«As circunstâncias políticas mudaram depois das legislativas. Não tanto porque o PSD tenha tido o crescimento eleitoral que ambicionava (muito por força do travão Spinumviva), mas porque a maioria de direita se tornou incontornável. Mesmo com um resultado curto, hoje, sozinho, o PSD tem mais deputados do que o conjunto da esquerda. Com esta libertação do PSD, só mesmo uma combinação excêntrica de ingenuidade temperamental com otimismo antropológico poderia levar a acreditar num espaço de compromisso ao centro, em torno de soluções moderadas.
Vivemos irremediavelmente num outro tempo, como ficou demonstrado pela encenação em público de uma divergência inultrapassável entre Governo e Chega a propósito da revisão da Lei dos Estrangeiros. Na hora da verdade, confirmou-se que o parceiro preferencial do Governo é um. Bem pode o PS oferecer-se para dançar o tango: ficará sempre posto de lado, a assistir à dança a dois entre Montenegro e Ventura.
O risco sistémico associado a esta nova dupla é sério. Por um lado, corresponde a uma rota de afastamento de um chão comum baseado no humanismo que provocará réplicas, precisamente onde isso não deveria acontecer: nas matérias societais e de direitos fundamentais. Por outro, traduz-se numa degradação do espaço público. Sempre que se negoceia com o Chega avança-se na normalização do comportamento grotesco dos seus deputados, alimentando uma onda de vulgaridade e tolerando a indecência como modo de atuação política. Reparem como Montenegro já fala de “bandalheira” a propósito de imigração, no que é um reflexo de um movimento indomável de “venturização” dos espíritos e comprova a escolha de um parceiro preferencial.
Esta nova realidade obriga a repensar o posicionamento estratégico da esquerda, em particular do PS. Sempre que o Chega cresce nas sondagens, gerando radicalização e polarização, e o PSD vai atrás dos cantos de sereia do populismo, iludido que é assim que ele é contido, aumenta a necessidade de uma resposta firme que assuma com coragem um espaço de demarcação.
Por paradoxal que possa parecer, as políticas de imigração são um território onde é possível uma afirmação distintiva, assente em princípios dignos e na razoabilidade económica. Tem custos? Tem, mas corresponderá a uma posição corajosa, com retorno político no médio prazo. Já ficar numa terra de ninguém acabará sempre em capitulação.
Um recuo da imigração é uma ameaça ao crescimento da nossa economia, coloca em risco, por exemplo, uma política de habitação assente no aumento da oferta (onde está a mão de obra disponível para a construção civil?), e ameaça a sustentabilidade do nosso Estado social (os imigrantes são contribuintes líquidos para a segurança social e os serviços sociais, seja na saúde, seja na resposta na velhice ou na primeira infância dependem, em importante medida, do trabalho de imigrantes).
A imigração encerra tensões e dilemas? Claro que sim, mas tem de existir uma perspetiva diferente para lidar com o tema: que centre o esforço na criação de condições para a integração, que se preocupe com a expansão das respostas sociais para acomodar fluxos que são necessários e que não veja no trabalho imigrante um mecanismo de dumping social ou uma forma de potenciar setores económicos marcados pela precariedade e pela baixíssima produtividade. Até porque persiste uma maioria que repudia o flirt permanente entre PSD e Chega, animado por uns arrufos pensados para distrair os incautos.»

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