14.7.20

14.07.1918 - Ingmar Bergman



Ingmar Bergman já nos deixou há quase treze anos. Foi durante alguns anos o meu cineasta de eleição e criou-me um fascínio tal pelos seus filmes, e pelo ambiente em que se passavam, que me fez gastar os primeiros tostões que consegui poupar: fui a um balcão da TAP, comprei um bilhete e pus-me a caminho de Estocolmo, sem nada  planeado. E não me arrependi.

Pretexto para recordar duas obras «eternas», dos anos 50, entre muitas outras magníficas!






E Saraband, o filme tardio de 2003 – de cortar a respiração.


.

Que vergonha, Diário de Notícias!



O título principal do DN de hoje (online, em papel já sai apenas ao Sábado…) é este. Trata-se de uma escolha propositadamente enganadora, já que a própria notícia considera as ausências de deputados durante toda a legislatura, incluindo o período de pandemia. Ora a Assembleia da República, em linha com as recomendações da DGS, limitou o número de deputados presentes durante este período.

Aliás, no próprio artigo do DN é dito que “muitas faltas foram, na verdade, forçadas, por razões sanitárias (a lotação do plenário foi limitada por poder haver distância física entre os deputados).” E acrescenta-se ainda, em referência à sessão solene do 25 de Abril, que os deputados “não foram porque não puderam ir”.»

Vão longe com estas práticas. Depois, queixem-se…
.

O secretário de Estado dos Louvores



«Segundo a Anacom (entidade reguladora das telecomunicações), entre o final de 2009 e abril de 2020, os preços das telecomunicações em Portugal aumentaram 7,7%, enquanto na Europa diminuíram 10,4%. Estes aumentos colocam as telecomunicações no nosso país entre as mais caras da UE.

Mas não são apenas os preços que dão má fama ao setor. Como tantas pessoas já tiveram oportunidade de experienciar, nomeadamente quando se viram enredadas em contratos de fidelização muito caros, pouco claros e impossíveis de cancelar, a qualidade dos serviços destas empresas é lamentável. Só numa semana, entre 25 de abril e 1 de maio, foram apresentadas 1825 reclamações sobre serviços de comunicações. Dessas, 64% dizem respeito a comunicações eletrónicas e, em particular, à gestão dos contratos e cancelamento de serviços a clientes. Entre janeiro e abril, a Anacom apresentou coimas no valor 1,3 milhões de euros associadas a 57 processos de contraordenação, que se juntam a várias condenações passadas, muitas delas contestadas pelas maiores operadoras do mercado.

Foi já em plena pandemia que o presidente de uma destas operadoras respondeu ao plano do Governo de criar uma tarifa social da internet (semelhante à tarifa social da energia suportada pela EDP) destinada a pessoas com menores rendimentos: "Se concordamos que seja imposto algo sobre os nossos ativos, construídos com o nosso investimento? Claro que não". Trata-se do presidente da Altice, que ficou com os ativos da Portugal Telecom: uma empresa que já foi pública e se tornou dona de rentáveis concessões do Estado, antes de ter sido destruída nas jogadas dos seus acionistas privados. Já depois da operação de compra da Portugal Telecom, a Altice foi acusada pela Anacom de se aproveitar, através da sua subsidiária Fibroglobal, da exploração das redes de fibra construídas nas zonas rurais... pagas com fundos públicos.

Haveria mais a dizer sobre estas empresas de telecomunicações que insistem em provar, uma e outra vez, que a privatização de setores estratégicos e infraestruturas monopolistas foi prejudicial aos interesses dos consumidores. Outras, como a Amazon, a Google ou o Facebook já encheram páginas e páginas de notícias sobre abusos laborais, fuga ao Fisco e venda de dados pessoais.

O que junta todas estas empresas neste artigo? O facto de todas terem sido objeto de um louvor formal, publicado em "Diário da República", por parte do Secretário de Estado para a Transição Digital, André de Azevedo, em reconhecimento pelo seu enorme contributo no combate à pandemia, pelo seu "excecional sentido do dever e permanente disponibilidade para o serviço público".»

.

13.7.20

Vidas antes desta Covida (10)



Um almoço inesperadamente gourmet no restaurante do simpático CHEFE SILVA que faz questão de vir conversar com todos os comensais. Roça S.João dos Angolares, S. Tomé, 2019.
 .

Apanhada a beber uma cerveja depois das 20h



83 milionários pedem subida de impostos sobre mais ricos para ajudar na recuperação





.

Presidenciais nos EUA?


.

A natureza da “besta” que é a União Europeia?



«No final de Junho, Angela Merkel deu uma interessante entrevista a seis jornais europeus que revela o profundo domínio dos temas europeus, bem como o à vontade – quase descontracção – com que encara a crise causada pelo vírus SARS-CoV-2, a enésima crise da sua carreira como chanceler da Alemanha.

