27.10.13

Ainda a propósito do «regresso»



Um texto de São José Almeida, no Público de ontem, realça e comenta bem dois temas importantes abordados nas muitas declarações recentes de José Sócrates: [1] a sua falta de inclinação «para voltar a depender do favor popular» e [2] o cariz milagroso do famigerado PECIV, que o agora engenheiro-mestre em Teoria Política continua a defender acerrimamente

[1] «"Ouça, tenho uma boa vida. Se voltei ao comentário político, é porque me quis defender, estava a ser atacado sem defesa. Não sinto nenhuma inclinação para voltar a depender do favor popular." (...) Esta é a forma como Sócrates responde à pergunta sobre uma eventual candidatura sua a Presidente da República, na entrevista ao Expresso. (...)

Quando o que caracteriza a democracia política é a igualdade de decisão entre todos, ou seja, a garantia de que a escolha política assenta no princípio de “uma pessoa, um voto”, Sócrates revela uma pesporrência que ultrapassa toda a sua anterior retórica. É que falar da hipótese de uma candidatura eleitoral como sendo algo por que se sente “inclinação” e da eleição em si como de uma circunstância em que o candidato se faz “depender do favor popular” manifesta um nível de arrogância, que ultrapassa os níveis de vaidade pessoal que num ou noutro momento da sua vida política demonstrou.» (...)

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[2] «O que parece mais difícil de compreender é que Sócrates acredite mesmo que a situação hoje em Portugal seria muito diferente do que é, se o seu PEC IV tivesse sido aprovado. É que, ainda que a aprovação do PEC IV não tivesse precipitado a assinatura do memorando de entendimento para assegurar que a União Europeia viabilizava empréstimos financeiros a Portugal, a realidade é que o PEC IV — assim como o PEC III — continha já muito do que eram a essência das orientações políticas que a União Europeia queria impor para alterar o modelo de organização do Estado português. Até porque à subida de impostos e aos cortes na despesa pública existentes já no PEC II no PEC III somaram-se o congelamento de pensões e os cortes no rendimento da função pública. E foi, recorde-se, no Orçamento para 2011 que foi criado o “imposto” sobre o 14.º mês.

Em suma, José Sócrates pode queixar-se do PSD, por Passos Coelho lhe ter tirado o tapete para chegar ele mesmo a primeiro-ministro. Mas não pode dizer que o PEC IV salvava o país da política de austeridade – simplesmente porque foi com Sócrates que a política de austeridade começou e foi Sócrates que cedeu às receitas neoliberais. A diferença entre Sócrates e o que fez e faz Passos é só de grau de intensidade.»
(Os realces são meus.)

P.S. – O texto na íntegra pode ser lido aqui
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