17.10.17

E a Catalunha continua no seu labirinto




«El Ejecutivo catalán adelanta que no atenderá el requerimiento del Gobierno para que revoque la supuesta declaración de independencia de la semana pasada o aclare que no se proclamó antes del jueves, cuando vence el ultimátum para aplicar medidas extraordinarias de intervención en la región en aplicación del artículo 155 de la Constitución.»
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Dica (645)



Não pode ficar tudo na mesma (Mariana Mortágua) 

«No próximo dia 21 haverá um Conselho de Ministros extraordinário, marcado para analisar os incêndios de Pedrógão. O que se exige ao Governo neste momento é que faça mais que mudar nomes, e que, para além do apoio às vítimas, apresente um plano de reestruturação do próprio dispositivo nacional de combate e prevenção de incêndios.
Não pode ficar tudo na mesma, e as mudanças têm de ser tão estruturais como os problemas e deficiências que as justificam. É isso que deve ser exigido ao Governo. E em tempos de discussão orçamental, é de esperar que estas escolhas tenham o seu reflexo na distribuição dos meios financeiros do Estado.»
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Manifestações contra incêndios?



Há várias, convocadas por aí, em vários locais do país, e chamadas «Silenciosas». Só falta que se digam de «Maioria» (também) Silenciosa».

(Regressa, Spínola, estão a chamar-te.) 
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Venha um superministério para combater o fogo



«Em guerra não se limpam as espingardas e em tempo de combate ao fogo o que é preciso é apagá-lo. As jogadas para aproveitar a catástrofe são por isso prova de ruindade, como antes o fora a invenção dos “suicidados” de Pedrógrão Grande. A ministra tem de concluir as operações contra os fogos em mais esta semana trágica e não tem sentido mudar de responsável no meio do rescaldo. Mas mal vai o governo se pensa que a questão se resolve na costumeira contraposição a uma direita à procura de pretexto, à ex-ministra da agricultura que encerrou os serviços florestais ou ao vindouro chefe do (PPD-)PSD. Se o governo fosse por esse caminho, melhor faria em compreender que estes incêndios são a prova de que tudo o que estava mal continuou pior em pelo menos duas áreas cruciais.

Primeiro, a resposta ao fogo. O combate ao incêndio em Pedrógrão Grande foi frágil demais nas suas primeiras horas: a conclusão é do relatório da Comissão Técnica Independente e é bastante óbvia. Nem existe uma estrutura de pessoal especializado e com carreira profissional na protecção civil, nem existem os recursos para responder a muitos fogos graves em simultâneo. Houve certamente “fenómenos extremos de vorticidade e de projeção de material incandescente” (p.10 do relatório), a lei que impõe a defesa das povoações com uma faixa de segurança sem floresta não é cumprida (idem), tudo certo, mas houve também descoordenação e incapacidade de chegar às pessoas para as orientar e proteger (idem). Ora, se agora se pode dizer que 30 graus em meados de outubro é também inabitual, o facto é o facto e a redução do dispositivo de combate a incêndios no final de setembro foi imprevidente e tornou mais difícil responder a tantas centenas de ignições. Mais valia ter havido prudência (e Portugal tem seis vezes mais ignições que Espanha e 19 vezes do que a Grécia, diz-nos o relatório).

Segundo, falta fôlego à reforma da floresta. Será sempre demorado, como é evidente e o primeiro-ministro tem sublinhado. Mas o problema não é só se é demorado, é se começa algum dia. Somando as reservas dos reaccionários defensores de uma micro propriedade florestal que não tem viabilidade e que será sempre pasto de chamas, com os interesses do lobby eucaliptocrata que mobiliza o poder do capital e das instituições, Portugal arrisca-se a continuar a ser uma pilha incendiária. Diz por isso o relatório que haver “manchas contínuas de misturas das duas espécies, pinheiro e eucalipto, infelizmente comuns em situações de gestão deficiente, é a receita, mais cedo ou mais tarde, para o desastre” (p.163). O desastre tem sido mais cedo do que mais tarde. Com uma área de eucalipto que só é, em termos absolutos, superada por quatro países continente (Brasil, China, Austrália, Índia), Portugal será sempre a pira da Europa.

Se Portugal quer responder a estes perigos que são certezas, precisamos de deseucaliptar, de alterar a regra da irresponsabilidade na propriedade da floresta, de criar meios dimensionados para ao combate ao fogo e de criar uma coordenação eficaz. Sugiro por isso a criação de um superministério da agricultura, das florestas e do combate aos incêndios, que inclua a protecção civil no que diz respeito aos meios para evitar e apagar os fogos, e que se responsabilize por uma reforma da floresta que tenha a ambição de nacionalizar a terra abandonada que constitua perigo para os vizinhos, de defender os pequenos proprietários, as aldeias e comunidades locais, e de promover uma floresta com espécies que sejam económica e ambientalmente sustentáveis.

O governo, que reúne este fim de semana, terá tempo para considerar se quer continuar este susto ou se quer ter a grandeza de mudar a página dos fogos em Portugal. Não vai ser fácil, mas não vejo tarefa mais importante nestes dias de funerais.»

