«Um dos mistérios nacionais dos últimos meses é o súbito desaparecimento do caso Spinumviva. A empresa familiar do primeiro-ministro — prestadora de serviços, sem trabalhadores e com sede na casa do próprio — continuava em plena faturação já com Montenegro a presidir ao Conselho de Ministros. O episódio precipitou uma crise política, provocou eleições e, entretanto, sem que as questões suscitadas fossem esclarecidas, como se diz em bom português, deu sumiço.
A explicação mais plausível para este mistério reside naquilo a que se costuma chamar “suspensão da descrença”. Expressão introduzida por Samuel Coleridge, que sugeria que os leitores, para aceitarem a verosimilhança de uma obra de ficção, deveriam voluntariamente suspender o julgamento crítico sobre os factos narrados. Estávamos no século XIX, em pleno Romantismo, e a emoção sobrepunha-se à razão. Hoje, continuamos a recorrer a esse dispositivo para vermos filmes, assistirmos a peças de teatro e lermos livros.
Talvez na política não seja muito diferente — de uma forma ou de outra, olhamos para a realidade com lentes emocionais, moldadas pelas nossas predisposições ideológicas. Contudo, neste caso, julgo que a “suspensão da descrença” opera também de outra forma: perante um contexto exigente, que aparenta não deixar alternativas, prefere-se coletivamente esquecer que temos, de facto, um primeiro-ministro eticamente inviável. O PSD, aliás, teve uma janela de oportunidade para, com a mesma maioria parlamentar, substituir o chefe de Governo. Escolheu não o fazer.
É um facto que decorre um inquérito promovido pelo Ministério Público, no âmbito da insólita figura da “averiguação preventiva”, sobre o qual pouco se sabe. Mas uma coisa é o trabalho da justiça; outra, distinta, é a avaliação política que se pode — e deve — fazer. E quanto a isso, as oposições ajudaram Montenegro: em vez de obrigar o primeiro-ministro a continuar a responder a questões (como vinha sucedendo), enveredaram por uma comissão parlamentar de inquérito — uma via que estimula a promiscuidade entre escrutínio político e judicial. Montenegro não deixou escapar a oportunidade e promoveu um referendo a si próprio, como se o que está em causa fosse referendável.
Inspirado pelo nome em latim da empresa, para além do romântico Coleridge, recorro também a um grande pensador da Antiguidade Clássica: Cícero. É dele a história do cortesão Dâmocles, a quem foi concedida a possibilidade de ser rei por um dia, mas com uma espada afiada sobre a cabeça, presa apenas por um fio de crina de cavalo. Este episódio sobre a precariedade do poder serve para revelar que as circunstâncias de Montenegro não são distintas das de Dâmocles, só que sobre a sua cabeça não paira a espada do rei Dionísio, mas a Spinumviva.
Montenegro pode acreditar que o reforço eleitoral e o estado pré-comatoso do PS lhe dão alguma folga; que a remodelação do executivo lhe concede iniciativa; que o interregno presidencial o protege constitucionalmente; ou, até, que o impulso para cavalgar os temas do Chega lhe permite marcar a agenda. A verdade é que o primeiro-ministro vive sob uma ameaça que se pode concretizar a qualquer momento. Dê-se as voltas que se der, persistem demasiadas perguntas sem resposta sobre o universo empresarial de Montenegro — perguntas que regressarão a galope. Porventura, só quando for oportuno. Entretanto, o país limita-se a adiar um problema eticamente incontornável.
Já agora, o ponto de Cícero no episódio de Dâmocles era ilustrar que a verdadeira felicidade não está no exercício do poder, mas na virtude e na paz interior.»

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