10.9.18

O oó da política



«Adiar é uma estratégia nacional em Portugal. Causa escândalo, mas não espanto, que uma obra urgente como a construção da ala pediátrica do Hospital São João do Porto tenha sido sucessivamente adiada, através dos mais diversos pretextos.

Pinto da Costa, presidente do FC Porto, e que conhece como poucos os labirintos das decisões políticas, espanta-se também: "Como é que os governantes conseguem dormir com consciência tranquila sabendo que há crianças doentes que vivem e dormem em contentores há tantos anos?" Fazem oó, não porque tomaram ansiolíticos ou escutaram a música do Vitinho, mas porque a indiferença faz parte da arte da política. E esta é um teatro, uma ficção. O Excel não vê lágrimas, nem mede a dor. É cego, surdo e mudo. E quem decide não se preocupa se, em nome das "limitações orçamentais" e da "austeridade", milhares ficam sem emprego, sem comboios, sem médicos, sem serviços públicos, sem agências bancárias por perto ou sem comida. Quando inventou a "sopa dos pobres", Sidónio Pais percebeu o que era a pobreza deste país. Mas hoje, como os que decidem não andam nas ruas, e o seu mundo balança entre as intrigas palacianas, o telemóvel e o frio Excel, não há muitos afectos para distribuir. Por isso, Marcelo é rei.

Vivemos num tempo de falta de projectos políticos. Os únicos que os têm são os populistas, que vão cercando a democracia porque os que a deveriam defender só pensam em proteger-se a si próprios. Como disse Maquiavel, a mentira é uma formidável arma política porque é muito mais difícil acreditar na verdade. Até grandes líderes como Júlio César ou Alexandre, o Grande, não duvidaram em utilizar a mentira para atingir os seus fins, mas tiveram sempre a inteligência de não abusar dela. Hoje, a mentira tornou-se normal. Só que ela corrói a democracia, sobretudo através da sua aliada natural, a corrupção. Nestes tempos líquidos e pós-modernos ninguém se pode admirar porque quem decide dorme, enquanto há crianças doentes que dormem em camas improvisadas. Mas, um dia, demasiado tarde, acordarão.»

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