«Há um LP muito velhinho do Chico Buarque chamado Almanaque. Na canção que dá nome ao álbum, que nunca esteve entre as mais populares de Chico, um sujeito pede a uma “menina” que vá ver num almanaque várias coisas, entre as quais “como termina um grande amor”. O sujeito tem duas alternativas: quer saber se é “como chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair no elevador”?
O povo termina relações com os políticos de várias maneiras. Às vezes devagarinho, outras vezes o fim é precipitado por acontecimentos súbitos. Regra geral, é uma mistura, mas os acontecimentos súbitos já provaram ter influência no resultado das eleições.
Quando Cavaco Silva proibiu o feriado da terça-feira de Carnaval em 1993, a desobediência civil que se lhe seguiu mostrou que tinha existido um corte dos portugueses com o primeiro-ministro. Aqui foi um “cair do elevador”, porque dois anos antes Cavaco Silva tinha ganhado sem problemas a segunda maioria absoluta.
Se Carlos Moedas perder estas eleições para a Câmara de Lisboa é por cair do elevador. A reportagem da RTP, que revelou que a Câmara de Lisboa não contactou famílias de algumas vítimas da tragédia do elevador da Glória, ao contrário do que Moedas foi insistentemente dizendo, agrava o problema de credibilidade do presidente da Câmara.
Alexandra Leitão acusou Moedas de “mentir”. Em Benfica, numa acção de campanha, disse que a reportagem da RTP punha “em causa a postura” de Moedas “para o cargo de presidente da Câmara”. Carlos Moedas repetiu o que tem dito desde o início, que “o PS está a partidarizar e a politizar a tragédia”. Insiste que “a Câmara não falhará nem falhou nessa ajuda” às famílias.
Mas Carlos Moedas recusou-se a falar de casos específicos. Não conseguiu responder aos testemunhos divulgados pela RTP, que acusavam o silêncio da câmara. E escudou-se numa argumentação simplória — “As pessoas estão de luto”.
Carlos Moedas pode estar a contribuir para o fim daquilo que o uniu durante quatro anos aos lisboetas. Desde o início que não conseguiu lidar com a tragédia do Elevador da Glória. Desde o ter-se abrigado no regaço de um conselho de ministros em vez de reunir a Câmara logo a seguir à tragédia, até atirar a reunião sobre os relatórios do acidente para depois das autárquicas, tudo em Moedas revelou medo das consequências. Não é pelo facto de se gritar muito alto que se tem a “consciência tranquila” que os eleitores percebem que a consciência está tranquila. Ninguém percebe porque Carlos Moedas agiu assim. O não contactar a família das vítimas (o Expresso revelou que a Câmara afirmou ter contactado as famílias que se lhe dirigiram, ao contrário do que tinha dito o presidente) não é um trunfo eleitoral.»

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