20.12.10

Cavaco, personagem de «Conta-me como foi»?


Só hoje vi o «Formulário Pessoal Personalizado» que Cavaco Silva preencheu, em impresso fornecido pela PIDE, em Dezembro de 1967.

Muito se tem escrito sobre o assunto, por exemplo que todos os candidatos a funcionários públicos eram obrigados a fazê-lo. FALSO: eis a minha «Declaração de Compromisso», assinada em 1965, quando entrei como docente para a Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa. Não fui à António Maria Cardoso, tudo se passou na Reitoria – o processo era este e apenas este. (Previamente, a polícia fazia o seu trabalho de casa e autorizava, ou não, a Universidade a contratar, como tive ocasião de verificar, muitos anos mais tarde, nos meus processos que estão na Torre do Tombo.)


Portanto, não vale a pena dizer, como vi escrito por aí, que daquele inevitável acto dependiam as sopas do jovem que já tinha então subido a pulso alguns degraus da sua difícil escada, até porque o mesmo já era, à época, assistente universitário em Económicas.

Adiante, portanto. Terá precisado de consultar documentos secretos da NATO e foi-lhe pedido que preenchesse o tal Formulário? Mais do que provável. Mas não se lembra? Alguém se esquece de uma coisa destas? Mais do que improvável.

O documento pode ser lido aqui com nitidez. E é mesmo no fim que se encontra a tal «Observação», obviamente facultativa, que revela e retrata o carácter de quem diz de si próprio, na terceira pessoa:
«O sogro casou em segundas núpcias com Maria Mendes Vieira com quem reside e com quem o declarante não priva.»

Ninguém é obrigado a ter um passado antifascista para ser digno de respeito. Mas perde o direito a sê-lo quando é capaz de uma sabujice destas e deixa de ser suficientemente «decente» para presidir aos destinos de um país. Ainda por cima, coloca-se no plano de um moralismo barato e bacoco que, ao contrário do que muitos pensam, não era lei geral no fim da década de 60, no meio universitário de Lisboa.

Fica-lhe colado à pele um retrato digno dos mais retrógrados personagens de «Conta-me como foi».

P.S. - A ler: A pulsão da vidinha, por Miguel Cardina.
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33 comments:

Anónimo disse...

Nihil obstat, Joana Lopes.

Só fiquei surpreendido por a declaração dos professores universitários ser muito mais inócua do que aquela que, também em 1965, para ser funcionário público, tive de assinar e que falava do «repúdio activo do comunismo e de todas as ideias subversivas» (e que, aliás,devo confessar, assinei aborrecido mas com a magnífica calma e fria determinação de quem não a tencionava respeitar).

Joana Lopes disse...

Pois, Vítor Dias, sempre ouvi falar disso mas a verdade é que eu assinei isto.
Seja como for nada a ver com o Formulário do dr. Cavaco...

Manuel Vilarinho Pires disse...

Joana,
Já te vi "posts" mais estimulantes que este...

Quando nas presidenciais de 86 a direita percebeu que a vitória do Mário Soares era provável, desferiu um golpe baixo, recordando o episódio da bandeira espezinhada por ele em Londres em 74, procurando colar-lhe uma etiqueta de traidor. O resultado foi nulo: os eleitores de direita votaram no Freitas do Amaral, como teriam votado mesmo sem pisadelas na bandeira, e os de esquerda votaram no Mário Soares, como teriam votado mesmo sem pisadelas na bandeira. No final ganhou quem teve mais votos. E a etiqueta de saudosista do fascismo acabou colada nas mãos de quem a tentou colocar.

O próprio Mário Soares, e a esquerda de um modo geral, não se furtaram a um golpe baixo, sob a forma de um ataque de puritanismo, nas legislativas de 80, quando se declararam escandalizados pelo facto de o Sá Carneiro se fazer acompanhar pela amante em cerimónias oficiais, tentando colar-lhe uma etiqueta de adúltero. Com o mesmo sucesso do episódio posterior da bandeira. No final ganhou quem teve mais votos. E a etiqueta de pseudo-puritano hipócrita acabou colada nas mãos de quem a tentou colocar.

