«Quem ainda não tinha percebido o significado profundo da grande vitória da direita em Maio percebeu agora com as reacções generalizadas à flotilha que Mariana Mortágua e mais três portugueses integraram.
Se havia dúvidas sobre o país que somos hoje, basta dar um salto às redes sociais, ouvir os comentadores, incluindo do PS, e assistir à fúria que uma missão humanitária provocou. Este ambiente político não existia antes de a direita valer dois terços dos votos dos portugueses.
O ódio à flotilha vem de todos os lados, mesmo de quem chama a Netanyahu “fascista” e admite que Israel está a cometer genocídio.
O Bloco de Esquerda é hoje um partido totalmente irrelevante na sociedade portuguesa que só elegeu um deputado. Suscita tanta fúria porquê? Ou é Mariana Mortágua?
Os argumentos contra Mortágua vão desde “porque não foi para o Sudão” ou “para a Ucrânia” a “está a perturbar o processo de paz em curso”. Não sabia que Mortágua tinha tanta influência na resolução de conflitos, mas este ódio é um sintoma da degradação do espaço público.
Todas estas iniciativas são sempre políticas. Desde quando um acto ser “político” ou “ideológico” passou a ser crime de lesa-pátria? Odeiam Mariana Mortágua por causa do “imposto Mortágua”? Uma péssima notícia para quem ainda não deu por isso: o Governo de direita não acabou com “o imposto Mortágua”. Está em vigor, a menos que o Orçamento agora aprovado em Conselho de Ministros venha a aprovar a sua extinção.
Se a posição da direita, agora maioritária, pode não espantar ninguém (apesar de o Governo ter agora reconhecido o Estado palestiniano, historicamente quase toda a direita é aliada cega das actividades levadas a cabo pelas forças armadas israelitas), o caso da flotilha serviu para perceber como o secretário-geral do PS está perdido, sem rumo e tem só um objectivo neste momento: durar.
Se os ventos são agora desfavoráveis à esquerda, a direcção do PS parece achar que é o “parecer mais de direita” que fará com que o povo um dia o volte a agraciar com bênçãos.
O silêncio de José Luís Carneiro sobre a flotilha e a detenção de Mariana Mortágua e os outros portugueses em Israel — onde o ministro Ben-Gvir foi humilhar os participantes da flotilha acusando-os de ser “terroristas” — tem sido revelador deste medo que percorre algum PS.
Duvido que se o deputado em causa fosse André Ventura (detido na Venezuela, por exemplo, se lá fosse manifestar solidariedade com os presos políticos do regime) não houvesse uma palavrinha de solidariedade não só do PS como dos outros actores políticos em geral.
O incómodo de José Luís Carneiro voltou a ser sentido este domingo quando novamente fugiu às perguntas sobre o assunto, agora sobre a manifestação pela libertação dos portugueses e a mensagem de Ferro Rodrigues. Para Carneiro, “a actualidade política são as autárquicas” e não leu a mensagem de Ferro Rodrigues.
Para que o PS não saísse totalmente envergonhado deste episódio, perante o qual parte dos seus (ainda) eleitores se sentem perplexos, felizmente houve a mensagem de Ferro Rodrigues.
Ferro fez uma crítica dura à posição do líder do CDS e ministro da Defesa — que acusou os participantes da flotilha de “serem apoiantes de terroristas” — de ter “enorme gravidade e irresponsabilidade” e lembrou “o tratamento degradante que o ministro da Segurança Nacional de Israel, Ben-Gvir, lhes deu, filmando-os ajoelhados e chamando-lhes terroristas e apoiantes de assassinos”.
Se tivesse sido André Ventura a enviar à família uma mensagem de que estava há 48 horas sem comida nem água, nos centros de detenção da Venezuela, com um ministro a humilhá-lo, a compaixão seria imensa neste país político. Todos os líderes se acotovelariam para manifestar sentida e penhoradamente a sua solidariedade e a exigir a libertação.
Mariana Mortágua, por estes dias, não é pop. Já foi, no tempo em que o Bloco valia 10% e permitiu a José Luís Carneiro tornar-se pela primeira vez governante. Infelizmente, além de Pedro Nuno Santos, que veio condenar os insultos a Mortágua que enchem as redes sociais e não só, praticamente só uma outra voz de decência se fez ouvir: a de Francisco Rodrigues dos Santos, ex-líder do CDS, que não partilha uma única ideia política com Mortágua. “Chicão” disse na CNN sentir-se “revoltado” com quem “achincalha um conjunto de portugueses que teve a coragem de se opor a um genocídio”.
Não sei se o PS acha que tem mais votos nas autárquicas com este posicionamento. Pode sair-lhe o tiro ao lado.»

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