. Dez subidas e outras tantas descidas depois, uma alma caridosíssima deu-me o telefone directo do balcão a que eu aspirava chegar há mais de uma hora e lá convenci uma senhora a vir-me buscar cá fora. A partir daí, tudo correu bem, até me pareceu que as duas funcionárias ensonadas ficaram contentes por ter algo para fazer, já que estavam ali enclausuradas, com o aeroporto encerrado, numa área deserta a que ninguém conseguia aceder, embora houvesse multidões com bagagens extraviadas, na tal terrível fila do Apoio ao Cliente.

Tudo isto é normal? Não me parece, mas enfim. Uma coisa é certa: viajar na Europa não voltará a ser o que era e, como em muitos outros domínios, a ferrugem parece ser quem mais ordena neste velhíssimo continente.
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7.5.10

Kolkata


Calcutá é o caos em forma de cidade com catorze milhões de habitantes, um trânsito acima (ou abaixo) de qualquer descrição possível, o som permanente de buzinas como música de fundo, desleixo e lixo como aparente forma de estar na vida. Em termos de clima, passa-se rapidamente de um Sol brilhante e de um calor húmido em que tudo se cola à pele a uma trovoada monumental e a chuva de cats and dogs. Ou seja, apanha-se um escaldão de manhã e regressa-se ao hotel encharcado dos pés à cabeça.

A primeira impressão é péssima, a segunda bem melhor. Em termos arquitectónicos há muitos vestígios da permanência inglesa, em prédios e em cerca de cem palácios que seriam lindíssimos se não estivessem quase sempre degradados. Existem grandes superfícies verdes (que fariam lembrar Hyde Park se a relva servisse apenas para lazer de humanos e não também para pasto de rebanhos de cabras e de uma ou outra vaca, mas isso faz parte do ADN da cidade), jardins com árvores lindíssimas e gigantescas (incluindo a maior do mundo, Guinness dixit). E, aparentemente, há uma vida cultural e científica intensa.

Muitos locais a visitar, outros tantos a evitar: escapei hoje a umas horas de estrada para visitar a casa onde está enterrada a Madre Teresa (!...), mas passarei amanhã por uma outra onde ela fez não sei exactamente o quê.

Ainda por cá andarei amanhã e começa depois o regresso… E vou sem perceber se um país como este pode ser convenientemente governável, tendo uma população que cresce em três pessoas por minuto (nascem cinco e morrem duas) e mais do que triplicou desde a independência, em 1947. Fala-se muito da aposta da Índia em educação, mas dizem-me que faltam 40% das escolas necessárias para assegurar o ensino básico. Claro que aumenta o número das grandes fortunas, o fosso entre ricos e pobres, acusa-se a classe política de corrupção, etc., etc. – business as usual.

Haverá BRIC que resista a tudo isto? Não faço a menor ideia. Mas, por todas as notícias que vão chegando, o que parece certo e garantido é que, neste momento, mais vale ser BRIC mesmo por aqui do que PIG aí por essas bandas…


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6.5.10

Ainda sobre a Petição «Cidadãos pela Laicidade»

Já que o Miguel Serras Pereira revelou que estive na origem desta iniciativa, juntamente com ele e com o Ricardo Alves, volto ao assunto - de Calcutá, onde estou agora.

Precisamente porque saí do país antes de a Petição ser lançada, coube-lhes a eles, muito mais do que a mim, a fase final do trabalho. Além disso, e como o Miguel frisa bem, foram muitos os contributos vindos de alguns dos vinte e sete primeiros subscritores que passaram assim a ser todos co-autores do texto.

Menos de 48h depois de ser lançada, a Petição já tem, no momento em que escrevo, mais de 2.500 assinaturas, mas gostava de deixar aqui um apelo. Se ainda não assinou e, de um modo geral, está de acordo com o conteúdo e com o objectivo que está em causa, não se prenda a detalhes de um adjectivo a mais ou a menos ou de um aposto ou continuado (isto já não deve chamar-se assim, mas adiante) que lhe desagrade.

Digo muitas vezes que tenho décadas de experiência de pôr o meu nome em abaixo-assinados… «apesar de». Raramente me arrependi.
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5.5.10

No Ninho do Tigre


Não se vem ao Butão sem ver o Ninho do Tigre, um dos mais importantes locais de peregrinação para os budistas, construído nas escarpas de uma montanha sobre o vale de Paro, a quase 3.000 metros de altitude (outra foto no fim deste post).

