2.4.20

Se é para enfiar dinheiro na TAP, que desta vez se renacionalize mesmo



«Mal tudo isto começou, a TAP mandou encerrar o seu call center. Fez bem, em nome da segurança dos trabalhadores. Mas não tratou de fazer, como tantas empresas e serviços com muito menos meios, a migração imediata para teletrabalho. Em plena crise, com milhares de passageiros a tentar regressar a casa e outros milhares a tentarem recuperar o dinheiro ou vouchers de viagens perdidas, a TAP ficou sem ligação telefónica para clientes.

A TAP vai colocar 90% dos seus trabalhadores em lay-off simplificado, um mecanismo criado para garantir o emprego e impedir despedimentos. Mas foi das primeiras empresas a dispensar pessoal, em plena crise, não renovando contratos e contrariando o espírito das medidas apresentadas pelo Estado. Ou seja, o abuso vem logo de uma empresa que tem o Estado como acionista. A administração preparava-se para distribuir prémios por administradores e trabalhadores de topo em ano de prejuízos colossais. Pelo menos isso teve a decência de suspender.

Não há forma de dizer isto com carinho: a Comissão Executiva liderada por Antonoaldo Neves e escolhida por David Neeleman é provavelmente a mais incompetente da história da companhia aérea. E se ela teve administrações incompetentes... Isso verifica-se na degradação da qualidade dos serviços, nos resultados comerciais e nos sucessivos danos reputacionais que os gestores foram provocando à empresa.

Um dia alguém contará a verdadeira história da privatização da companhia aérea portuguesa, feita na 25ª hora do governo de Passos Coelho a gente com má reputação no mercado. Assim como um dia se fará a história da tentativa de concessão dos transportes urbanos de Lisboa e do Porto. Não estamos a falar apenas de erros estratégicos por puro preconceito ideológico, como a privatização dos CTT, feita em bolsa e impedindo a existência de um acionista de referência. Nem o crime contra a soberania nacional, como as privatizações da REN e da ANA. Estamos a falar de histórias muito mal contadas que o jornalismo português ainda não se encarregou de vasculhar.

Mas não é apenas o governo de Passos Coelho que tem de nos dar explicações. A renacionalização parcial da TAP, feita pelo governo de António Costa, também foi uma farsa que ficou evidente aos primeiros desentendimentos entre o Estado e estes inenarráveis acionistas: o Estado mete dinheiro e não manda nada. Nem sequer é consultado. A renacionalização parcial da companhia aérea portuguesa nunca aconteceu. É uma fantasia. E confesso que cheguei, por uns dias, a acreditar nessa mentira.

Estou certo que, depois de todas as ajudas que dará como está a dar a outras empresas, o acionista Estado vai ser chamado a salvar a empresa nesta hora de crise profunda para todo o negócio aeroportuário. Todos os Estados vão, porque o discurso contra o Estado paternalista só serve para quando tudo está bem. É o discurso do adolescente, que quer uma liberdade radical para ir à festa mas dispensa-a na doença. Ainda vamos ver muitas coisas estranhas depois desta crise.

Todas as crises, mesmo as mais dramáticas, são uma oportunidade. E não têm de ser uma oportunidade apenas para os oportunistas. Podem ser para o Estado. Quando for chamado a injetar dinheiro na empresa, onde suspeito que o senhor Neeleman e os seus parceiros não vão querer enfiar um cêntimo, o Estado deve aproveitar para recuperar a maioria ou totalidade do capital e o controlo real da empresa. Gastando o mesmíssimo dinheiro que, de qualquer das formas, vai ter de desembolsar. Até porque, nos próximos anos de chumbo, vamos precisar de algumas empresas estratégicas. E podem esquecer as sacrossantas interdições europeias ao apoio público a empresas nacionais. Com o que aí vem, nenhum dos gigantes europeus o vai dispensar. Isto, se não formos todos suicidas. Ou se não voltar a vigorar a regra comunitária de que todos os Estados são iguais mas uns são mais iguais do que outros.»

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