Na entrevista, Merkel deixa transparecer que está confiante que a União Europeia e a Zona Euro serão capazes, como no passado, de responder de forma satisfatória a mais esta crise. Reconhece de modo pragmático e correcto que esta é uma enorme crise e que são necessárias medidas extraordinárias de solidariedade. Por isso, argumenta, propôs em conjunto com o presidente Macron um fundo de recuperação europeu de 500 mil milhões de euros de transferências (e não empréstimos), que seria financiado pelo Orçamento da União Europeia.

Essa proposta está na génese do Fundo de Recuperação Europeu de 750 mil milhões de euros que, no entanto, viu a componente de transferências diminuída e a componente de empréstimos aumentada. E, mesmo assim, a Holanda quer atrasar uma decisão sobre esse fundo de recuperação europeu.

No entanto, a experiência de Merkel na gestão de crises e o facto que essas crises foram, de forma mais ou menos satisfatória, ultrapassadas, poderá levá-la a subestimar a gravidade da crise actual.

Ainda no âmbito dessa entrevista, referindo-se ao problema suscitado pela decisão do Tribunal Constitucional da Alemanha (TCA) – ao deliberar que se o BCE não provar satisfatoriamente, até 5 de Agosto, que os respectivos programas de expansão quantitativa cumprem o teste de proporcionalidade económica, o Bundesbank se deve retirar desse programa –, nota que os Estados-membros nunca aceitaram transferir todas as competências e poderes para a União Europeia. O Tribunal Europeu apenas é a última instância judicial para as competências e poderes que foram explicitamente transferidos dos Estados-membros para a União Europeia. Nas restantes matérias, o Tribunal Europeu – eu diria, felizmente – não é o tribunal superior mas sim os tribunais constitucionais de cada Estado-membro.

E Merkel remata a sua avaliação do conflito legal que resulta da decisão do TCA dizendo “é essa a natureza da besta”, isto é, é essa a natureza da União Europeia tal como foi construída pelos Tratados Europeus.

MEGA (idiotas)?

A Wikipedia em português descreve a liga hanseática como “uma aliança de cidades mercantis — alemãs ou de influência alemã — que estabeleceu e manteve um monopólio comercial sobre quase todo o norte da Europa e Báltico, em fins da Idade Média e começo da Idade Moderna (entre os séculos XII e XVII). Abrangeu cerca de 100 cidades, com Lübeck como centro. De início com carácter essencialmente económico, desdobrou-se posteriormente numa aliança política”.

A nova liga hanseática é uma aliança de Estados-membros da Zona Euro e da União Europeia (Holanda, Bélgica, Irlanda, Dinamarca, Suécia, Finlândia, Letónia, Lituânia e Estónia), que inclui os países ditos frugais (leia-se, sovinas), com representação formal em Bruxelas.

A nova liga hanseática conseguiu uma enorme (mas pírrica) vitória ao eleger para a presidência do Eurogrupo o irlandês Paschal Donohoe, vencendo a candidata espanhola, Nadia Calviño, que parecia inicialmente a favorita e que contava com o apoio dos maiores países da Zona Euro (Alemanha, França, Itália, Espanha), bem como de Portugal, da Grécia, da Finlândia e de Malta. Um dos dez países que tinha prometido o voto a Nadia Calviño não votou nela na primeira ronda de votos, tendo esta perdido na ronda final contra Paschal Donohoe, que recebeu o apoio da maioria dos países (pequenos) daquela nova liga.

No dia 7 de Julho, de forma inacreditável, um tweet dessa nova liga hanseática (NLH) advoga uma escolha sábia na eleição da presidência do Eurogrupo. Parafraseando a sigla dos apoiantes do Presidente Trump (“Make America Great Again”, ou MAGA), símbolo da profunda divisão em que os EUA estão mergulhados, coloca uma fotografia de um boné com a sigla MEGA (Make Eurogroup Great Again), e as escolhas que essa presidência irá defender: défices públicos de 3%; empréstimos com condicionalidade estilo troika através do Mecanismo Europeu de Estabilidade; o pacto de estabilidade (e crescimento) europeu (SGP) – leia-se continuação do espartilho orçamental e regras orçamentais arbitrárias a la carte duramente aplicadas aos Estados-membros devedores da Zona Euro – ; “Asset Quality Review”, i.e., uma análise aos activos do sector bancário (dos Estados-membros do sul); uma reforma das cláusulas de acção colectiva para garantir que os Estados-membros credores controlam a reestruturação de dívida dos Estados-membros devedores e para aumentar a pressão sobre o mercado de dívida soberana destes últimos; mais reformas ditas estruturais; e resiliência, seja lá o que isso quer dizer.

Os acrónimos tecnocráticos herméticos e incompreensíveis para a generalidade da população (“3%”, “ESM”, “SGP”, “AQR”, CAC”, “Reform”, “Resilience”), i.e., as causas advogadas pela NLH, no detalhe, têm profundas implicações. Na realidade, afiguram-se quase racistas, revelando ignorância, indiferença pelo sofrimento causado, e desconfiança de tudo quanto provém dos Estados-membros do sul da Zona Euro, o grupo de países que foram no passado designados “PIGS” (porcos). Quase parece que se pretende levar os PIGS para o matadouro.

