16.10.14

Orçamento fingidor



«Em Novembro de 1894, o deputado Gomes da Silva, dizia numa sessão parlamentar: "Todos nós sabemos que o discurso da Coroa não passa de uma ficção. Diz-se: o Rei diz. Mas a verdade é que o Rei não diz nada, quem diz é o governo pela boca do Rei". Tantos anos depois, nada mudou.

Substitui-se o Rei por Bruxelas e o resultado é semelhante. Não se sabe se o Governo fala pela boca de Bruxelas, se esta é uma câmara de ressonância do executivo português, se os dois não são as colunas de um concerto ensaiado pela filarmónica de Berlim.

Tudo é tão sinuoso que o OE só poderia ser um Frankenstein: o resultado de diferentes fingimentos. Bruxelas diz que é necessário crescer, mas pede sempre cada vez mais austeridade, o Governo tem de fingir que não pensa nas eleições para que Berlim não o coloque no cantinho dos malcomportados, o BCE tem de fazer golpes de mágica para fazer crer aos mercados que não caminhamos, cegos, surdos e mudos, para o fosso da deflação. (...)

Se Freud convocasse a CE e o Governo para o seu divã nunca mais os deixava sair de lá. A Europa, com os problemas italiano e francês cada vez mais evidentes e com os empresários alemães a investirem nos EUA em vez de o fazerem no seu país, caminha para a estagnação. E todos fingem que esta austeridade salvará tudo. Não salva. É uma bóia que fará naufragar a Europa.»

Fernando Sobral