10.11.22

Eu ocupo. Não ocupo porque quero, ocupo porque não tenho escolha

 


«Começaram na segunda-feira as ocupas das escolas e faculdades pelos membros da Greve Climática Estudantil. Em muitas faculdades e escolas secundárias, estudantes ocupam e lutam, em conjunto, por duas reivindicações principais: o fim aos combustíveis fósseis, a demissão imediata de António Costa e Silva, ministro da Economia e do Mar e, mais importante, ex-CEO da petrolífera Partex Oil and Gas.

Eu estou a ocupar. Sou aluna do Liceu Camões e ocupo a escola. Ocupo, juntamente com outros alunos e alunas. Todos nós estamos determinados em não desistir, em ocupar até sermos ouvidos.

Não ocupo porque quero. Não ocupo porque não gosto de ir às aulas. Não ocupo porque tenho alguma coisa contra a direcção. Não ocupo porque me apetece dormir no chão.

Ocupo porque não tenho escolha. Porque nenhum de nós se pode dar ao luxo de ficar confortavelmente em casa e ignorar a emergência que berra aos nossos ouvidos.

A emergência que berra no Paquistão, onde centenas morrem, porque escolhemos ignorar o problema. A emergência que berra na Índia, onde os pequenos agricultores sofrem com as alterações ao clima e onde os activistas são presos, porque escolhemos ignorar o problema. A emergência que berra na Etiópia, onde as temperaturas escaldantes enfraquecem, ainda mais, as crianças subnutridas, porque escolhemos ignorar o problema. E berra agora, na COP27, onde medidas e acordos insuficientes são aprovados, mais uma vez, porque escolhemos ignorar o problema.

Eu sei que o mundo não é a realidade europeia. Sei que não depende só de mim. Mas também sei, que pode começar em mim.

Tenho medo. Tenho medo de viver o dia de amanhã. E não sou a única. Não somos os únicos aterrorizados. Mas não deixamos que o medo nos imobilize. Não, pelo contrário.

Deixamos que ele não nos deixe desistir. Levamos o medo para a inquietação. Da inquietação para uma pequena revolta. De uma pequena revolta, para uma grande revolta. E é nesta revolta que criamos uma certeza: para mudar, temos que nos radicalizar.

No nosso primeiro dia de ocupação, as faixas, os megafones, as músicas de intervenção, as tendas e os sacos-cama encheram o pátio principal e toda a escola. Na primeira aula da manhã, dezenas de estudantes levantaram-se das suas cadeiras, saíram do espaço sagrado que é a sala de aula e percorreram os corredores. Percorreram os corredores, empenhando gritos de desespero: “Temos que lutar pelo nosso futuro!”, diziam. Esses mesmos estudantes, e tantos outros, juntaram-se, minutos mais tarde, junto ao portão principal, entoando e saltando juntos: “Oh sim! À transição! À transição! À transição!”. Com fogo na barriga e inquietação no coração, não foram as suas vozes cansadas, ou os sussurros contra, que os detiveram.

No segundo dia de ocupação, podemos dizer que, depois de uma noite mal dormida, de momentos de algum desalento, de reuniões com a direcção e plenários sentados no chão, nos sentimos cansados, ansiosos e um tanto confusos.

Mas não enfraquecemos, não desistimos. Não enfraquecemos e não desistimos, porque não podemos.

Lutamos pelo futuro de todos, com o fogo na barriga, que mantém a chama acesa. Lutamos pelo futuro de todos, de mãos dadas, lado a lado, com brilho nos olhos, e inquietação. Muita inquietação.»

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