1.7.19

Maldita ideologia



«Um dos momentos em que a ‘geringonça’ fez mais sentido foi quando o Governo conseguiu moralizar a relação do Estado com os colégios que tinham contratos de associação e exigiam continuar a receber subsídio estatal, mesmo existindo vagas nas escolas públicas ao lado. Não fez sentido por ser uma cruzada contra o sector privado, mas porque contrariava a ideia de que a esquerda não faz reformas para proteger os recursos públicos. A disputa não era apenas pragmática. Baseava-se numa divergência profunda: se o Estado deve ser prestador dos serviços públicos fundamentais ou apenas seu financiador. Não é por diletantismo que há milhões de páginas escritas sobre o tema. Quem acha que uma empresa e o Estado olham para um estudante ou para um doente de forma diferente tem uma posição, quem acha que o mercado é um bom critério de serviço público tem outra. Mesmo que depois, entre o preto e o branco, sobrevivam muitos cinzentos. Não é um fetiche ideológico. Molda as políticas públicas. E é por isso que as PPP são relevantes na Lei de Bases de Saúde.

Quem tem ideologia sem pragmatismo é dogmático, quem tem pragmatismo sem ideologia é oportunista. Sem balizas na ação, cede-se ao eleitoralismo e às pressões do mais forte. A ação política pretende responder a problemas concretos das pessoas, mas é a identidade ideológica que a condiciona a um conjunto de princípios políticos. Alguma coerência ideológica teria obrigado o Governo que fez o confronto em torno dos contratos de associação a debater seriamente as PPP na saúde. Teria feito com que a redução do preço dos passes sociais e das propinas para todos tivesse como consequência lógica o fim das taxas moderadoras nos centros de saúde. Que não se deixasse o SNS e os transportes públicos entrarem em colapso enquanto se acumula um excedente de 0,4%, muito acima das metas europeias. Não se pede descontrolo, só se pede que o brutal aumento da receita seja acompanhado por uma recuperação dos serviços públicos. E que depois de passar os anos da troika a sublinhar irracionalidade económica da austeridade não nos tentem vender o mesmo discurso quando se fala da urgente recuperação das funções do Estado. Ou, pelo menos, que não se reabilite o discurso de Passos Coelho, chegando ao cúmulo de se dizer que outros querem que o PS volte a levar o país à bancarrota. É um mea culpa socialista por 2011? Se sim, quer dizer que assumiram a narrativa de Passos Coelho sobre esse tempo, que o PS deve um pedido de desculpas ao país e que Costa não acreditava no que dizia há quatro anos. Se é só para ganhar votos à direita, o oportunismo eleitoral aproxima-se do suicídio moral.

BE e PCP podem e devem ser criticados por, muitas vezes, substituírem ideologia por sindicalismo, defesa do Estado social por defesa de grupos profissionais, confronto com os patrões por confronto com o Estado empregador. Também é por falta de consistência ideológica e eleitoralismo que o fazem. Mas a crítica mais comum é ao seu dogmatismo ideológico. Só que sem o contrapeso de esquerda que permitiu a Costa ser primeiro-ministro, sabemos o que teria sido a governação do PS. Com todos os seus “bloqueios”, prefiro o tempero ideológico da ‘geringonça’ ao pragmatismo que tantas vezes se confunde com falta de princípios políticos. O discurso de Carlos César teve a amabilidade de nos recordar o que era a arrogância socrática.»

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