E o mesmo sucesso vai ter este golpe, igualmente baixo, de tentar colar ao Cavaco Silva uma etiqueta de sabujo da PIDE. Os eleitores do BE e da esquerda do PS não irão votar nele, como não votariam mesmo sem ficha na PIDE, e os eleitores de direita votarão nele, como votariam mesmo sem ficha na PIDE. E no final ganhará quem tiver mais votos. E, como nos golpes baixos anteriores, a etiqueta vai acabar colada nas mãos de quem a está a tentar colocar.

A ética não se exige, exerce-se, e não se pode exigir aos estrategas destas campanhas que exerçam mais ética do que possuem, não desferindo golpes baixos. Mas um bocadinho de inteligência e de capacidade de aprender com os erros passados dos outros não lhes faria nada mal...

Joana Lopes disse...

E eu já te vi comentários mais certeiros, Manel.

Não sou estratega, nem de campanhas, nem de outras actividades e teria escrito este «post» se esta história tivesse sido conhecida há dois ou há dez anos. Revela uma pessoa execrável, ponto. Apareceu por estratégia de outros? Obviamente. E daí? O documento foi forjado?

Talvez não tenhas a mesma sensibilidade que eu por teres andado mais longe do que eu de certas realidades, mas admira-me muito que consideres que isto revela uma pessoa «decente» - escolhi a palavra a pensar em ti, de resto.

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Manuel,
parece-me evidente que a Joana tem razão. Num regime de ditadura, vir denunciar como (politicamente) infrequentáveis ou pouco recomendáveis relações familiares cujo comportamento as autoridades possam ter por menos correcto é, pura e simplesmente, abaixo de cão. A campanha contra a irregularidade da situação de Sá Carneiro e Snu Abecassis também foi abaixo de cão, mas, que mais não seja porque a ditadura caíra, não foi pidesca - só reaccionária e demagógica, como outras coisas a que o PS e o seu líder histórico, Mário Soares, nos habituou: dizer à Maria de Lurdes Pintasilgo que, se ela fosse eleita, não ficaria uma prata em Portugal; encorajar sem dar a cara a candidatura de Fernando Nobre; insinuar que as razões de Salgado Zenha, ao romper com ele, relevavam do foro psiquiátrico, etc., etc.
Enfim, coisas tristes, mas esta atitude de Cavaco continua a passar todas as marcas. E não vejo que evocá-la possa sujar as mãos da Joana ou seja de quem for.
Cordiais saudações republicanas

msp

Manuel Vilarinho Pires disse...

Joana,

Nunca me deves ter visto escrever que considero o Cavaco Silva uma pessoa decente, porque eu escrevo sempre o que penso e não penso que ele o seja (e, sentindo-me tocado pela distinção da referência à decência no "post", tenho pena de te desapontar ao revelar isto).
Nem o Mário Soares, já agora. E não poria as mãos no fogo pelo Sá Carneiro, se bem que me seja mais difícil formar uma opinião sobre isso nele.
Mas a ética que está em jogo num golpe baixo, a que determina a decisão de o aplicar ou não, não é a do alvo, é a do atirador.

Não tenho nenhuma razão para suspeitar que este documento tenha sido forjado, como não foram forjados os episódios da bandeira ou da Snu Abecasis. Os factos que serviram de base aos golpes baixos são verdadeiros.
Forjadas foram as consequências que se procuraram extrair deles, as acusações de traidor ao Mário Soares quando, obviamente, no contexto em que a pisou, a bandeira simbolizava o regime fascista e não o país, e de imoral ao Sá Carneiro, esta tão inclassificável que nem merece comentários.
E a de colaboracionismo ou tolerância com a PIDE que se procura deduzir desta ficha do Cavaco Silva.

Quanto à inadequação para o desempenho de funções de PR que lês nesta ficha da PIDE, o que posso dizer é que a maioria dos portugueses, provavelmente, não fará essa leitura dela.
E nenhum irá à ficha da PIDE à procura de elementos para avaliar essa adequação num político que já conhece há décadas, para o bom e para o mau. Nem os que votam nele, nem os que votam contra ele. Suponho eu...

