18.4.15

Eleições de 1975: um segredo bem guardado



Na Revista do Expresso de hoje, José Pedro Castanheira divulga «um segredo» guardado durante mais de 40 anos: em Dezembro de 1974, foi feito um inquérito a 6.629 pessoas, interrogadas, entre muitos outros temas, sobre o posicionamento quanto à realização de eleições e sobre escolhas que fariam nas primeiras a serem realizadas em liberdade. Os resultados terão sido decisivos para Costa Gomes manter a convocatória do acto eleitoral (que veio a realizar-se, como é sabido, em 25 de Abril de 1975, com uma participação de 91,7%) e revelaram-se praticamente iguais àqueles que se verificaram, na realidade, quatro meses mais tarde.

Num momento em que a possível expressão eleitoral dos diferentes partidos era uma enorme incógnita, a sondagem foi realizada, sem fins lucrativos, por uma empresa ligada ao grupo CUF e concretizou-se num extenso questionário com 33 perguntas feitas em entrevistas pessoais, sobre muitas questões fundamentais da vida do país. A 33ª pergunta era a seguinte: «Finalmente, para terminar, que partido gostaria que ganhasse as eleições?». Eis os resultados: 


Impressionante: as conclusões do estudo foram coligidos em 17 volumes de 500 páginas cada e nunca foram divulgados (aliás, a lei eleitoral proibia publicação de resultados de sondagens nos dois meses anteriores a sufrágios). Terá sido muito reduzido o número de pessoas, mesmo elementos do governo, que terão tido acesso ao documento e poucos exemplares restam do mesmo. Por exemplo, o coronel Costa Brás, que ocupava então a pasta da Administração Interna, responsável por montar toda a estrutura para o acto eleitoral, disse agora ao Expresso que nunca ouvira falar de tal coisa.

P.S. – Para quem tenha acesso ao jornal: vale muito a pena ter todo o texto, onde são apresentados resultados sobre muitos outros temas abordados no inquérito.
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Mariano Gago – em jeito de homenagem


... fica este excelente vídeo sobre o seu passado como activista estudantil, no IST, gravado num debate sobre os 40 anos do 25 de Abril:



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Dica (39)




«Ao salário médio das contratações actuais, 600 euros, são necessários 141 mil novos empregos para compensar o abatimento de 1% e 291 mil para compensar 2%.

Estão a ver o outdoor da coligação PSD-CDS: “vamos criar 300 mil novos empregos para pagar o défice que criámos na segurança social”?

(Nota, 13h: diz-me agora pessoa ligada à preparação desta medida que o objectivo é chegar a 8% de redução do pagamento patronal em TSU. Se as contas de Marco António Costa se aplicassem, então seria preciso criar mais de um milhão de novos empregos… para pagar o rombo na segurança social e evitar o agravamento do défice. Nada bate certo, pois não? Isto não será mesmo para um aumento colossal de impostos?)»
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A «cunha»



José Pacheco Pereira, no Público de hoje:

«Nos espólios que tenho organizado relativos ao século XX português há uma constante que os atravessa a todos, sejam de que natureza for, que é a presença maciça de “cunhas”. Literalmente milhares de “cunhas”, que aumentam quanto mais poderosas forem as funções daquele a quem se pede um favor. (...)

A origem das “cunhas” cobre todas as classes sociais e todas as áreas da sociedade. Há algumas “cunhas” que se percebem ter origem em pessoas muito “humildes” e há “cunhas” vindas de pares do destinatário e nalguns casos de seus superiores. Do mesmo modo, não há uma diferenciação significativa entre as “cunhas” de pessoas quase analfabetas, que lutam com a caligrafia para escrever uma simples carta, e professores universitários e intelectuais: todos exercem a activa tarefa de meter “cunhas”. (...)

Depois do que li nesses papéis, uns mais antigos e outros menos, coloquei-me a dúvida: será que nada mudou? E inclino-me para responder que não, pouca coisa mudou. A “cunha” continua a ser crucial na vida portuguesa, embora hoje tenha outros nomes e outra circulação. Mas a proximidade ao poder, a qualquer poder, continua a ser uma vantagem enorme na obtenção de vantagens injustas e no bloqueio ao mérito.

Os “facilitadores” vivem desse mundo e olhando para certas carreiras mesmo no topo do estado a pergunta é como é que chegaram lá. Como é que meia dúzia de pessoas sem qualquer carreira, saber académico, experiência de vida, trato do mundo, podem mandar nalguns casos mais do que um Primeiro-ministro ou um Presidente da República, ao deterem o controlo dos partidos?

A resposta é: meteram muitas “cunhas” e prestaram muitos serviços numa fase da vida, e facilitaram muitas “cunhas” noutra. São espertos e hábeis. Conhecem-se entre si e sabem melhor do que ninguém as regras do jogo. Uns sofisticaram-se, outros não, mas há “espaço” para todos. Mas o seu efeito na vida pública é baixar os níveis de qualidade, estiolar a competição política, controlar o seu território com mão de ferro, e gerar à sua volta um círculo de iguais. E pôr em risco a democracia.» 
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17.4.15

Ficámos sem nenhum



Mário Soares, 20.04.1975. 

