17.2.23

Imigrante modelo precisa-se — Portugal

 


«Quando o líder do principal partido da oposição, Luís Montenegro, faz um apelo para voltarmos a percorrer o mundo, agora à procura do imigrante modelo, é irresistível ir ver quem é esse estrangeiro perfeito que nos vai valorizar o país. Parece que tem de vir para cá trabalhar e não passar tempo — o que é a própria definição da migração económica. Já quando refere estar na hora de consultar o catálogo dos imigrantes disponíveis para identificar os que conseguem interagir connosco sem perturbar a nossa identidade, a conversa tem ecos do programa do Chega em matéria de imigração. Traduzindo: venham daí estrangeiros, mas nada de gente muito diferente.

Esta música tende a acabar com uma nota, mais ou menos em surdina, para evitar tudo o que traga turbantes, tenha mais melanina do que nós ou comece a olhar-nos com os olhos mais em bico. Nada de começar 2023 a celebrar o nascimento de Aariz, filho de um casal de paquistaneses a viver na Amadora há três anos. A mãe bem pode rasgar um sorriso enquanto apresenta o rebento ao país, tapar assim o cabelo não augura nada de bom.

Em urdu, Aariz significa homem inteligente e respeitável. Pode ser que consiga explicar que a solução não está num qualquer “bom emigrante” abstrato, mas na criação de condições para integrar as pessoas concretas, sendo o trabalho a melhor forma de integração. A mãe do Aariz já integrou o contingente de mulheres de todas as nacionalidades que entram de madrugada em Lisboa para garantir a limpeza das casas e dos escritórios dos lisboetas. E é provável que a loja do marido seja a última salvação de quem sai tarde do trabalho e se esqueceu de comprar leite. Os pais do Aariz querem o mesmo que os pais do Martim, o bebé do ano em 2022: ter condições para criar uma família em Portugal. Se não as tiverem, vão à procura delas noutro lugar.

Quando aparecem imigrantes vindos de países mais pobres, há quem fique nervoso com a possibilidade de ver o seu emprego a desaparecer nas mãos de um nepalês que aceita trabalhar por tuta-e-meia. Se a ideia de importar gente parecida connosco raia a xenofobia, esta preocupação, típica dos mais desfavorecidos, é legítima. Mais vale responder-lhe do que deixar esse medo à solta a ser aproveitado para o pior. É explicar que a experiência demonstra que quem chega sem nada costuma ficar com os trabalhos deixados livres pelos nacionais.

Nos últimos tempos, os próprios portugueses mais ricos descobriram que são remediados ao lado dos estrangeiros endinheirados que invadiram o país — e estão a achar a situação muito desagradável. Desde que apareceram milionários americanos dispostos a pagar quantias absurdas por prédios no centro da cidade, pressentem que podem acabar emigrados nos subúrbios. E assistem, horrorizados, à descaracterização dos seus bairros, invadidos por hordas de nómadas digitais que levaram o merceeiro da esquina a entregar o negócio a uma loja finória onde só há queijos franceses a preços incomportáveis.

Troquem a defesa da identidade nacional pelos horrores da gentrificação e temos coisas parecidas — não queremos gente a mudar a forma como vivemos. O medo de perder o emprego ou receber um salário mais baixo não é assim tão diferente da angústia perante aumento dos custos para viver mais perto do Chiado — não queremos gente que nos faça concorrência. Com tantas condições, não há catálogo que nos valha; precisamos de um imigrante feito à medida. Depois, é convencê-lo a vir para cá — porque basta olhar para a curva demográfica para perceber que precisamos urgentemente de todos os que queiram vir.»

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1 comments:

António Alves Barros Lopes disse...

- Imigrante modelo... precisa-se???
O MOEDAS! O MOEDAS!
https://expresso.pt/politica/partidos/2023-02-14-Carlos-Moedas-responde-a-Marcelo-Eu-fui-emigrante-sou-casado-com-uma-imigrante-nao-aceito-licoes-de-ninguem-nesta-materia-6b2ca315