E permite-me que te diga que aquilo que eu escrevi no comentário anterior, sobre o exercício da ética e da inteligência em campanhas eleitorais, considero que tu também poderias ter escrito. Posso-me ter enganado, mas o comentário não me pareceu assim tão pouco certeiro. Será que me enganei?

Manuel Vilarinho Pires disse...

Bom dia, Miguel,

Já deve ter deduzido da minha resposta à Joana que o meu comentário não visava defender o carácter do Cavaco Silva mas sim criticar a campanha (e o carácter, a que ela fica colada...) do Manuel Alegre.
E convido-o(s) a concordar com ele!
Antes de continuar, deixem-me fazer a minha declaração de interesses: tendo já escrito publicamente em fora acessíveis aos dois que nestas eleições votaria no Cavaco Silva, até ao dia das eleições sou, tecnicamente, um eleitor do Manuel Alegre, em quem votei nas últimas presidenciais. Em que o Manuel Alegre conseguiu um milhão de votos sem precisar de recorrer, que me lembre, a um único golpe baixo.
Não sei se a alteração de tom nesta campanha se deve ao próprio Manuel Alegre, ou ao facto de agora ser apoiado pelo PS ou pelo BE, ou pelas suas máquinas de propaganda. Posso ter um palpite, mas nem é importante.
O importante é que o Manuel Alegre não precisava de repetir slogans de "spin doctors" nem de recorrer a esbirros para vasculhar os arquivos da PIDE. Nem por razões de ética, a que o percurso dele parece sugerir que não é dos políticos portugueses mais insensíveis, nem por razões de eficácia, mesmo que hipoteticamente secundarizasse as primeiras. E fê-lo. Com isso, sujou-se. Para nada.
Apelo portanto, aos dois, a uma releitura do meu comentário à luz da óptica que o originou, o apelo à ética e à inteligência nas campanhas eleitorais, e o lamento por vê-las ausentes, desqualificando a própria democracia. E apelo, consequentemente, à vossa concordância com ele, e com a necessidade de requalificar a democracia.

Um abraço ético e inteligente aos dois...

Joana Lopes disse...

Correndo risco de te desiludir, Manel, parece-me que pecas por idealismo: tudo o que referes não passa de um conjunto de danos colaterais do funcionamento do sistema em que vivemos e que tu (ao contrário do Miguel e de mim) não pões aparentemente em causa, querendo apenas que funcione um pouco (ou muito) melhor, mais «decentemente», sem golpes baixos em momentos oportunos. Não acontecerá. Democracia, sim, mas não esta – outra virá, mesmo que só para os nossos bisnetos.

Falaste de todos os ex-PR’s menos de Jorge Sampaio e eu resumo uma história: na véspera da sua primeira eleição, o Expresso tinha pronta para publicação uma notícia em que seria dito que, na origem do divórcio do seu primeiro casamento, tinha estado o facto de ele bater na mulher. Não só se tratava de uma informação falsa, da primeira última palavra, como toda a gente sabia, mesmo no Jornal, que tinha sido inventada, do nada, à última hora. Houve uma fuga para o exterior e foram necessárias pesadas ameaças feitas por advogados para travar a coisa.

«Infelizmente», ninguém forjou a ficha do dr. Cavaco na PIDE…

Ricardo Alves disse...

Manuel Vilarinho Pires,
a estória do Soares pisar a bandeira é falsa. Participou numa manifestação, em Londres, em que algumas pessoas fizeram isso. Mas ele sempre disse que não o fez.

Quanto ao post da Joana Lopes, estou totalmente de acordo. Ilustra o carácter da pessoa que nos arriscamos a ter para um segundo mandato. E, como se sabe, os segundos mandatos presidenciais são muito diferentes dos primeiros.

Manuel Vilarinho Pires disse...