A Zona Euro e a União Europeia estão num diálogo de surdos e assusta porque as prioridades da NLH sinalizam muito: a NLH não parece ter a noção de quão duras e retrógradas são as medidas que advogam, nem a insensibilidade que é utilizar o chapéu MEGA para defender a eleição do seu representante para a presidência do Eurogrupo (a Suécia e a Dinamarca não fazem parte da Zona Euro). Não parecem compreender que retiram mais benefícios da Zona Euro e da União Europeia do que os Estados-membros do sul.

Donohue defenderá taxas de impostos baixas para as empresas, será contra a taxação de multinacionais dos sectores digitais (que têm as suas sedes para efeitos fiscais na União Europeia precisamente na Irlanda) e tenderá a defender alguns pequenos países que constituem paraísos fiscais no seio da Zona Euro: Irlanda, Luxemburgo e Holanda. Um mau princípio de uma presidência do Eurogrupo que se afigura será muito atribulada e que se arrisca a ser a última?»

.

12.7.20

Vidas antes desta Covida (9)



Oração numa das onze igrejas escavadas na rocha no século XII, Lalibela, Etiópia, 2013.

[Não há palavras que possam dar uma ideia do que são esses onze templos, escavados na rocha e em muitos casos ligadas por túneis. O Templo de S. Jorge foi o último a ser construído e é o mais espectacular, com a forma em cruz, enterrado e com quinze metros de altura. (Ver foto mais abaixo .) As escavações começaram em pleno século XII e todo o conjunto foi construído em apenas vinte e quatro anos! Terão estado implicados nas obras 40.000 homens, com recurso a instrumentos mais do que rudimentares, e conta a lenda que trabalhavam enquanto havia Sol e que os anjos faziam o turno da noite...]

.

Paulo Pedroso na «mouche»





.

A direita no labirinto


A direita, perdida num labirinto, procura uma saída. Não é fácil. O sr. António Costa ocupou o centro político, convertendo o que resta da classe média. O sr. André Ventura galopa a raiva dos descontentes de todos os quadrantes. O sr. Rui Rio, de tanto esperar, parece que se contentará com um bloco central Frankenstein e em ser vice-primeiro-ministro. O CDS não sabe se há-de ser doce ou dar bengaladas. Ou seja, a oposição de direita procura um ideal, um espaço e também um homem providencial. O problema é que se contorce com um pesadelo: o sr. Ventura. Vive obcecada pela figura e funciona em reacção ao que esta diz ou faz. É o chamado erro fatal. Foi assim que o sr. Donald Trump tornou refém o Partido Republicano. Bem dizia Paul Valéry: “O futuro já não é o que era.” 

.

Estrangeiro rico, estrangeiro pobre



«O turismo valeu, em 2018, 14,6% da economia nacional. Portugal é, na Europa, o quinto país mais dependente deste setor e a pandemia tem efeitos devastadores, bastando olhar para a taxa de desemprego no Algarve para perceber a dimensão do tombo.

Por mais receios sanitários que a movimentação de pessoas provoque, a economia precisa de turistas como de pão para a boca. Literalmente.

Como estamos dependentes do mercado externo, queremos que os estrangeiros venham. Incluindo de países que viveram, ou ainda vivem, cenários epidemiológicos com elevadas taxas de prevalência de covid-19. Os estrangeiros podem entrar, desde que tenham dinheiro para ajudar a reanimar a atividade económica. O caso muda de figura quando se trata dos estrangeiros residentes no país e associados a comunidades desfavorecidas.

Os indicadores apresentados esta semana na reunião de especialistas e responsáveis políticos, no Infarmed, mostram que um quarto dos novos infetados em Lisboa é imigrante. Um certo discurso alimentado nas últimas semanas em torno das medidas restritivas e das ações de policiamento nas freguesias mais afetadas contribui, contudo, para estigmatizar estes cidadãos. O estrangeiro pobre, quando adoece, não é vítima, é responsabilizado pelo comportamento que o levou a adoecer.

Acicatados pelo medo, muitos dos sentimentos de discriminação e de desconfiança em relação ao outro agravaram-se nos últimos meses. O pior é quando as próprias autoridades e entidades que deveriam proteger os valores essenciais em democracia contribuem para alimentar preconceitos. Como o Ministério Público de Faro que, ao divulgar a detenção de um jovem que tinha violado o confinamento obrigatório e foi acusado de desobediência agravada - a primeira acusação do género conhecida publicamente -, fez questão de escrever no comunicado que se trata de um homem de "nacionalidade estrangeira".

Os estigmas não ajudam no combate à doença. Nem os perigos se dominam fechando portas a cadeado. Teremos de aprender a conviver com a doença, sem deixar que outros vírus de intolerância e medo ganhem igualmente tamanho.»

.