Da base do rochedo até ao topo, trepam-se cerca de 900 metros em altura, por um trilho de terra e pedregulhos. A pé? Sim, para quem quiser. Mas eu tive a preciosa ajuda de um simpático poney que me transportou, durante cerca de uma hora e meia, e me depositou em frente do mosteiro de onde se tem uma vista de cortar a respiração. (Havia ainda uns 800 x 2 degraus a subir e a descer para entrar no dito Ninho e ver não sei exactamente o quê, para além de um monge a falar ao telemóvel, mas isso já não fiz.)

Já sem o poney e apenas com dois cajados, o pior foi a descida e fiquei com a ideia de que, ao contrário dos nossos, os santos budistas ajudam mais para cima do que para baixo. Mas a aventura foi inesquecível e a paisagem em que nos movemos de uma beleza de um outro mundo.

Saio amanhã do Butão (aterrorizada por ir aterrar em Calcutá…), com uma enorme simpatia por este povo de uma delicadeza que roça a candura. E com uma grande curiosidade quanto à evolução política e social de tudo isto: para os nossos cérebros ocidentais, é difícil levar a sério o tal conceito de «Gross National Happiness» e confesso que ouvir dizer, sem pestanejar, que se mede o desenvolvimento e o progresso de um país pelo grau de sorriso das pessoas ultrapassa todas as utopias com que alguma vez sonhei…

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4.5.10

Aviso à navegação

Ainda estou no Butão, tenho tido acesso à net, mas não me tem sido possível responder aos Comentários, alguns feitos a posts recentes e outros nem por isso. Não só porque o tempo de resposta é mau mas, sobretudo, porque por vezes nem consigo sequer entrar na Caixa de Comentários. Lá chegarei…
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Cidadãos pela Laicidade

Petição «Cidadãos pela Laicidade»
Senhor Presidente da República Portuguesa,

Nós, cidadãs e cidadãos da República Portuguesa, motivados pelos valores da liberdade, da igualdade, da justiça e da laicidade, manifestamos, através da presente carta, o nosso veemente protesto contra as condições – oficialmente anunciadas – de que se revestirá a viagem a Portugal de Joseph Ratzinger, Papa da Igreja Católica.

Embora reconhecendo que o Estado português mantém relações diplomáticas com o Vaticano e que a religião católica é a mais expressiva entre a população nacional, não podemos deixar de sublinhar que ao receber Joseph Ratzinger com honras de chefe de Estado ao mesmo tempo que como dirigente religioso, o Presidente da República Portuguesa fomenta a confusão entre a legítima existência de uma comunidade religiosa organizada, e o discutível reconhecimento oficial a essa confissão religiosa de prerrogativas estatais, confusão que é por princípio contrária à laicidade.

Importa ter presente que o Vaticano é um regime teocrático arcaico que visa a defesa, propaganda e extensão dos privilégios temporais de uma religião, e que não reúne, de resto, os requisitos habituais de população própria e território para ser reconhecido como um Estado, e que a Santa Sé, governo da Igreja Católica e do «Estado» do Vaticano, não ratificou a Declaração Universal dos Direitos do Homem – não podendo portanto ser um membro de pleno direito da ONU – e não aceita nem a jurisdição do Tribunal Penal Internacional nem do Tribunal Europeu dos Direitos do Homem, antes utilizando o seu estatuto de Observador Permanente na ONU para alinhar, frequentemente, ao lado de ditaduras e regimes fundamentalistas.

Desejamos deixar claro que, se em Portugal há católicos dos quais uma fracção, mais ou menos importante, se regozijará com a visita de Joseph Ratzinger, há também católicos e não católicos para quem o carácter oficial da visita papal, o seu financiamento público e a tolerância de ponto concedida pelo Governo, são agressões perpetradas contra os princípios de laicidade do poder político que a própria Constituição da República Portuguesa institui.

Esta infracção da laicidade a que estão constitucionalmente vinculadas as autoridades republicanas torna-se ainda mais gritante e deletéria quando consideramos que se celebra este ano o Centenário da Implantação da República, de cujo legado faz parte o princípio de clara separação entre Estado e Igreja, contra o qual atentará qualquer confusão entre homenagens a um chefe de Estado e participação oficial dos titulares de órgãos de soberania em cerimoniais religiosos.

Declaramos também o nosso repúdio pelas posições veiculadas pelo Papa em matéria de liberdade de consciência, igualdade entre homens e mulheres, auto-determinação sexual de adultos, e outras matérias políticas.