Será idealismo?
Eu citei alguns exemplos de casos em que o golpe baixo não resultou. E podia citar mais, muitos mais.
Pelo que a persistência na sua utilização denota, não lhe chamei apenas falta de ética, designação que até poderia ser desqualificada como resultante de idealismo (mas não é, como explico adiante), mas também falta de inteligência. O que me parece mais resistente à sugestão de idealismo.
Na verdade, a ética não prima por uma questão de decência, ou de estética, ou de agradabilidade, mas pela eficácia. Como a liberdade, a transparência e a própria democracia, aliás... e o idealismo suportado em factos não é idealismo, é realismo!

Quanto à esperança numa nova democracia, é verdade que este modelo tem séculos, muitas imperfeições e desgaste. Mas todas as novas democracias que foram ensaiadas resultaram pior, mas muito pior.
É muito fácil fazer um estudo empírico simples para o comprovar. Dividam-se as nações em dois grupos, as que contêm na sua designação as palavras "democrática" ou "popular" (as tais novas democracias), e as que não. Atribua-se a cada nação a característica de "democracia" ou de "ditadura" (pode ser subjectivo, mas não é difícil consensualizar a classificação). Calcule-se a probabilidade de uma nação ser democrática condicionada à existência ou não das palavras "democrática" ou "popular" na sua designação.
Ter esperança numa nova democracia também indicia algum idealismo, não?
;-)
Abraços inteligentes (eu também tenho os éticos para distribuir, mas não os quero impor a ninguém...) aos dois!

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Ricardo,
Se o Soares desmente até poderíamos pressupor que é mentira.
Mas isso não alteraria o que tentei demonstrar, que foi que os golpes baixos são ineficazes, e não que os dirigidos à direita (Sá Carneiro, Cavaco Silva, a orientação sexual de certos políticos de direita) são fundamentados e os dirigidos à esquerda (Mário Soares, Jorge Sampaio, a orientação sexual de certos políticos de esquerda) falsos.
E como não é relevante, sugiro que não nos entreguemos agora ao exercício fútil de decidir, sem necessidade, em qual das versões da história acreditamos.

António Marquês disse...

E também acrescentou, naturalmente para dar mais credibilidade à sua integridade política, no ponto onde tinha que indicar 2 (e apenas duas) pessoas que abonassem a seu favor, uma terceira que era membro da UN (para quem não se lembra - União Nacional ), partido único do regime.
Não vá a PIDE ter alguma dúvida...
António Marquês

Sarcodina von Mastigophora disse...

ora um accionista de uma instituição falida e com mais dislates

não necessita de penas extras

se foi foi já lá vão 38 anos há tanto bufo que é admnistrador de quelque chose

Márcio AC disse...

Um pequeno problema em todas as vossas afirmações, embora, em abono da verdade, se diga que gosto do Manuel Alegre desde que em criança ouvia as suas músicas, mesmo sem saber que eram dele e eram o Adriano ou o Zeca que as cantavam:

Quando pensam em votos e se as campanhas, difamatórias ou não, e a típica propaganda eleitoral,
à Göebbels ou não, funciona, é bom lembrar um par de coisas que NÃO SÃO TÃO ÓBVIAS neste país:

- Temos ainda muitos analfabetos, não um ou dois
- Temos bem mais analfabetos funcionais, que sabem "ler e escrever" mas teriam dificuldades em ler nas entrelinhas de um texto o que são bons a distinguir instintivamente na oralidade
- Temos pessoas que não seguem NENHUNS meios de comunicação social e acham (bem, em alguns casos, tal é a degradação do jornalismo no Mundo, não só no oligopólio mediático português) que toda a "informação" que sai deve ser ou ignorada ou vista com EXTREMO cepticismo
- Temos pessoas que estão saudosistas de regimes fascistas, por todo o tipo de razões, algumas conscientes outras irracionais
- Temos pessoas que seguem a "lógica do paizinho" e acham que precisamos de alguém para pôr todos os outros na linha e "endireitar o país"

E, por fim, temos pessoas de memória curta, ou que estão tão completamente esgotadas por trabalharem 8, 10, 12, 14 horas por dia, como alguns colegas meus LICENCIADOS...

