12.10.18

O fim da realidade



«Não é "1984" de George Orwell que define estes dias. Nem, talvez, o injustamente esquecido "Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. Embora uma frase deste anda ecoe: "A ditadura perfeita terá a aparência da democracia, uma prisão sem muros na qual os prisioneiros não sonharão sequer com a fuga. Um sistema de escravatura onde, graças ao consumo e ao divertimento, os escravos terão amor à sua escravidão." Talvez o mais visionário de todos, sobre este novo tempo, tivesse sido Philip K. Dick. Foi o desaparecimento da realidade que ele antecipou nestes tempos de Donald Trump, de Jair Bolsonaro, de Salvini, Órban ou Steve Bannon. Ou dessas figuras menores e vazias como André Ventura. Em que o caos destrói, sem remorsos, a pretensa ordem e o desarticulado contrato social no qual julgávamos viver. Muitos, nesta era de globalização económica e financeira, se espantam com o regresso das fronteiras estanques. Com os votos em Bolsonaro, arauto de um Brasil que quer ordem, porque todos necessitam de acreditar em algo. Não se percebe a admiração: se escutarmos música este é o tempo definido por George Clinton e os Parliament, com o seu álbum novo, "Medicaid Fraud Dogg" ou, se atentarmos à cultura, pelo significado do quadro de Bansky adquirido por 1.185.000 euros e que se autodestruiu segundos depois. Porquê a admiração? Alguém comprava um nome e não uma obra. De que serve a realidade nestes dias?

Nestes dias em que a democracia vive os seus piores momentos, e que o Estado do Bem-Estar se afunda no mal-estar das sociedades, em que os partidos tradicionais não vislumbram a mudança climática e dos costumes, os erros acumulam-se para conduzir à chegada de messias. A pobreza acumulada, o fim da classe média por causa da austeridade e do final da lógica de ascensor social, só poderiam conduzir a este beco com uma única saída: as ideias musculadas. A vitória de Bolsonaro que tanto escandalizou as almas castas entre nós é o fruto podre de uma sociedade perdida. É a crise da cultura, da ética e da verdade. É sobretudo o fim da palavra. Porque, como sucedeu nos EUA, deixou de se cumprir a democracia: não há debate de opiniões. Não se discutem ideias, programas. Tudo o que é importante discutir é tratado com leviandade ou com um grande cansaço. Afunila-se tudo: já não importa o conteúdo, mas sim o que se dizer como "slogan". Os factos deixaram de importar, porque já ninguém se importa em saber se eles são verdadeiros ou não. As redes sociais tornaram-se o laboratório destes dias: frases com ódio extremo devoram qualquer tentativa de uma discussão franca. Não há espaço para o debate, só para o ruído. Tudo é "heavy metal" ou "rap" do pior. No Brasil, o culpado não é Bolsonaro nem quem tem um projecto para "limpar" o Brasil: é também de todos os que, como Lula da Silva ou a inefável Dilma Rousseff (cuja arrogância é impossível esquecer quando visitou Portugal nas alturas da intervenção da troika), em vez de criarem uma aliança, julgaram poder vencer sozinhos o "tsunami" do "contra". Erraram e agora o Brasil está à beira do abismo. Mas, na Europa, não podemos sorrir: os mesmos erros estão a cometer-se aqui. A realidade, como anteviu Philip K. Dick, evaporou-se.»

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