21.6.14

Corrupção dos poderosos, pequenos vícios dos de baixo



«Não aceito a culpabilização sistemática dos mais pobres e mais fracos e da classe média, por terem vivido “acima das suas posses”, mesmo quando não o fizeram. E mesmo quando havia uma casa a mais, um carro a mais, um ecrã plano a mais, um sofá a mais, um vestido ou um fato a mais, umas férias a mais, uma viagem a mais, recuso-me a colocar estes “excessos” no mesmo plano moral dos “outros”. Algum moralismo salomónico, que coloca no mesmo plano a corrupção dos poderosos e dos de cima com os pequenos vícios dos de baixo e do meio, tem como objectivo legitimar sempre a penalização punitiva de milhões para desculpar as dezenas. É por isto que esta crise corrompe a sociedade e vai deixar muitas marcas, mesmo quando ninguém se lembre de Portas e de Passos.»

José Pacheco Pereira, no Público de hoje.
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Porque hoje é Sábado




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Mais um êxodo: o dos refugiados políticos



Pelo Expresso de hoje, fico a saber que, desde Setembro de 2013, os estrangeiros com asilo político concedido por Portugal, há mais de três anos, foram equiparados aos outros emigrantes e a portugueses em situação de carência, tendo por isso visto os subsídios sociais diminuídos em cerca de 70%. Ora, como fazem notar pessoas ligadas a esta problemática, «os refugiados não podem ser considerados imigrantes, vêm a fugir à guerra, não podem voltar para o país de origem, não têm família a quem pedir ajuda, não têm redes de apoio». Mais: só lhe é permitido trabalhar legalmente no país que os acolhe, fora de Portugal só lhes resta a clandestinidade.

As consequências não se fizeram esperar: sem serem conhecidos números exactos, estima-se que mais de 70% das 450 pessoas do universo em questão já tenham deixado o nosso país e «os que ainda cá estão, a ter de escolher entre pagar a renda ou comer, já só pedem para sair. Não têm esperança que a situação mude, preferem trabalhar ilegalmente noutro país da União Europeia».

Mais um êxodo que vai acontecendo sem que nos apercebamos: não são nossos familiares, dificilmente atinge amigos próximos. Mas trata-se de humanos como nós, com vidas bem mais duras do que possamos sequer imaginar.

Números? «Até este ano, Portugal recebia 30 refugiados por ano, mas essa quota foi aumentada para 45. Um número muito diferente dos 20 mil sírios que a Alemanha recebeu desde o final do ano passado ou dos 7000 da Suécia.»

A Alemanha e a Suécia são ricos? E nós não seremos apenas mesquinhos, não sabendo sequer lidar com um grupo tão pequeno de pessoas que forçamos a fugir? 
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Lido por aí (58)


@João Abel Manta

* Refugees at Levels Not Seen Since World War II (Nick Cumming-Bruce)

* El nuevo rey, tan formalito, tan obediente, (Arturo González)

* A nova direita (António Guerreiro)
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20.6.14

Ainda sobre a invasão da Avenida da Liberdade



É tal a minha fúria com a realização do mega pic nic, amanhã, na Avenida da Liberdade, que só posso rever-me num texto que Paulo Chitas publicou hoje na Visão online: A cidade é nossa.

Repito o que já escrevi: não há qualquer motivo racional para que este arraial pimba se realize no centro da cidade, e não num espaço livre sem prejuízo para os lisboetas. Se até se pode vir para o pic nic do Porto, de comboio, por 10 euros, não haveria qualquer dificuldade em proporcionar transportes gratuitos dentro da capital ou para os seus arredores. Sinto-me gozada, tenho vergonha: não é assim que se vive e se promove esta bela cidade – nivelando por baixo.

Alguns excertos do texto de Paulo Chitas, que assino por baixo:

«Qual é a legitimidade da Câmara para fechar uma avenida da capital, durante uma semana? A trupe de António Costa justifica a necessidade de privar os cidadãos (munícipes e outros) do coração da capital pelo facto de se tratar de algo "com grande impacto e gratuito".
De facto, tem grande impacto mas certamente não é do tipo a que aludem os magos da autarquia. A circulação automóvel se é que alguém consegue circular na Avenida da Liberdade, depois das experiências de gestão do tráfego da autarquia – ficou condicionada durante uma semana. E será interdita durante alguns dias. (...)
Ao contrário do que António Costa parece crer, a cidade é nossa. Não é dele. O mandato que os eleitores da capital lhe atribuíram foi para a governar e não para a resgatar aos seus utilizadores. Como o seu mandato foi expressivo fez uma campanha de grande eficácia, ganhou a autarquia por uma larga maioria – a sua responsabilidade é tanto maior. Poucas vezes tantos confiaram tanto num político – e isso devia merecer da sua parte um especial cuidado na forma como gere a cidade. (...)
A displicência com que se faz uso dos espaços e das infra-estruturas de todos é um sinal preocupante do que vai na cabeça de António Costa. Afinal, o homem propõe-se governar Portugal...»

Nem mais.
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Maldito Mundial



João Quadros, no Negócios:

«Era forçoso fazer uma crónica sobre o mundial de futebol – e urgente, se ainda quiser ir a tempo de abordar a temática da participação da nossa selecção – mas a vontade é muito pouca.