...que são muito convenientes ao políticos irresponsáveis e corruptos como o Sr. Aníbal Cavaco Silva, porque deixam passar episódios como o "jobs for the boys" e a ESCANDALOSA venda das antenas da RTP que ESTRANHAMENTE passou a dar prejuízo desde então (é natural - passou a pagar 1 milhão de contos por ano algo que lhe rendia bem mais quando era dono delas...)

Como no final do filme espanhol "Abre los ojos" e do seu remake americano "Vanilla Sky", talvez seja altura de alguém nos dizer:

"Abre os olhos"...

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Manuel,
faço minhas, no essencial, as razões da Joana. Só gostaria de acrescentar uma pergunta: porque fala V. em golpes baixos a propósito de qualquer coisa que, manifestamente, não o é (a baixeza, neste caso, ficou toda com Cavaco Silva)?
Quanto aos outros aspectos mais gerais - concepção da democracia, racionalidade política, etc. -, não pararemos de divergir tão cedo, mas continuaremos por certo a falar.

Seu cordial interlocutor

msp

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Miguel,

Publicar durante uma campanha eleitoral a ficha na PIDE de um candidato, qualquer que seja a eleição, o candidato e o conteúdo da ficha, é um acto que não carece de análise muito profunda para ficar bem caracterizado no plano ético, pois não? Se isto não é claro, enganei-me na convicção formulada anteriormente de que o meu primeiro comentário poderia ter sido subscrito indistintamente por qualquer um de nós os três. Paciência...

No plano da eficácia, o resultado da publicação aferir-se-á no dia das eleições. Ou melhor, pode-se ir aferindo antes, se alguém se predispuser a fazê-lo. E já que estou em maré de fazer propostas de estudos empíricos, basta lançar um inquérito muito simples com a pergunta:
"Antes de conhecer a ficha na PIDE do Cavaco Silva tencionava votar em... e depois de a conhecer, tenciona votar em...",
...e as respostas:
a) Cavaco / Cavaco
b) Cavaco / não-Cavaco
c) não-Cavaco / não-Cavaco
d) não-Cavaco / Cavaco
As respostas b) aferem a eficácia da publicação. As respostas a) e c) a sua irrelevância.
Para mim, também é claro que é completamente irrelevante, mas estou (sempre) aberto a mudar de opinião com base em factos...

Um abraço cordial

Miguel Serras Pereira disse...

Caro Manuel,
com todo o respeito, devo dizer-lhe que a sua interpretação do que é e não é um "golpe baixo" em política não me parece aceitável.
Um "golpe baixo" é uma acusação caluniosa ou configura uma desonestidade ou distorção deliberada dos factos e/ou razões. A divulgação do documento que ilustra a atitude perante a filantrópica polícia que Salazar teve do actual PR talvez se pudesse também considerar um "golpe baixo", se aquele, honesta e publicamente, se tivesse demarcado de posições que teriam sido as suas, mas que actualmente, depois de anos de experiências e reflexão, lhe parecessem de repudiar. Fica bem a qualquer explicar que se tornou democrata, apesar da formação em contrário que conheceu e que fez com que, até dado momento da sua vida adulta, não o fosse.
Mas o caso é muito diferente. O documento não distorce factos nem razões, não calunia nem desenterra um passado em relação ao qual o Professor Cavaco tenha já marcado as devidas distâncias. E por isso divulgá-lo é jogo limpo e, em meu entender, esclarecedor.

Com a cordial franqueza de sempre

msp

Manuel Vilarinho Pires disse...

Caro Miguel,
Na impossibilidade de acordarmos numa definição de golpe baixo, e tendo sérias dúvidas que também consiga concordar comigo na irrelevância que prevejo para esta revelação, medida na sua inconsequência para o resultado da eleição em que ela pretende influir, resta-me esperar pelo resultado da eleição para verificar se, ao menos na aritmética, conseguimos chegar a um acordo...
Um abraço,

PS: Mas relativamente à medida da relevância da revelação, não deixo de o desafir, assim como à Joana, para usarem o espaço dos vossos blogues para fazerem aos vossos visitantes o inquérito que propuz antes, e cuja técnica sei que a Joana já domina.
É sempre melhor discutir sobre factos do que sobre impressões... nisto estamos de acordo, ou nem nisto?

