12.9.25

Quando o ridículo deixa de matar

 


«Nos momentos em que não ocupa um estúdio televisivo, dando asas ao controlo sobre o meio, conduzindo entrevistas perante o pasmo dos entrevistadores, pontuando o discurso com falsidades, e exibindo toda a sua vulgaridade, André Ventura passeia-se pelas redes sociais. O verbo é adequado. Ontem, irrompeu ufano num daqueles vídeos peripatéticos (no sentido aristotélico da expressão) que, enquanto abanam os ecrãs ao ritmo dos passos, alegadamente fazem maravilhas quanto ao alcance. O que nos disse desta feita o doutor André Ventura, PhD, caminhando pelos passos perdidos?

Enquanto nos fita olhos nos olhos, num close-up que confere intimidade à relação, interpela-nos, criando suspense: "Sabem o que é que o Parlamento português aprovou hoje?" Confesso, desconhecia, e fiquei interessado. "Uma deslocação do Presidente da República." Segue-se uma pausa dramatico-irónica acompanhada de interjeição: "Eh pá, eu tenho de olhar para isto para ter a certeza." Depois de ter olhado e ficado sem dúvidas, acrescenta Ventura: "Para ir com os nossos impostos, com o nosso dinheiro, à Alemanha, a um Bürgerfest, a um festival de hambúrgueres."

Esclarecimento: o Presidente da República desloca-se à Alemanha, a convite do homólogo, a uma Festa dos Cidadãos, que se realiza anualmente nos jardins da residência oficial do Presidente Federal, para honrar o trabalho voluntário e promover o envolvimento cívico. Portugal é o país convidado este ano e estão envolvidas nas atividades várias ONG portuguesas.

É surpreendente que nenhum dos 60 deputados do Chega (e a resma de assessores que os acompanha, "pagos com os nossos impostos") tenha tido o cuidado de googlar o que estava em causa, antes de chumbar a autorização para Marcelo Rebelo de Sousa se deslocar à Alemanha. Desde 1 de setembro, toda a informação está disponível no site da nossa embaixada em Berlim. Conclusão: a bancada parlamentar do Chega vota às cegas.

Há, contudo, uma atenuante. O projeto de resolução tinha um erro que pode ter traído os deputados. O termo Bürgerfest surge grafado sem trema, aproximando-se perigosamente de hamburger. Este equívoco inadmissível será responsabilidade política do presidente da Assembleia ou lamentável erro técnico dos serviços? Para já, não sabemos, mas talvez uma Comissão Parlamentar de Inquérito se possa dedicar à questão, apurando a verdade "doa a quem doer".

Se burger — sem trema — pode remeter para o universo lúgubre da fast-food norte-americana, também aqui há atenuantes. O nome dos populares hambúrgueres, que a hegemonia cultural estado-unidense levou ao mundo, não radica no termo inglês ham, mas num tipo de bife picado levado da cidade de Hamburgo, na Alemanha, para o Novo Mundo. Já bürger tem origem alemã, também se propagou e, entre nós, deu origem a burgo ou burguês — bastariam conhecimentos rudimentares de "marxismo cultural" para se estar ciente disto.

No passado, dizia-se que o ridículo matava. A expressão tem origem num tempo em que a exposição pública ao ridículo funcionava como um mecanismo de controlo social extremamente eficaz. Em sociedades baseadas na honra e na reputação, ser ridicularizado publicamente levava à perda de estatuto social e à exclusão dos círculos de poder. Vivemos hoje um tempo diferente, em que a vergonha deixou de ser um instrumento de regulação social.

Quando terminei este texto, o vídeo tinha sido apagado. A Internet não esquece e, afinal, talvez o ridículo ainda seja capaz de ferir. Mesmo que pouco.


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