«Sem TAP não há hub em Lisboa. Sem hub em Lisboa o país perde a sua centralidade económica. Para a TAP dar a Lisboa o seu hub, é preciso uma política de rotas que tenha isso em conta. Não há caderno de encargos que o resolva. Isso é determinado por decisões operacionais diárias. Só o controlo público da empresa o pode garantir, quando temos concorrentes tão próximos e somos uma economia periférica.
O drama de termos um aeroporto a rebentar pelas costuras gerido por quem apenas o vê como uma máquina barata de fazer dinheiro é todas as oportunidades que perdemos, apesar da nossa centralidade na ligação entre a Europa e as Américas. E isso teve tudo a ver com a sua irresponsável privatização.
Por outro lado, a TAP precisa de crescer. E, para crescer, precisa de investimento (interdito aos Estados por uma União Europeia que trabalha para a concentração) e das ligações permitidas pelos grandes grupos de aviação. Desde que não tenham interesses conflituantes, como é o caso da Iberia, só temos a ganhar, no contexto atual, com a abertura a capital privado. Tirando as rotas com os PALOP e com as ilhas, a função da TAP não tem de ser de serviço público. É a de uma empresa estratégica para economia nacional que, apenas por isso, deve continuar a ter controlo nacional que, como aprendemos com a banca, só é possível através do controlo público.
Se me permitem fazer o papel de Cavaco Silva e recordar posições passadas, sempre defendi a solução de privatizar a minoria da empresa. Diziam os desatentos que era um delírio. Que ninguém queria comprar a TAP sem ter a maioria. Sabia-se que isso não era verdade. Para os principais interessados, entrar na TAP é impedir que outros comprem o seu principal valor: a posição dominante nas ligações entre a Europa e o Brasil.
Impedir que a Iberia fique com uma posição totalmente dominante nas ligações com a América Latina, por exemplo. O interesse é pôr o pé na porta e impedir que outros lá estejam.
A decisão de Luís Montenegro de privatizar 49,9% da TAP (devia ser menos, para salvaguardar a necessidade de futuras capitalizações sem perder a maioria) corresponde à posição de Pedro Nuno Santos, diferente da que foi defendida, depois da sua saída do Ministério, por Fernando Medina e António Costa, que queriam a privatização total ou perto disso. Uma posição meramente contabilística, habitual em ministros das Finanças ou candidatos a lugares europeus, dominados pelo défice e totalmente desinteressados na importância estratégica das empresas.
Depois do que aconteceu à nossa banca, à REN, aos CTT, à EDP, à PT e à ANA, parece não se ter aprendido nada. A sucessiva desnatação da economia de um país sem moeda própria e muito limitado na capacidade de impor políticas económicas tem sido a nossa tragédia. Só não digo que resulta de ingenuidade por saber que interesses poderosos gravitam em torno de todos os governos. Não sou eu ingénuo a esse ponto.
Mas se a decisão do governo parece correta, o diabo está nos pormenores. Já nem falo de ter ouvido o primeiro-ministro a depreciar publicamente a empresa que pretende vender e que dá lucro. As suas intervenções raramente ultrapassam os limites da pequena política, do cálculo eleitoral, com total falta de pensamento estratégico ou de interesse nacional. E nem perco tempo com a escolha para chairman de mais um do círculo de poder de Montenegro, Passos e Pinto Luz, sem qualquer experiência relevante neste ramo. É mais arroz.
O que me deixa perplexo (ou talvez não) é ver o fantasma de David Neeleman à frente. Não o próprio, mas a aberração que levou a todos os equívocos: o Estado mantém a maioria, mas é o privado que trata da gestão quotidiana. A minoria manda como se fosse maioritária, a maioria está fora como se fosse minoritária. Estas falsidades nunca podem correr bem. São os que gostam de dizer que o Estado é mau a gerir o que é seu que encontram estas soluções, em que quem paga não manda.
Como se gerem as rotas, garantindo os interesses nacionais e a defesa do hub, se não se está na gestão quotidiana? No limite, até pode acontecer que a TAP venha a ser gerida por acionistas detidos ou comandados por outros Estados, como acontece na EDP. É perante este “pormenor” que a minha convicção inicial de que Pinto Luz estaria a pensar bem e não iria vender a TAP ao desbarato, como fez em 2015, se esmoreceu. Está tudo na mesma.»

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