A crónica semanal de José Manuel Pureza (JMP), hoje, no
DN, não pode ser mais certeira e oportuna, já que, de facto e indiscutivelmente, «para a reflexão estratégica que o País tem de fazer já sobre os seus próximos dez anos, o Tratado Orçamental é o divisor de águas.»
Em termos de forças partidárias com representação na Assembleia da República, até agora tem sido claro o posicionamento em cada um dos lados dessa linha divisória: PSD, CDS e PS num deles, PCP e BE no outro. Continuará a sê-lo no caso de António Costa levar a carta a Garcia e, simultaneamente, vier a tornar-se o próximo primeiro-ministro de Portugal? Talvez ainda seja cedo para conclusões, mas, por tudo o que vi e li até agora, não posso deduzir, de todo, que o PS venha a mudar radicalmente de posição.
Acontece (e volto a citar JMP) que «o Tratado Orçamental é a constitucionalização da austeridade, ou seja a sua eternização como matriz das políticas para Portugal. As forças políticas e sociais que o tomam como um determinante inultrapassável dos nossos próximos dez anos assumem, com maior ou menor convicção, a austeridade como um caminho que tem de continuar a ser feito, a ser aprofundado, sem cedências nem tergiversações».
E ainda: « O arco do Tratado Orçamental tem, assim, para Portugal, um programa de perpetuação e agravamento da austeridade. Olha para o País daqui a dez anos e todo o caminho até 2024 estará balizado pelo Tratado Orçamental e pela austeridade que ele supõe. Pode depois adornar a imagem com discursos de modernização, de equidade territorial ou de regresso à paixão pela educação. O certo é que, refém da lógica implacável das metas impostas pelo Tratado Orçamental, tudo isso não é senão retórica ou fantasia enganadora para eleitores disponíveis para comprar ilusões. Assumir o Tratado Orçamental como um dado e ao mesmo tempo ser um bocadinho contra ele é algo que é politicamente desonesto. Assumir o Tratado Orçamental como constituição de facto e exprimir ao mesmo tempo vontade de que haja uma convergência das esquerdas é algo não só insanavelmente contraditório como politicamente leviano e incentivador da decepção e da apatia.»
Ou seja, e dando outra vez nomes aos bois (salvo seja...): António Costa pode encher dez Tivolis, e ter cem vezes mais jeito e melhores características para ser secretário-geral do PS, mas isso não chega. Manterá o seu partido encostado à direita, e alinhará fatalmente com esta, se apenas propuser acções de maquilhagem para o Tratado Orçamental. E os que esperam dele a libertação deste governo austeritário sairão uma vez mais frustrados.
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