.
2.6.21
Se fosse só parolice futebolística
Octávio Passos
«Não correu “na perfeição”, diz o primeiro-ministro, dois dias depois. É uma expressão económica para explicar a evidência de uma inevitabilidade: as claques dos clubes finalistas da Champions só podiam pavonear-se na cidade, testar as polícias, ensaiar o seu ballet porradístico e emborcar litros de cerveja. Suponho que nenhuma autoridade ignorava que assim seria, mas, como foi explicado pelo secretário de Estado do Desporto, o evento estava destinado a prestigiar a Federação de Futebol e melhorar o seu ranking, além de deixar alguns trocos nos lojistas do Porto.
Aceitando o evento com somente duas semanas de antecipação, Portugal mostraria uma faceta acolhedora e complacente, que não deixará de sensibilizar os grandes do futebol, repete o secretário. Falhou a “bolha”, como não podia deixar de ser, parece que não conhecem as claques inglesas, mas teria ficado o prestígio.
Nada disto surpreende. Há aqui uma mistura entre parolice desportiva, aceitando que o poder dos clubes e eventos internacionais é um território de exceção (já foi assim com a Fórmula 1 no Algarve no verão passado), e a submissão ao turismo como o desígnio nacional. Venho porque Portugal é um país barato, repetem os desembarcados, e nós sabemos o que isso quer dizer. O Ministério discute as listas verdes e amarelas do Reino Unido como se fosse a prioridade da nossa diplomacia. Os noticiários festejam o número de charters de cada dia.
O turismo tornou-se o alfa e o ómega da economia: disfarça as estatísticas das exportações, o que fica sempre bem, cria uma rede de serviços sem valor acrescentado mas com liquidez imediata e alimenta uma cultura de conformismo e deslumbramento para com os visitantes, mesmo que para muitos destes seja indiferente se os vapores etílicos são absorvidos em Albufeira ou em qualquer outra latitude. Como é evidente, esta mistura entre subserviência futebolística internacional e contabilidade de turistas só podia dar asneira.
Os clubes nacionais protestaram e têm razão. Mesmo descontando o estilo atrabiliário de Pinto da Costa, como não reconhecer que, se pode haver público num jogo internacional, é absurdo proibir o público num jogo nacional? São as normas que tornam legível uma estratégia de combate à pandemia que exige a medida do nosso comportamento e, por isso, ao aceitar e mesmo promover a sua violação, as autoridades portuguesas colocaram-se numa situação impossível, não querem ser levadas a sério.
Se as regras têm aplicações distintas em função da nacionalidade do peão, então não são regras sanitárias, são truques económicos. Depois disto, a correr atrás do prejuízo, o governo pode vir a abrir a possibilidade de público em alguns acontecimentos desportivos ou outros. O que lhe coloca outro problema, esse pior: e os Santos Populares? O Governo dirá que não pode ser, e toda a gente pensará que se se puser a falar inglês talvez se safe e possa ir para a rua beber cerveja ou comer sardinhas.
Com a enorme vontade de retomar o convívio social, com os jovens a quererem voltar para a rua, o Governo teria que tratar com pinças os sinais que dá e criar as melhores condições para esse regresso à vida, rápido e seguro. Precisamos disso. O que não podemos ter é um passo atrás, sobretudo se resultar de erros evitáveis. No momento atual, o desastre da Champions tornou as autoridades sanitárias suspeitas e as imagens da pândega na Ribeira do Porto relativizaram todos os seus avisos e precauções. Assim, não sei se o Governo se dá conta da profundidade da mágoa que criou. Talvez ache mesmo que não foi tudo uma “perfeição” mas que a Federação está bem vista pelo jeitinho que deu aos seus parceiros europeus e segue jogo.»
.
1.6.21
Desapareceu um símbolo
Morreu Carlos Alberto Ferreira, o homem que subiu sozinho a Avenida da Liberdade no 25 de Abril de 2020. Esta imagem pode ficar como um símbolo de perseverança num mundo que tende a não se recompor e a pouco aprender.
.
Um de dois caminhos
«Em Portugal, mais de um em cada dez trabalhadores está em situação de pobreza. Mais de dois em cada dez trabalhadores por conta de outrem recebem apenas o salário mínimo nacional. E somos dos países da Europa com mais trabalho precário, que agora ganhou novas formas, com a proliferação de plataformas que quebram as relações laborais e tratam trabalhadores mal pagos como se de empresários se tratassem.
