22.9.25

A maria-vai-com-as-outras reconheceu a Palestina. Não chega

 


«As condições apresentadas pelo governo português, no início de agosto, para este reconhecimento foram uma piada de mau gosto. Porque eram exigidas a uma Autoridade Palestiniana sistemática e deliberadamente destruída por Israel. Porque incluíam decisões que dependem do Hamas (a libertação dos reféns), dando-lhe uma legitimidade institucional que não podem ter. Porque dependiam do fim da ofensiva de Israel (desmilitarização de Gaza e eleições no território), que não tem qualquer interesse neste reconhecimento. E porque eram assimétricas (reconhecimento do Estado de Israel sem que a inversa seja necessária ou sequer previsível). Mas, não se tendo verificado nenhuma delas, Portugal avança, na mesma, para este reconhecimento.

Diria que mais vale tarde do que nunca, mas não estaria a ser justo. Portugal não reconheceu propriamente o Estado da Palestina. Limitou-se a seguir a tradição da sua política externa, seja qual for o governo ou regime: evitar até ao limite ter uma política externa. Reconheceu porque a França e o Reino Unido reconheceram e ficar só com a posição abjeta da Alemanha seria demasiado próximo de ter uma posição.

Houve um tempo em que celebraria este passo tardio, que retira vários países europeus do degredo minoritário em que se encontravam. Hoje, temo que seja o preço do silêncio. Temo que o gesto simbólico sirva para, cedendo à pressão da opinião pública, evitar outros mais concretos.

Apesar do assassinato sistemático de jornalistas (mais de 200 trabalhadores dos média), do cerco militar e político às organizações internacionais independentes, temos dados mais do que suficientes para saber que, diante dos nossos olhos, acontece um genocídio. Confirmado por um consenso alargado de estudiosos. Como ouvi, numa uma sessão bastante transversal, na última sexta-feira, de Bruno Maçães, a chamada "comunidade internacional" não pode dizer, como noutras circunstâncias, que não tinha todos os dados. É um genocídio e, em qualquer outro caso, um negacionista seria tratado como um pária desmerecedor de qualquer respeito intelectual e político.

O genocídio não acontece com o silêncio, mas com a cumplicidade da Europa (responsável por cerca de um terço das exportações e importações de Israel), que trava sanções que não sejam apenas simbólicas (até onde vai a hipocrisia quando se aplicam a ministros ou a colonos apoiados pelas IDF, e não a um governo ou a um Estado) e, em alguns casos, mantém ativa a venda de armas que matam crianças palestinianas.

O cinismo sádico que leva o ministro das Finanças de Israel, Bezalel Smotrich, a dizer, no meio de risos, ter um "plano de negócios" para transformar Gaza numa "fortuna imobiliária" para financiar os custos da matança não vem do ar de Israel. Vem do ar deste tempo. Por isso, ser complacente com o genocídio não é apenas uma questão de política externa. A cultura política que o justifica e celebra é uma doença que passa fronteiras. E o que vemos, em democracias como a alemã, mas também a britânica, é o silenciamento por vezes violento das vozes que se erguem em defesa de valores que dizem ser os nossos.

Nos Estados Unidos, a perseguição do Estado e do governo à liberdade de opinião, sobretudo nas universidades, não veio com o assassinato de Charlie Kirk. Está à solta desde que começou o genocídio em Gaza. Na Alemanha e no Reino Unido, perseguem-se movimentos, reprimem-se manifestações de solidariedade à Palestina. Quanto maior a desfaçatez do governo de Israel, maior a violência contra as vozes que, nos países aliados, exigem mais do que simbolismo.

Uma parte da esquerda e demasiada direita acham que podem ficar no lugar onde estavam, quando endossavam, com argumentos racistas que justificam o abuso com uma pretensa superioridade cultural e civilizacional (os que sempre foram usados pelo colonialismo), a ocupação de territórios palestinianos, a violência sistemática, quotidiana e organizada contra um povo, e a inviabilização de dois Estados. Porque Israel está cercado de inimigos, dizem para justificar o sofrimento de um povo que vive há décadas cercado de muros. Esse lugar, que há muito já lhes devia ser desconfortável, deixou de existir.

Não se é moderado a travar um genocídio. Não se chama "amigo" a quem o comete. Não se põem condições às suas vítimas para o travar – o reconhecimento do Estado palestiniano destruído em toda a sua capacidade política, vindo com condições, é uma piada de mau gosto. Isso trata-se depois. Agora, trava-se o crime. Os genocidas tratam-se com determinação. Para depois os punir. Tudo o resto é cumplicidade.»


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