(Expresso diário de hoje.)
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Não acertam uma!


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Camboja. Há 40 anos, o Khmer Vermelho



Foi no dia 17 de Abril de 1975 que a capital do Camboja, Phnom Penh, foi tomada pelo Khmer Vermelho . Seguiram-se quatro anos de terror, num processo brutal que tinha como objectivo a criação de uma sociedade comunista puramente agrária e do qual resultou um genocídio que eliminou 20 a 25% da população (cerca de dois milhões de pessoas, embora não haja números exactos). Uma das consequências absolutamente impressionante e visível, mesmo para o turista desprevenido, é que o Camboja é hoje um país quase sem velhos: a grande maioria dos que teriam actualmente cerca de 65 anos, ou mais, desapareceu.

Estive lá em 2009 e, por muitos ou poucos anos que ainda viva, nunca esquecerei um dos mais célebres killing fields, situado nos arredores de Phnom Pehn, onde se encontra o Museu do Genocídio de Tuol Sleng. Numa antiga escola transformada em prisão e nos terrenos que a rodeiam, terão sido torturadas e assassinadas cerca de 10.000 pessoas – homens, mulheres e muitas crianças –, como testemunham largas centenas de fotografias expostas em grandes painéis. É um museu muito simples, impressionante pobre, mas terrível.

Há muita literatura sobre este período negro de uma parte importante do sudoeste asiático, há um grande filme (The Killing Fields, Terra Sangrenta, em português) e muitos pequenos vídeos como estes, precisamente sobre o museu de Tuol Sleng.





A ler: um testemunho impressionante de Denise Affonço, filha de pai francês, de ascendência vagamente portuguesa, e de mãe vietnamita.

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Mas não foram só os killing Ffields que me impressionaram, como então escrevi: Do outro lado do mesmo mundo
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Ó Pátria sente-se a voz, dos teus egrégios avós

«Risco» ou nem por isso



«Normalmente, ninguém diz "vou saltar desta janela do trigésimo andar e é arriscado". Se não estou enganado, nunca ouvi ninguém dizer que existe risco de incêndio num prédio que está a arder de alto a baixo.

Risco presume que existe a possibilidade de sucesso ou não. Deitar dinheiro para um precipício só seria risco se houvesse a hipótese do eco nos devolver pelo menos metade. Não sendo assim, não é risco. É apenas suicídio financeiro. Neste caso, foi suicídio assistido, com Costa a fazer de médico e Tavares de enfermeiro.

Resumindo, se estava falido e, na prática, já não existia, não devia ser possível investir. Ninguém em sã consciência vai ao balcão do banco trocar euros por notas de monopólio. Se estas transacções ao balcão do ex-BES - hoje Novo Banco - fossem feitas num monte alentejano, com pessoas de idade, era crime e mandavam chamar a GNR. Como foram feitas ao balcão de um banco, por pessoas de fato e gravata - com o carimbo de pessoas com melhor fato e gravata - é risco.

Conclusão, considerar a venda de cocó ao balcão de um banco como um risco, e não uma aldrabice, é uma visão arriscada porque se a PSP tiver a mesma sagacidade que o regulador e o controlador do Mercado, corremos o risco de, um dia destes, não conseguirem evitar que entre uma pessoa de caçadeira no Novo Banco disposta a arriscar tudo por não ter nada a perder.»

João Quadros

16.4.15

«Até quando???»


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Túlipas, milhões de túlipas



Desde ontem que oiço falar das túlipas de Keukenhof. A segunda metade do mês de Abril é de milhões delas (e de muitas outras flores), parece que estão já na melhor fase de florescimento e eu não me importava mesmo nada de lá voltar agora, como fazia todos os anos, religiosamente, quando morava a pouco tempo de passeio.

Devia ser obrigatório ir pelo menos uma vez na vida a esse jardim absolutamente espectacular, de 32 hectares, a sudoeste de Amsterdão. Um festival único de cores que as fotografias não fazem mais que sugerir. Mas aqui ficam algumas. 


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Crítica de cinema



Ricardo Araújo Pereira, na Visão de hoje:

«Neste momento, o filme mais visto do ano, em Portugal, é Velocidade Furiosa 7. Acaba por ser uma homenagem póstuma bastante terna do povo português ao mestre Manoel de Oliveira, cuja ideia de cinema era permeada pela velocidade furiosa enquanto valor estético fundamental.

A segunda película mais vista do ano é As 50 Sombras de Gray, o que faz sentido: um filme é sobre sinistralidade rodoviária e outro é sobre violência doméstica – dois temas centrais na actualidade portuguesa. (...)

Deve registar-se que Hollywood parece estar a produzir cinema baseado nos temas da sociedade portuguesa, pelo que devem esperar-se para breve películas sobre incêndios florestais e greves nos transportes.»

Na íntegra AQUI
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