Nuno Gaspar disse...

"O sogro casou em segundas núpcias com Maria Mendes Vieira com quem reside e com quem o declarante não priva."

Ó Joana,

Esta frase não "revela e retrata o carácter de quem diz" tanto como o de quem a foi desenterrar 43 anos depois para fazer campanha eleitoral.

Joana Lopes disse...

Manel, ora aí está uma boa razão para abrires um blogue: fazeres esse inquérito que tanto parece interessar-te!

Manuel Vilarinho Pires disse...

Joana,
Eu disse acima a propósito destas revelações que "O importante é que o Manuel Alegre não precisava de repetir slogans de "spin doctors" nem de recorrer a esbirros para vasculhar os arquivos da PIDE. Nem por razões de ética, a que o percurso dele parece sugerir que não é dos políticos portugueses mais insensíveis, nem por razões de eficácia, mesmo que hipoteticamente secundarizasse as primeiras.".
Como eu não secundarizo as questões de ética, nem preciso de comprovar as de eficácia para definir a minha posição sobre estas revelações. De qualquer modo, a seu tempo, a prova da irrelevância aparecerá, dizendo-me que me enganei, ou que adivinhei...

Nuno Gaspar disse...

Pensava não ir votar. Esta discussão rendeu, pelo menos, mais um voto em Cavaco Silva.

Joana Lopes disse...

Nuno Gaspar, votar Cavaco na 1ª volta ou ficar em casa é mais ou menos indiferente, no caso vertente.

Manuel Vilarinho Pires disse...

Nuno Gaspar, uma resposta tipo d)?
Eu não entrei por aí, até porque os meus interlocutores desmentiram veementemente que esta história fosse um golpe baixo, e quem sou eu para os desmentir? Mas uma das consequências genéricas possíveis de um golpe baixo é o incremento da mobilização dos simpatizantes da vítima, ou a adesão de pessoas que nem simpatizantes eram para penalizar o golpe que desaprovam.

Joana, essa matemática...
Só é indiferente votar Cavaco na 1ª volta ou ficar em casa, se se acreditar que o Cavaco ganha à 1ª volta mesmo que os seus eleitores não vão votar! Mas se se acreditar nisso, também se pode dizer que votar Alegre na 1ª volta é o mesmo que ficar em casa, sugerindo a abstenção aos eleitores do Alegre. Devo esperar um "post" teu, aqui ou no Facebook, a apelar à abstenção dos eleitores do Manuel Alegre? Por esta não estava à espera... :-)
(Eu sorrio, mas por não acreditar, porque estou sempre em desacordo com os apelos à abstenção, que vejo como tentativas de desvalorizar a democracia. Espero que quem deseja votar no Alegre, mesmo depois dos golpes baixos, o faça mesmo!)

Joana Lopes disse...

Manel,

Infelizmente, é indiscutível que Cavaco tem muitas hipóteses de ganhar à 1ª volta. Quanto maior for o número de abstenções, menos votos expressos são necessários para que isso aconteça.

(P.S. - Aviso desde já que não estou disponível para continuar a discutir este tema ad eternum. Tinha uma regra de que tenho prescindido mas à qual vou regressar: em princípio, não responder a mais de um ou dois comentários de um mesmo leitor, num mesmo post, a não ser que algo de muito novo seja abordado. A teimosia não é boa «esclarecedora» e afasta leitores, sem pachorra para diálogos intermináveis. Sorry…)

Manuel Vilarinho Pires disse...

Joana,
Eu suponho que este PS deve ser dirigido a alguma coisa que escrevi no comentário anterior, mas não estou a ver a quê, nem sequer se é na parte dirigida ao comentador Nuno Gaspar, ou na parte dirigida a ti?
E se isto fosse um espaço público, mesmo sem perceber a razão da sugestão de não continuar a comentar, obviamente que não me calaria.
Mas isto é um espaço privado, teu, e eu calo-me.

