5.10.25

Carlos Moedas a cair do elevador

 


«Há um LP muito velhinho do Chico Buarque chamado Almanaque. Na canção que dá nome ao álbum, que nunca esteve entre as mais populares de Chico, um sujeito pede a uma “menina” que vá ver num almanaque várias coisas, entre as quais “como termina um grande amor”. O sujeito tem duas alternativas: quer saber se é “como chover o ano inteiro chuva fina ou se é como cair no elevador”?

O povo termina relações com os políticos de várias maneiras. Às vezes devagarinho, outras vezes o fim é precipitado por acontecimentos súbitos. Regra geral, é uma mistura, mas os acontecimentos súbitos já provaram ter influência no resultado das eleições.

Quando Cavaco Silva proibiu o feriado da terça-feira de Carnaval em 1993, a desobediência civil que se lhe seguiu mostrou que tinha existido um corte dos portugueses com o primeiro-ministro. Aqui foi um “cair do elevador”, porque dois anos antes Cavaco Silva tinha ganhado sem problemas a segunda maioria absoluta.

Se Carlos Moedas perder estas eleições para a Câmara de Lisboa é por cair do elevador. A reportagem da RTP, que revelou que a Câmara de Lisboa não contactou famílias de algumas vítimas da tragédia do elevador da Glória, ao contrário do que Moedas foi insistentemente dizendo, agrava o problema de credibilidade do presidente da Câmara.

Alexandra Leitão acusou Moedas de “mentir”. Em Benfica, numa acção de campanha, disse que a reportagem da RTP punha “em causa a postura” de Moedas “para o cargo de presidente da Câmara”. Carlos Moedas repetiu o que tem dito desde o início, que “o PS está a partidarizar e a politizar a tragédia”. Insiste que “a Câmara não falhará nem falhou nessa ajuda” às famílias.

Mas Carlos Moedas recusou-se a falar de casos específicos. Não conseguiu responder aos testemunhos divulgados pela RTP, que acusavam o silêncio da câmara. E escudou-se numa argumentação simplória — “As pessoas estão de luto”.

Carlos Moedas pode estar a contribuir para o fim daquilo que o uniu durante quatro anos aos lisboetas. Desde o início que não conseguiu lidar com a tragédia do Elevador da Glória. Desde o ter-se abrigado no regaço de um conselho de ministros em vez de reunir a Câmara logo a seguir à tragédia, até atirar a reunião sobre os relatórios do acidente para depois das autárquicas, tudo em Moedas revelou medo das consequências. Não é pelo facto de se gritar muito alto que se tem a “consciência tranquila” que os eleitores percebem que a consciência está tranquila. Ninguém percebe porque Carlos Moedas agiu assim. O não contactar a família das vítimas (o Expresso revelou que a Câmara afirmou ter contactado as famílias que se lhe dirigiram, ao contrário do que tinha dito o presidente) não é um trunfo eleitoral.»


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