11.9.25

A esquerda, as presidenciais e a perigosa caminhada para a derrota

 


«O cenário das eleições presidenciais começa a consolidar-se e não traz boas notícias para a esquerda. Apesar da multiplicação de candidatos à direita – Marques Mendes, o provável candidato da IL, a provável candidatura de Ventura e ainda Gouveia e Melo, que aí se colocou desde o lançamento oficial da sua candidatura – Seguro não parece beneficiar da queda do almirante e da sua posição solitária no centro-esquerda. Pelo contrário, a sua solidão reduz este espaço a uma insignificância desproporcionada.

A esquerda acabou de passar pela maior derrota da história democrática portuguesa. Essa derrota tem efeitos profundos e perigosos. Como se tem visto, inclina o debate perigosamente para a direita em questões sensíveis como a imigração e deixa o governo totalmente solto para propor impensáveis contrarreformas laborais, sem temer as reações no seu flanco esquerdo.

Uma candidatura de esquerda deve mobilizar grande parte dos eleitores deste espaço, criando uma força que contamine o debate presidencial, impedindo que estas eleições não só confirmem a viragem à direita, como a reforcem perigosamente. Para isto, a função de um candidato não é puxar os eleitores de esquerda para a direita, o que apenas reforça este risco, é dizer o que deixou de ser dito e que continua a ter muitos partidários. O País não mudou, nas suas convicções mais profundas, tão radicalmente desde que o PS teve maioria absoluta. É o silêncio derrotado de parte do país que está a tornar hegemónico o que era marginal.

Por outro lado, uma candidatura à esquerda deve ambicionar disputar a segunda volta, que continua em aberto, percebendo a relevância do próximo mandato presidencial, quando a direita tem dois terços do parlamento e as duas regiões autónomas. Nunca a necessidade de pôr os ovos nos dois cestos foi tão evidente, perante o poder quase absoluto da direita. Um governo, uma maioria de dois terços e um Presidente podem criar as condições para um retrocesso irreversível.

O risco é acontecer à esquerda portuguesa o que aconteceu à italiana. Dissolvida no centro-direita, não tem representação institucional autónoma, apesar de existir na sociedade, em movimentos sociais, sindicais e culturais. Não deixou apenas de contar, deixou de querer contar.

Não é por qualquer embirração pessoalizada que considero que António José Seguro, o homem que se rendeu à direita no momento historicamente mais difícil da nossa democracia constitucional (em 2011) e que mostra repetir a incapacidade de ser claro e marcante em todos os temas difíceis, um mau candidato. São as próprias sondagens que mostram que Seguro reduz o espaço da esquerda.

Falar de divisionismo perante um candidato que, mesmo sozinho, não consegue animar o que deveria ser o núcleo duro do seu eleitorado natural é absurdo. As candidaturas de António Filipe e Catarina Martins são a inevitável consequência de um candidato que (legitimamente) se impôs, apesar de saber que nem a totalidade do minguado eleitorado do PS conseguiria atrair. Mas é óbvio que não resolvem o problema.

A verdade é que nem perante a colagem do PSD ao Chega, a perda de gás de Gouveia e Melo, a fragmentação da direita e a evidência de que Seguro não consegue aproveitar nada disto algum independente deu o passo em frente. Não foi por falta de tentativa de muita gente. Foi porque a esquerda está deprimida e o tipo de candidato que teria de avançar não é aquele que espera ser empurrado, mas o que mobiliza os que se sentem derrotados.

E porque a política é cada vez mais repulsiva para pessoas independentes e livres, que não querem ver-se arrastadas na lama. Sobretudo para os que fiquem no alvo da extrema-direita, que domina essa forma de fazer política. Sobram os que já cá estavam, já viram a sua vida virada do avesso e nada têm a perder. Este é um momento difícil para a esquerda, em que só avançam os corajosos. Escasseiam os que acumulem essa coragem com capacidade de mobilizar o voto. Apesar de serem mais precisos do que nunca.»


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