Entre 2015 e 2019, o Bloco apoiou um Governo que cumpriu o acordo que fizemos: travar o empobrecimento e recuperar os rendimentos cortados pela troika. Eliminou-se cortes salariais, aumentou-se as pensões e os apoios sociais, reviu-se, ainda que modestamente, os escalões do IRS. Mas não se tocou na lei laboral, que é uma das principais razões dos baixos salários de que o país está refém.
O desmantelamento dos mecanismos de proteção coletiva dos trabalhadores, combinado com a facilitação do despedimento e com a proliferação de contratos temporários, funcionam como uma tenaz sobre os rendimentos do trabalho. Não é por acaso que a troika e a direita os impuseram como parte de um plano de empobrecimento generalizado. Sim, porque não esquecemos que havia quem, como Passos Coelho e Paulo Portas, acreditasse que só empobrecendo o povo se recuperaria a economia. O resultado foi mais pobres e menos economia.
A eliminação da terrível marca da troika também da lei laboral é, por estas razões, uma das prioridades que o Bloco elegeu para a legislatura. E embora o PS tivesse criticado, na oposição, muitas destas medidas, em 2019 rejeitou qualquer alteração ao Código de Trabalho. Essa foi, aliás, a sua principal justificação para a recusa de celebrar com o Bloco um acordo escrito para estes quatro anos. Recusa que manteve em 2020 e que impediu um acordo sobre o Orçamento do Estado.
Como pode um partido que se intitula de esquerda formar um Governo que diz querer governar à esquerda, liderado por um primeiro-ministro que afirma querer entendimentos com os partidos à sua esquerda, não aceitar tocar na lei laboral que a direita deixou? Ainda mais sendo o trabalho uma área central na intervenção para qualquer partido de esquerda? E como pode depois acusar o Bloco de má vontade por não aceitar um acordo que exclua a lei laboral? A incoerência é óbvia. E para tentar lidar com ela, o PS pode escolher um de dois caminhos. O primeiro é alterar a lei da troika e criar um regime verdadeiro de proteção laboral dos trabalhadores das plataformas. O segundo, muito mais frágil, é formular um discurso redondo sobre intenções vagas, enredar a opinião pública num debate sobre uma proposta que parece fazer o que não faz e, no fim, acusar o Bloco de má vontade.
"O PS deve assumir a revisão da legislação laboral". Todos os jornais noticiaram a frase de António Costa na sua moção ao congresso do PS como se fosse novidade. O resto da moção, no entanto, já conhecíamos. Nem compromissos sobre o reconhecimento do vínculo dos trabalhadores das plataformas, nem limitações ao trabalho temporário e muito menos a eliminação das normas da troika da lei laboral. Esperamos para ver a que caminho conduzirá a vontade do PS.»
.
31.5.21
Cristiano Ronaldo: e atrás da marquise?
Em 2015, CR comprou um apartamento em Nova Iorque por mais de 18 milhões de dólares e eu encontrei neste blogue a fotografia de uma das salas – que mete medo ao susto, na minha opinião.
Deixem lá a marquise, pode ser que esteja linda com móveis da IKEA.
.
Párias por efeito do complexo da pequenez
«Os britânicos voltaram a gozar de privilégios no Porto que se julgavam extintos há séculos. Como outrora, tiveram por estes dias direito a leis exclusivas e a estatutos de excepção. Puderam fazer o que os indígenas não podem, como reunir-se aos magotes com cerveja na mão, assistir a um jogo de futebol ao vivo, deambular em hordas pela rua e, aqui e a ali, dar largas ao mau feitio estimulado pelo álcool. Tinham prometido que nada disto aconteceria, que eles viriam e iriam numa bolha de segurança, que teriam os movimentos condicionados por “fanzones”, que haveria a garantia de que todos tinham feito testes e seriam acompanhados. Era mentira.
Os jovens que jogaram a final do campeonato de râguebi acreditaram que a recusa da DGS da presença de 500 espectadores se baseava na aplicação de um critério universal, como manda o Estado de direito. Os jovens que noite sim, noite não são convidados pela polícia a desamparar os miradouros, também. Os donos dos restaurantes que correm com os clientes que se atrasam na sobremesa à hora do fecho, também. Os adeptos do futebol que sonharam com uma última jornada com duas ou três mil pessoas nos estádios, também. Quem se sujeita ao cumprimento da lei não pode aceitar que o Estado o trate como um pária no seu próprio país.