Nuno Gaspar disse...

E este link? Publica ou censura como o anterior?

http://jugular.blogs.sapo.pt/2386742.html

Joao Aldeia disse...

Seria muito importante separar o que foi a actuação da máquina de repressão do Estado Novo, da qual a PIDE era uma peça fundamental, e o modo mais ou menos corajoso como as pessoas reagiram quando confrontadas com essa máquina.
Contudo, este tipo de informação, do modo como é feito, apenas ajuda a confundir. O autor do post, pelos vistos, foi muito corajoso a afrontar a máquina repressiva do Estado Novo. Mas agora está ao lado dos que confundem tudo, e a ajudar os que, no Facebook, usam estes documentos, publicados de forma ilegível, para dizer que cavaco era informador da PIDE. Não lhe posso dar os parabéns pela "companhia" que arranjou...

Joana Lopes disse...

João Aldeia,
Eu escrevi este texto há quase dois anos. Por motivos que me escapam, dezenas ou centenas de pessoas têm vindo agora lê-lo ou relê-lo. Assumo que alguém (nem sonho quem, muito menos porquê) o espalhou no Facebook - não fui eu.
Quando o escrevi, estava-se em plena campanha eleitoral das presidenciais e este tema foi discutidíssimo em tudo o que é jornais, televisões e blogosfera, depois de um jornal ter difundido o documento..
Diz que está quase ilegível? Se reler o texto, verá que tive o cuidado de remeter para a fonte. Mais: se clicar na imagem, vê-la-á maior: é o «modus faciendi» nos blogues, para o caso de não saber.
Confundo tudo? O quê, exactamente???

Stairway to Heaven disse...

Por mais que se deteste Cavaco Silva, esse documento não demonstra nada. Meu pai era licenciado em Economia e para entrar no Instituto Nacional de Estatistica, foi obrigado a assinar papel idêntico, e no entanto após a assinatura do dito formulário, foi preso politico (Caxias) durante 24 meses.

Victor Nogueira disse...

Por acaso vim ter a este post. Esclareço que os artº 1º e 2º do DL 22003 de 14 de setembro determina que deve ser subscrita uma declaração com assinatura reconhecida do seguinte teor
"Declaro por minha honra que estou integrado na ordem social estabelecida pela Constituição Política de 1933, com activo repúdio do comunismo e de todas as ideias subversivas"

http://dre.pt/pdf1sdip/1936/09/21600/10971097.pdf

Creio que esta declaração só foi suprimida por Marcelo Caetano, na sua tentativa de renovação na continuidade, embora ainda estivesse em vigor no final de 1969.

Victor Nogueira disse...

Em tempo - No meu comentário anterior deve ler-se DL 27003 de 14 de setembro de 1936, como aliás se refere no link para o texto do referido diploma "legal".

Fernando Ramos disse...

Minha senhora, embora já extemporaneamente, porque "caí" no seu blogue por acaso, não posso deixar de lhe dizer que sou militar e já tive várias vezes ao longo dos meu 31 anos de carreira de preencher uma ficha muito idêntica (que lhe posso enviar se quiser), para por questões de serviço, ser credenciado em NATO Secreto. Facto que parece ser para a senhora, algo extraordinário.
Não. Não é nada extraordinário. É um normal documento que apenas é aborrecido preencher, como tantos outros.
Se quer que lhe diga de todos os que preenchi, e devo ter preenchido uns 6, só me recordo dos últimos 2. Um em 2006 e outro à uma semana...
Como vê, é natural que o ex-Presidente Cavaco Silva não se recordo de o preencher...
Quanto ao documento, sendo o ex-Presidente Cavaco Silva militar na altura um Oficial de Transmissões, seria natural que necessitasse dessa credenciação para o seu serviço e, naturalmente, para aceder aos documentos que necessitava.

Não há na tal ficha absoluta nada demais. Só há mesmo, para quem não está dentro dos assuntos e faz do que desconhece um bicho de sete cabeças.