18.11.15

Filme mudo com legendas



«A política portuguesa, por estes dias, parece um filme de série B. Compreende-se: em tempos de austeridade, os orçamentos para contratar actores são bastantes reduzidos. É por isso que muito do que a generalidade dos dirigentes do sítio diz parece um argumento de um filme de "suspense" ou de terror.

Alguns parecem saídos de um filme "de autor". Mas, na generalidade dos casos, como começa a ser evidente no caso de Cavaco Silva, é um filme mudo com legendas. O comum português não percebe: como é que é possível, um mês e meio depois das eleições, continuarmos sem ter um Governo e o PR dizer, como se estivesse a falar do ciclo de vida das cagarras, que ele próprio esteve cinco meses em gestão. E o país não pereceu, é claro.

Compreende-se que Cavaco prefira falar de si em vez de resolver algo que é fundamental para o país, mas este nível de abstracção começa a assemelhar-se ao dos piores momentos da alucinação psicadélica dos anos 1960. O que vale é que, consciente ou não, Passos Coelho confidenciou a Van Rompuy que teremos Governo "dentro de duas semanas" para alegria de Bruxelas. Numa coisa PS e PSD parecem estar de acordo (já que tudo o resto os separa): um Governo de gestão é o pior que pode acontecer. Mas como Cavaco parece ainda sonhar com os tempos em que esteve cinco meses em gestão não se sabe se não vai optar por esse delírio. Mesmo que isso torne a AR um pandemónio, as ruas um pesadelo, com um Governo atado de pés e mãos com uma maioria parlamentar contra.

Ou seja, Cavaco ameaça com um Governo que fique a "assar" no espeto, na expressão feliz de Passos Coelho. Mesmo que o país fique "torrado" por causa disso.»

Fernando Sobral

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