15.9.14

Europa: fantasma ou não



«É preciso arranjar vitórias para se esconder as contínuas derrotas da Europa. Bruxelas não ouve os povos que administra e a sua balofa burocracia perdeu-se nos seus próprios interesses, como no castelo de Kafka.

Cada vez mais irrelevante a nível global, a Europa não percebe que as "reformas estruturais" não são uma barragem que possa impedir a inundação da deflação, o desemprego crónico e o estilhaçar das fronteiras. Toda a arquitectura criada após 1945, baseada na santidade das fronteiras e no Estado social que equilibrava as sociedades, está a implodir. (...)

Se a Escócia votar pela independência, poucos duvidam que o dique ceda: a Catalunha correrá para a mesma porta de saída e, depois, virão os flamengos na Bélgica. E sabe-se lá se a Itália não cederá. A Crimeia mostrou que a Europa não tem força para garantir as fronteiras de 1945. Vladimir Putin, olhando para a fotografia de Pedro, o Grande, que tem na sua secretária, sabe que pode não ter a forma económica toda, mas tem o poder militar. E essa a Europa deixou de ter, julgando que tudo se resolveria se fosse uma potência económica exportadora, algo que deixou de ser.

A Europa sucumbe: a França não vai cumprir o défice prometido para este ano, nem para o próximo. E se não cumprir como pode Bruxelas exigi-lo aos outros, afogados entre o fim do crescimento e o desemprego lancinante? Talvez Juncker e Draghi consigam, num último fôlego, conseguir mostrar que a UE tem vida própria. Ou se é um fantasma com medo de si próprio.»

Fernando Sobral