Porque nos contamos entre esses cidadãos que entendem que a laicidade da política é condição fundamental das liberdades e direitos democráticos em cuja defesa e extensão estão apostados, aqui deixamos o nosso protesto e declaramos a Vossa Excelência o nosso propósito de o mantermos e alargarmos através de todos os meios de expressão e acção ao nosso alcance enquanto cidadãos activos da República Portuguesa.

Subscritores iniciais:
Alexandre Andrade, Andrea Peniche, António Serzedelo, Carlos Esperança, Eugénio de Oliveira, Francisco Carromeu, João Pedro Cachopo, João Tunes, Joana Amaral Dias, Joana Lopes, José Rebelo, Ludwig Krippahl, Luís Grave Rodrigues, Luís Mateus, Luis Sousa, Maria Augusta Babo, Miguel Cardina, Miguel Duarte, Miguel Madeira, Miguel Serras Pereira, Onofre Varela, Palmira Silva, Pedro Viana, Porfírio Silva, Ricardo Gaio Alves, Rui Tavares, J. Xavier de Basto.

A petição pode ser assinada aqui.
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3.5.10

O laicismo não passou por aqui


E alguma vez passará?
Este magnífico Palácio da Felicidade, onde estive hoje em Punakha, no Butão, é um misto de grande complexo administrativo e religioso. Numa ala, funciona um tribunal e o governo distrital, por cima moram monges, em frente há um grande templo, obviamente budista, com três altares com estátuas de personagens que, em Portugal, poderiam corresponder a Cristo, ao Cardeal Saraiva Martins e a Afonso Henriques – este último com uma foto de Cavaco aos pés. E isto passa-se mais ou menos assim em todos os dzongs do país - muitos e arquitectonicamente lindíssimos.

Sendo o budismo religião de estado, este curiosíssimo povo não mata qualquer espécie de animal, mas isso não o impede de regularmente os comer: carne e peixe fazem parte da alimentação, alegadamente porque a altitude o exige sob pena de envelhecimento precoce… Mas, antes de meter a garfada à boca, reza-se uma oração pelo bicho que vai ser ingerido. Quem mata então os ditos animais? Os vizinhos hindus, sem qualquer tipo de problema – ou seja, o ecumenismo em todo o seu esplendor.

Ainda não perdi a esperança de perceber melhor o que é o Gross National Happiness que há tanto me fascina. Amanhã ouvirei uma explicação e já pedi que me arranjassem um livro. Quem sabe se a troca do PIB pelo GNH não ajudará um dia a resolver muitos problemas dos nossos atormentados PEC’s!
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2.5.10

Sustos e boas surpresas


Estou aqui por um mero acaso – ou dois, para ser mais precisa. Da fronteira da Índia à capital do Butão, Thimphu, não são muitos quilómetros mas é uma eternidade de estrada, onde circular é uma perfeita e indescritível aventura. Por duas vezes, hoje, quase íamos indo por um Himalaia abaixo: sobraram centímetros de estrada depois de evitados os choques e feitas as manobras. Mas não fomos, dizem-nos que por aqui é sempre assim e não conseguimos averiguar que percentagem de turistas não regressa a casa. A perícia dos motoristas é extraordinária e a nossa inconsciência também.

A verdade é que vimos, durante horas, uma paisagem absolutamente fabulosa, com montes, vales, cascatas e árvores de uma beleza que nenhuma fotografia pode reproduzir.

Este pais do tamanho da Suíça e com apenas 800.000 habitantes, o primeiro non smoking coutry do mundo só porque é proibido importar tabaco mas onde obviamente se fuma, em que há um compromisso oficial de manter 60% do território coberto por floresta e que tem como desporto mais popular o tiro ao arco, parece, de facto e como me tinham dito, absolutamente original. As casas são lindíssimas, até os blocos de habitação recentes têm frisos pintados que lhes dão um aspecto único.

Tem um rei de 30 anos, a favor de quem o pai abdicou apesar de ainda só ter agora 53, e que é um dos dez filhos das suas quatro mulheres, todas irmãs. Há portanto poligamia, numericamente ultrapassada em certas regiões pela poliandria. E diz-se que é o país asiático mais igualitário a nível de género. Confuso? Nem tanto assim.

Muito mais há para contar – ficará para amanhã.

Private P.S. – Família e amigos da São: não se assustem, sobreviveremos!
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