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10.4.16

Paraísos e infernos



«Toda a gente sabe para que servem as "offshores", quem as utiliza e com que objetivos. Resumindo, para os distraídos. As "offshores" servem para esconder capitais, para lavar dinheiro, muito dele proveniente de crimes de tipologia variada, e, sobretudo, para fugir aos impostos. (…)

A maioria das contas abertas nas "offshores" tem uma origem criminosa ou, no mínimo, duvidosa. As que representam operações financeiras legítimas são uma exceção. Perante isto, que toda a gente sabe, importa menos conhecer quem utiliza estes mecanismos, mas saber porque é que eles existem e persistem. Tanto mais que da esquerda à direita, dos empresários aos contribuintes, dos jornalistas aos comentadores, toda a gente parece estar muito indignada com a situação.

Este esquema, e outros similares, não acabam porque são parte integrante do sistema. São mesmo, em grande medida, um dos seus principais motores. O sistema capitalista assenta a sua dinâmica numa abstração, o dinheiro, que serve para adquirir tudo o resto, dos produtos ao poder pessoal. O objetivo de cada habitante deste planeta é por isso o de conseguir acumular a maior quantidade de dinheiro possível. A bem, trabalhando ou gerando negócios, ou a mal, extorquindo, roubando, desviando. Sendo que a mal é quase sempre mais fácil e mais rentável. (…)

Não se acaba com as "offshores" porque existe uma teia de interesses que beneficia delas. São naturalmente as redes criminosas, mas também singelamente quem tem muito dinheiro e, como toda a gente, não gosta de pagar impostos.

Mas são sobretudo os políticos. Por uma simples razão. São eles que fazem as leis, que decidem, que podem favorecer ou inviabilizar praticamente todo o tipo de atividade humana. Desde o uso de um pequeno bocado de terra até à expansão de uma multinacional.

As "offshores" só existem porque os políticos as apoiam e protegem. Mesmo se os discursos dizem precisamente o contrário. Trata-se aliás de uma forma de corrupção generalizada. Porque ao não agirem, com argumentos variáveis e desde logo o da necessidade de um consenso global que sabem não existir nunca, são cúmplices do uso fraudulento das "offshores". Nada desculpa uma tal inércia, sobretudo quando noutros domínios os políticos são tão rápidos a agir contra as vidas de milhões de pessoas. Pense-se na austeridade ou no aumento dos impostos.»

Leonel Moura

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