Comecemos por um esclarecimento: eu acho errado misturar política e desporto. Já disse ao meu filho que, mesmo que ganhemos ao FMI no domingo, não ficamos melhor do que estávamos. Mas a verdade é que, para mim, a nossa participação, no que valia a pena, acabou na passada segunda-feira. Não é uma taça com 6,17 quilos em ouro que me vai fazer esquecer os noventa quilos da Merkel a rir. A não ser que os defrontemos outra vez. Mas, se me derem a escolher, prefiro fazê-lo quando eles voltarem a ser "uma de Leste e outra de cá". Foi muito penoso ver a alegria da Merkel. Uma coisa é ela rir-se de nós, outra é nós darmos-lhe alegrias. São duas coisas muito diferentes, e eu detesto a segunda. No Tratado Orçamental, devia vir uma cláusula que impedisse os líderes dos países do Euro de festejar golos acima dos 2-0. Há níveis de felicidade que deviam ser passíveis de multa. Não é justo ser-se bom nos números e no desporto. Ou se é choninhas ou evoluído muscularmente. Não é justo ter-se tudo. Se nem com o melhor do mundo lhes fazemos frente, e somos esmagados, esqueçam isso de trocar o Seguro pelo Costa, que é andar a perder tempo. A nossa Selecção foi um Hollande de chuteiras. (...)

Tem sido um mundial horrível. É como se nós, os países do sul, tivéssemos andado a viver futebolisticamente acima das nossas possibilidades. A selecção espanhola exibiu-se a níveis de antes da entrada para a União Europeia. Nós sofremos a maior derrota de sempre nas participações em fases finais. Só agora é que os norte-coreanos se sentiram vingados de 66; até têm esperança que a seguir venha a luz eléctrica.» 
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Quando penso nestes mega horrores



... queria estar a milhas, nem que fosse no Burkina Faso. 
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O Tratado que divide as águas



A crónica semanal de José Manuel Pureza (JMP), hoje, no DN, não pode ser mais certeira e oportuna, já que, de facto e indiscutivelmente, «para a reflexão estratégica que o País tem de fazer já sobre os seus próximos dez anos, o Tratado Orçamental é o divisor de águas.»

Em termos de forças partidárias com representação na Assembleia da República, até agora tem sido claro o posicionamento em cada um dos lados dessa linha divisória: PSD, CDS e PS num deles, PCP e BE no outro. Continuará a sê-lo no caso de António Costa levar a carta a Garcia e, simultaneamente, vier a tornar-se o próximo primeiro-ministro de Portugal? Talvez ainda seja cedo para conclusões, mas, por tudo o que vi e li até agora, não posso deduzir, de todo, que o PS venha a mudar radicalmente de posição.

Acontece (e volto a citar JMP) que «o Tratado Orçamental é a constitucionalização da austeridade, ou seja a sua eternização como matriz das políticas para Portugal. As forças políticas e sociais que o tomam como um determinante inultrapassável dos nossos próximos dez anos assumem, com maior ou menor convicção, a austeridade como um caminho que tem de continuar a ser feito, a ser aprofundado, sem cedências nem tergiversações».

E ainda: « O arco do Tratado Orçamental tem, assim, para Portugal, um programa de perpetuação e agravamento da austeridade. Olha para o País daqui a dez anos e todo o caminho até 2024 estará balizado pelo Tratado Orçamental e pela austeridade que ele supõe. Pode depois adornar a imagem com discursos de modernização, de equidade territorial ou de regresso à paixão pela educação. O certo é que, refém da lógica implacável das metas impostas pelo Tratado Orçamental, tudo isso não é senão retórica ou fantasia enganadora para eleitores disponíveis para comprar ilusões. Assumir o Tratado Orçamental como um dado e ao mesmo tempo ser um bocadinho contra ele é algo que é politicamente desonesto. Assumir o Tratado Orçamental como constituição de facto e exprimir ao mesmo tempo vontade de que haja uma convergência das esquerdas é algo não só insanavelmente contraditório como politicamente leviano e incentivador da decepção e da apatia.»

Ou seja, e dando outra vez nomes aos bois (salvo seja...): António Costa pode encher dez Tivolis, e ter cem vezes mais jeito e melhores características para ser secretário-geral do PS, mas isso não chega. Manterá o seu partido encostado à direita, e alinhará fatalmente com esta, se apenas propuser acções de maquilhagem para o Tratado Orçamental. E os que esperam dele a libertação deste governo austeritário sairão uma vez mais frustrados. 
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19.6.14

Lido por aí (57)


@João Abel Manta

* Riqueza (Almudena Grandes)

* Athens Airport offers jobs to youth with salary just the transportation cost

* Recuérdalo tú (Antonio Muñoz Molina)
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Os economistas não fazem ideia do que estão a falar




Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Primeiro, Cavaco Silva previu uma espiral recessiva. E a economia começou a crescer timidamente. Agora, Cavaco Silva disse que o medo devia dar lugar à esperança. E a economia dá sinais de recuo e estagnação. De duas, uma: ou a economia anda a zombar do Presidente da República ou eles, na Universidade de York, dão doutoramentos a quem não percebe nada do assunto. (...)

Os economistas não fazem ideia do que estão a falar, o que é ao mesmo tempo tranquilizador e preocupante. É tranquilizador porque podemos discutir economia em pé de igualdade com eles. Para saber a razão pela qual é preocupante, basta ler o jornal ou olhar para o recibo do ordenado.»

Na íntegra AQUI.
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Por causa de uma coisa assim



... levou Pepe um cartão vermelho! 
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Ele faz 70



Sim, Chico Buarque nasceu em 19 de Junho de 1944. O tempo voa e o menino virou velho. Belíssimo, ainda hoje. Palavras para quê?








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