«Depois de meses a reviver o drama crónico das urgências de obstetrícia (não é possível transferi-las do SNS para o privado, solução de todos os problemas para este governo), a ministra da Saúde anunciou que as urgências de obstetrícia do Hospital Garcia de Orta passariam a estar abertas todo o ano, a partir de setembro, resolvendo assim os dramas de tantas grávidas da Margem Sul do Tejo. Um compromisso politicamente relevante quando se sabe que este é o tema que levou a popular ministra Marta Temido a demitir-se.
O anúncio veio, em julho, numa entrevista na SIC Notícias: estão a ver aqueles médicos que saem do SNS para o privado, porque até como tarefeiros são mais bem tratados? Ana Paula Martins tinha conseguido que uma equipa de sete obstetras e ginecologistas se desvinculasse de um hospital privado onde trabalhava para ir para o hospital de Almada.
Na semana passada, segundo fim de semana do mês de setembro, todas as urgências de obstetrícia da Margem Sul do Tejo estavam encerradas. De novo. Razão? Falta de tarefeiros. Os sete médicos contratados afinal não existiam. Esperámos que a ministra aparecesse a dar explicações. E apareceu. Disse que a culpa era das suas equipas, que a tinham enganado. Estaria a falar de Pedro Azevedo, o jovem médico sem experiência em gestão hospitalar mas cartão de militante do PSD de Almada que entrou na limpeza partidária levada a cabo por Ana Paula Martins nas administrações hospitalares com a função geral de ser para-raios da ministra. A culpa nunca é dela. Ou é dos seus antecessores, ou dos seus subalternos.
O discurso, feito há uma semana, foi desconcertante: “É muito penalizador para mim ter assumido politicamente uma solução que me foi garantida e vê-la desfeita sem sequer compreender porquê. (...) Fi-lo porque acreditei no plano que me foi apresentado e porque aprendi a confiar nas equipas com quem trabalho. (...) Aprendi que nada nos garante que aquilo que nos garantem que vai acontecer acontece.”
Como começa a ser um estranho hábito nesta nova AD, dos ministros aos autarcas, a vítima das falhas do Estado não é o governado, é o governante. Muito penalizador para a ministra, isto de não haver urgências de obstetrícia. Não queiram as grávidas passar pelas aflições de Ana Paula Martins. Apesar de terem traído a sua confiança, de tal forma que teve de o denunciar ao País, a ministra não anunciou a demissão de ninguém das suas equipas. Nem a sua, apesar de reiteradamente nomear pessoas que deixam ficar mal a sua indiscutível competência.
Ana Paula Martins preferiu passar logo para a polémica seguinte, entrando em guerra com os médicos. Não sei se a ministra tem razão na proposta de obrigar os médicos do Barreiro a irem fazer uma perninha ao Garcia de Orta. Já foi feito por Pizarro, que tentou enviar os obstetras de Santa Maria (por razões um pouco mais compreensíveis, já que o bloco de partos estava em obras) para São Francisco Xavier. Houve várias demissões e a saída de seis médicos. À confusão não terá sido estranha a então pouco diplomata administradora do hospital. Uma tal Ana Paula Martins. Sei que uma ministra que, ao longo de dois anos, nunca assumiu qualquer responsabilidade pelo seu mandato desastroso, atirando sempre as culpas para baixo ou para trás, não lidera coisa alguma. E que um governante irresponsável (no sentido literal do termo) nada pode exigir aos que dirige.
Ana Paula Martins não devia ser ministra desde as últimas eleições. Só o é porque a oposição é liderada por um partido inconsequente e outro deprimido. O primeiro está sempre aos gritos, levando o governo a trabalhar na aparência das coisas. O segundo está sempre a sussurrar, levando o governo a ignorá-lo. A má oposição faz o mau governo, sempre se disse. Nunca foi tão evidente.
Quanto à grande prioridade da ministra, que é o dano à sua própria carreira política, podemos estar descansados. Por pior que seja a revisão da lei laboral proposta pela sua colega Maria Rosário Ramalho, o emprego de Ana Paula Martins está seguro. Para os ministros deste governo, nem o despedimento por justa causa é aceitável. Evidentemente, nunca se demitem.»

0 comments:
Enviar um comentário