16.10.17

A solidariedade das vítimas de Pedrógão




«Pedir ainda perdão às vítimas e familiares das vítimas mortais e feridos! Perdão, por termos sido demasiados brandos, perdão por não termos feito nada mudar ou fazer mudar para que se precavesse novas desgraças sobretudo no que à proteção e socorro dizem respeito desde Pedrógão Grande. Por Portugal continuar a arder, ardendo montes, aldeias, vilas e agora até cidades, apesar dos avisos, das nossas convicções e preocupações reiteradamente feitas às estruturas governativas locais e nacionais.»
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Relatório da Comissão Técnica Independente (Pedrógão Grande e Góis)



Do Sumário Executivo:


(Relatório na íntegra AQUI)
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16.10.1982 - Adriano morreu num 16 de Outubro



Adriano tinha apenas 40 anos e morreu há 35, num 16 de Outubro.

Estudante de Direito em Coimbra, aderiu ao PCP na década de 60, foi activista na crise académica de 1962 e participou num elevado número de actividades culturais, sobretudo naquela cidade universitária.

«Trova do vento que passa», com poema de Manuel Alegre, gravado no seu primeiro EP em 1963, viria a tornar-se uma espécie de hino da resistência dos estudantes à ditadura. Por razões bem diferentes, com o país a arder, talvez hoje seja um dia adequado para lembrar isto: «Pergunto ao vento que passa / notícias do meu país / e o vento cala a desgraça / o vento nada me diz.»





Muitos outros temas se juntaram, de um dos nossos mais célebres cantores de intervenção, antes e depois do 25 de Abril.







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Um país a arder



Queria manter-me me silêncio, mas não sou capaz. Não é dia de espetar dedos a culpados e não serei eu a fazê-lo, quando acabo de ler que o número de mortos já terá subido para 27.

Mas há uma dúvida que não me sai da cabeça: porquê toda esta tragédia junta ontem, quando há muitos dias (semanas…) as temperaturas tinham sido anormalmente altas? Ainda não encontrei nenhuma explicação cabal para este facto, embora o vento tenha sido um factor importante.
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15.10.17

E a Somália lá tão longe




Se houvesse 10% deste número de vítimas num país europeu, tínhamos horas e horas de televisão sobre o caso. Assim… who cares? O telejornal das 20:00, na RTP1, dedicou um minuto ao acontecimento.
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Homenagem à Catalunha



Daniel Oliveira no Expresso de 14.10.2017:


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Os mitos e os factos do colonialismo português



ou a África de Fernando Rosas na TV.

Início hoje, 15.10.2017, RTP2, 20:55.
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A onda liberal e o Estado


«Vivemos numa época em que os políticos são os elos mais fracos da sociedade: tudo parece ser culpa deles. Não deixa de ser curioso que isto suceda numa época em que muita da elite económica se diz liberal.

O choque frontal entre a política (e o Estado) e a ordem económica está novamente a desenhar-se. No meio de tudo isto é interessante recordar as palavras de Adam Smith que, na "Riqueza das Nações", escrevia: "O comércio e as manufacturas não podem florescer muito tempo num Estado que não disponha de uma ordenada administração da justiça, onde o povo não se sinta seguro na posse da sua propriedade, em que não se sustente e proteja, por imperativo legal, a honradez nos contratos, e que não se dê por certo que a autoridade do governo se esforça em promover os pagamentos dos débitos por quem se encontra em condições de satisfazer as suas dívidas. Numa palavra, o comércio e as manufacturas só podem florescer num Estado em que exista certo grau de confiança na justiça e no governo". É tudo isso que tem sido posto em causa. Sendo assim, quando não existir ninguém a tomar conta das ocorrências, a quem se recorrerá para garantir a confiança?

Evoluiu-se com os tempos para um sistema em que quanto mais bem-estar possuísse um cidadão mais útil seria para a economia em geral e para a sociedade. Porque funcionaria como o elemento que alimenta o sistema. Olhando para a nossa época, sobretudo depois da sangria da austeridade, pareceu começar a ser hegemónica uma outra ideia: o Estado e a classe média passaram a ser vistos como dispensáveis. O modelo económico que se tentou implementar em Portugal no tempo de Passos Coelho bebia nesta ideia.

O certo é que, na sequência deste princípio, se a classe média deixar de ter acesso ao bem-estar, torna-se uma classe inútil. Algo que é perigoso, porque ela é o sustentáculo das democracias. Vivemos, num mundo em que empresas de plataforma fogem ao controlo, e criam a sua própria força global, a tentações perigosas. O patriotismo está a transformar-se em nacionalismo e isso está a conduzir as franjas da antiga classe média para lógicas mais radicais. A economia "low cost", como se viu com a falência da Monarch e com os problemas da Ryanair, tem em si vírus do caos. Há poucos anos Josef Ackermann, que foi CEO do Deutsche Bank, disse: "Eu já não acredito no poder auto-regulador do mercado". Era um sinal, depois de Reagan nos ter dito que as palavras mais terríficas da língua inglesa eram: "eu sou do governo e estou aqui para ajudar". Essa teoria está agora a ser desenvolvida por Donald Trump até ao extremo: o caos começa a estar instalado na administração norte-americana. E muita da sua política, como se vê de uma forma maquiavélica nas questões do meio-ambiente (retirando-se de acordos internacionais e fechando agências americanas dedicadas ao tema) apenas serve para uma outra estratégia. São os bancos americanos que agora estão a investir, face à fuga do Estado, no meio ambiente. Para garantirem lucros, como é evidente. Se isso será bom ou mau só o futuro o dirá. Mas o que tudo isto torna evidente é que estamos a surfar uma onda que está a começar a cair. Veremos quem sofrerá os danos colaterais (ou totais) de tudo isso.»