26.1.16

O adeus de Passos Coelho



«Em Itália, Beppe Grillo, o cómico transformado em político, saiu de cena. Em Portugal, o homem conhecido por abraçar Guterres e ir a "reality shows", Tino de Rans, ou mais prosaicamente Vitorino Silva, promete ficar por aqui. "Não vou parar por aqui", prometeu. (…)

Candidatos como Tino de Rans são demasiado frágeis para amolgar a hegemonia dos partidos, mas são um sinal de que um dia algo pode surgir, ou seja, uma tempestade tropical provocada pelo aquecimento global dos partidos e pelo efeito do calor no discernimento dos líderes. Mas, até lá, a vitória de Marcelo tem outros efeitos. Sossega, pelo menos para já, António Costa na direcção do Governo, gerindo entre as múltiplas sensibilidades e interesses que se cruzam no Parlamento e nas sedes sindicais.

A vitória de Marcelo é sobretudo o toque de finados para Pedro Passos Coelho: a sua reforma antecipada é agora inevitável, porque o mundo onde foi fermentado secou. Marcelo, apoiado por Passos depois de este ter engolido um sapo, é pelo consenso e não pela política das pedradas. O teatro de comédia para este terminou ao intervalo. E já não volta, nem como "compère". Como se provou na curta declaração, sem açúcar ou sal, que debitou na noite presidencial. Tino de Rans, pelo menos, sorriu imenso após os resultados. Passos Coelho declarou o seu próprio fim. Como se fosse uma tragédia. E não o é.»

Fernando Sobral

25.1.16

Tout va bien?



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Lá vai o português


@alfredocunha

«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.

Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.

No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu, com muita honra. E nisto não é como o coral que faz pé firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).

Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.

Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.

Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.

É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.

Assim, como?»

José Cardoso Pires, E Agora, José?, 1977
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Dica (209)



O indispensável plano B. (Alexandre Abreu) 

«Não se trata de deixar de fazer o que está a ser bem feito, como gostaria a direita. Trata-se de preparar antecipadamente como conduzir politicamente um tal choque externo, para que não seja a direita a conduzi-lo.» 
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Uma boa piada é uma boa piada


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Surpresa nas cartas marcadas



«Marcelo ganhou. Era o resultado anunciado mas tremeu até ao último minuto. O candidato de direita fez a campanha ao centro, entronizando-se como o melhor amigo do governo Costa, dado que, para Marcelo, mais vale ser presidente da marmita durante um par de anos do que duque recalcitrante a vida toda. Com tal amor, arriscou a dissidência da direita, mas esta soube engolir o sapo. O recado é este: se a direita quer guerra, ainda vai ter que esperar.

O PS, dando por certo que Marcelo ganharia e medroso da sua divisão interna, escondeu-se numas “primárias” entre Nóvoa e Belém e a coisa descambou em rasteirice. Belém desapareceu. Mas Nóvoa, homem de esquerda, quis fazer-se ao centro com Eanes como tutor, com o dissabor desagradável de se ver comparado a Cavaco. Merecia ter uma segunda volta. O recado é: como na vida os comboios não passam pela paragem do autocarro, o PS perdeu ao fugir.

À esquerda, a certeza é que está a mudar o mapa político. Arrasando as sondagens, Marisa, gigante, demonstrou que há muita gente que não está a ver o filme. Outubro não foi um sinal volátil, foi o início de viragem de uma vontade popular que desconfia dos bonzos do regime e quer desequilibrar a desigualdade. Foi sobretudo a afirmação de uma direcção potente, em que Catarina Martins demonstra mais uma vez que há surpresas até nas cartas marcadas. Ao contrário de Marcelo, Catarina e Marisa parecem suspeitar de novas pressões europeias para mais austeridade. Então, o recado é: o governo, cá dentro, e a Comissão Europeia, fora e dentro, devem perceber que a paisagem se inclinou. Portugal está a mudar.»

Francisco Louçã

24.1.16

Em jeito de rescaldo da noite



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Parabéns, Marisa


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A Espanha no seu labirinto


Enquanto esperamos pelo desfecho do nosso presidencial concurso, talvez possamos gastar algum tempo com nuestros hermanos, lendo este manifesto assinado por 20 intelectuais e políticos espanhóis que exigem que seja formado um governo «progressista» que corresponda às exigências da maioria dos cidadãos, que votou a favor de uma mudança nas eleições de 20 de Dezembro.

NECESITAMOS OTRO GOBIERNO.

Extenuado com tanta reflexão!


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Ainda a reflectir



A ver se o Google o ajuda. 
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Dica (208)



O irreflectido dia de reflexão. (Ferreira Fernandes)

«Significa isto que se um candidato - dos que, na última quinzena, abriram telejornais dizendo banalidades - tivesse revelado, ontem à noite, o segredo da cura do cancro eu não poderia hoje dizer- -vos. Teria de esperar por segunda-feira, data em que se espera que os portugueses voltam a ser legalmente irreflectidos, para vos dar a novidade.»
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