Foi isso que aconteceu. O que os portugueses não podem fazer outros podem. Aquilo que os portugueses têm de cumprir os ingleses não têm. O estado de calamidade só vincula os nacionais. As medidas de protecção, os avisos, os apelos, as matrizes existem para que o vírus não se transmita de uns para outros, mas essa hipótese não existe com adeptos do Chelsea ou do City. Tanto como a mentira da bolha de segurança, a subserviência ante a UEFA, a corrosão da autoridade do Estado ou o descontrolo e indecisão que este domingo assinalámos neste espaço, o complexo da pequenez face à final europeia causa um dano grave. Quem for rico e vier de fora fica imune à situação de calamidade.
Portugal precisa de turismo e para o ter precisa de mostrar ao mundo um certo ar de normalidade. Uma final da Champions serviria para esse fim, sem dúvida. Mas há um equilíbrio obrigatório entre os eventuais ganhos de imagem lá fora e o insulto à dignidade dos portugueses cá dentro. Um país decente não ajusta nem suspende as regras em vigor. Nem para os adeptos do Sporting, como aconteceu no final do campeonato nacional, nem para estrangeiros. Todos são iguais perante a lei. O Governo deixou essa regra basilar em pousio. Deslumbrou-se com a final e cometeu um erro grave.»
.
30.5.21
Resposta óbvia
- Com a sua idade respeitável, se pudesse optar entre Parkinson e Alzheimer, o que escolheria?
- Parkinson, obviamente. Prefiro entornar metade do vinho do que não me lembrar onde pus a garrafa.
.
Pontapé na bolha
«O primeiro remate desenquadrado com a baliza na final da Liga dos Campeões foi feito pelo Governo. Anunciou uma bolha que não existiu e teimou nessa mensagem quando centenas de ingleses já se divertiam e andavam à cacetada pelas ruas do Porto.
Ironicamente, já durante a tarde de ontem, a Proteção Civil enviou uma SMS aos portugueses alertando para a necessidade do uso da máscara e do distanciamento social e relembrando que é proibido beber álcool na via pública!
Voltamos, portanto, à questão da comunicação, o verdadeiro calcanhar de Aquiles do Governo de António Costa durante a longa gestão da pandemia. E voltamos a uma política de dois pesos e duas medidas.
O problema nem foi tanto a presença dos adeptos do Chelsea e do Manchester City no Porto, até porque todos tiveram de ser testados à covid-19 antes de embarcarem. O problema foi mesmo a embrulhada de palavras, ou melhor, o anúncio do plano do Executivo para a organização da prova em condições de segurança.
Recordemos as declarações de Mariana Vieira da Silva, ministra de Estado e da Presidência, sobre as medidas preparadas pelo Governo para receber os mais de 16 mil adeptos britânicos que viajaram até à Invicta. "As pessoas que vierem à final da Liga dos Campeões virão e regressarão no mesmo dia, com teste feito, em situação de bolha, ou seja, em voos charter, com deslocações para uma zona de espera. Daí irão para o estádio e depois para o aeroporto, estando em território nacional menos de 24 horas, numa permanência em bolha e com testes obrigatórios, feitos, em princípio, antes de entrarem no avião", prometeu.
Mas só se engana quem quer ser enganado e nem mesmo aqueles que não acompanham fenómenos desportivos desta natureza achariam possível que os adeptos ingleses viessem ao Porto e não se juntassem para beber cerveja nas esplanadas e trocar mimos pelas ruas. Ainda por cima com o tempo a ajudar à festa.
Seguem-se as declarações da UEFA a explicar que seria apenas aconselhável e não obrigatório que os adeptos viajassem no próprio dia do jogo. Depois, ficamos a saber que os clubes ingleses também não impuseram restrições de viagens aos apoiantes na compra dos bilhetes. E já com os ingleses em força no Porto, a PSP esclarece que o termo bolha "não faz parte do léxico policial. Não há limitação de movimentações de adeptos. Se estiverem espalhados pela cidade, vamos ter de nos adaptar a essa circunstância", disse o responsável pela operação.
O país percebeu rapidamente que não havia qualquer plano para conter e evitar algum exagero entre os ingleses. Não havia bolha. Nem estratégia. A única que o país viu foi a dos adeptos a comer, a beber e a confraternizar com os amigos.
É certo que não há melhor marketing para o turismo do que esta ilusão de que em Portugal já está tudo ok. Mas não há nada pior que, depois do caso de Alvalade, voltar a passar a ideia de que no nosso país há dois pesos e duas medidas.»
.
Subscrever:
Mensagens (Atom)







