4.5.14

Quando éramos senhores de meio (novo) mundo



Em 4 de Maio de 1493, por pressão de nuestros hermanos, o papa Alexandre VI dividiu o «Novo Mundo» entre Portugal e Espanha, pela bula Inter Coetera. Um meridiano (virtual, diríamos nós hoje...), desenhado a 100 léguas a Oeste de Cabo Verde, definiu que Espanha ficaria com tudo o que se situasse a Oeste do meridiano em questão e Portugal com o que estivesse a Leste. Mais exactamente:

«Esta bula origina-se de termos feito doação, concessão e dotação perpétua, tanto a vós (reis), como a vossos herdeiros e sucessores (reis de Castela e Leão), de todas e cada uma das terras firmes e ilhas afastadas e desconhecidas, situadas em direção do ocidente, descobertas hoje ou por descobrir no futuro, Seja descoberto por vós, seja por vossos emissários para este fim destinados.»

Espanha garantia assim a posse das terras descobertas no ano anterior por Cristóvão Colombo e Portugal a costa africana que estava a ser explorada na procura de um caminho marítimo para a Índia. Mas Portugal não gostou da decisão porque o conteúdo da bula só lhe atribuía a parte mais oriental do Nordeste brasileiro e acabou por conseguir alterar o efeito da Inter Coetera, no ano seguinte, pelo Tratado de Tordesilhas, onde foi definido um novo meridiano a 370 léguas de Cabo Verde.

Mas porquê uma bula e um papa no meio do processo? Segundo a tradição medieval, a Santa Sé tinha o direito de dispor das terras e dos povos, em parte devido ao Édito de Constantino, que dera ao papa Silvestre a soberania sobre todas as ilhas do globo (e, supostamente, apenas ilhas estariam ainda por descobrir...).

De longe nos vem a sina de termos mandantes, hoje com papas substituídos por mangas de alpaca troikados. E assim chegamos a este 521º aniversário de um meridiano virtual com uma saída nem sequer virtualmente limpa.

(Fonte, entre outras)
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