
13.1.10
Do essencial

Isto é que é a colaboração estratégica em todo o esplendor de Portugal! Tudo o resto é uma ninharia sem qualquer espécie de importância.
«O que há de comum entre Cavaco Silva e Jorge Sampaio, Vasco Graça Moura e Vasco Lourenço, Alberto João Jardim e Edite Estrela, Ilda Figueiredo e Diogo Feio, Lobo Antunes e Saramago, Joana Amaral Dias e Jorge Jesus, Manuel Alegre e Manuel Cajuda, Paula Teixeira da Cruz e Paulinho Cascavel, Ana Gomes e Szabolcs Fazakas (seja lá ele quem for), o apocalíptico Medina Carreira e o integrado Mesquita Machado?
A resposta é que todos eles, independentemente do que os separa, estão unidos no essencial: que é preciso, imperioso e urgente introduzir novas tecnologias no futebol "para melhorar o desempenho das equipas de arbitragem". Para isso, puseram de parte agravos e diferenças, queixas e desavenças, desemprego e dívida pública, e subscreveram uma petição à AR para que legisle nesse sentido. De seguida, tudo o indica, marcharão sobre Zurique de "Diário da República" na mão, pondo cerco ao International Board e defenestrando Joseph Blatter caso a FIFA não dê cumprimento à decisão da AR. Era provavelmente a isso que Cavaco se referia quando, na recente mensagem de Ano Novo, falava em "situação explosiva".»
Manuel António Pina, no JN de hoje (na íntegra, porque o link deixará de funcionar amanhã).
«O que há de comum entre Cavaco Silva e Jorge Sampaio, Vasco Graça Moura e Vasco Lourenço, Alberto João Jardim e Edite Estrela, Ilda Figueiredo e Diogo Feio, Lobo Antunes e Saramago, Joana Amaral Dias e Jorge Jesus, Manuel Alegre e Manuel Cajuda, Paula Teixeira da Cruz e Paulinho Cascavel, Ana Gomes e Szabolcs Fazakas (seja lá ele quem for), o apocalíptico Medina Carreira e o integrado Mesquita Machado?
A resposta é que todos eles, independentemente do que os separa, estão unidos no essencial: que é preciso, imperioso e urgente introduzir novas tecnologias no futebol "para melhorar o desempenho das equipas de arbitragem". Para isso, puseram de parte agravos e diferenças, queixas e desavenças, desemprego e dívida pública, e subscreveram uma petição à AR para que legisle nesse sentido. De seguida, tudo o indica, marcharão sobre Zurique de "Diário da República" na mão, pondo cerco ao International Board e defenestrando Joseph Blatter caso a FIFA não dê cumprimento à decisão da AR. Era provavelmente a isso que Cavaco se referia quando, na recente mensagem de Ano Novo, falava em "situação explosiva".»
Manuel António Pina, no JN de hoje (na íntegra, porque o link deixará de funcionar amanhã).
12.1.10
Charutos e médicos

Há cerca de dois meses, um sindicato denunciou que os 44 médicos cubanos que, em Agosto do ano passado, chegaram ao Alentejo ao abrigo de um contrato entre o governo português e o governo cubano, eram objecto de descriminações em termos de horários de trabalho e de remunerações.
O assunto foi agora retomado. Aparentemente, ninguém quer dizer quanto é que Portugal paga (entrevistas sobre o assunto estarão mesmo proibidas), mas supõe-se que cada médico receba 500 euros por mês (com instalação e transportes garantidos). Segundo várias fontes, o Estado português desembolsa 2.500 euros, dos quais a família do médico recebe 15 - o resto vai para os cofres cubanos.
Mas, pelo menos tão surpreendente como o facto em si, é o que diz o embaixador de Cuba em Portugal e sobretudo os termos em que o faz: a vinda de «médicos de um país socialista», pobre e sujeito ao bloqueio que é conhecido, insere-se num contexto de «exportação de serviços médicos», já que a crise mundial diminui as receitas «da exportação do rum, do açúcar e dos charutos».
Serei demasiado sensível, mas acho esta verdade, nua e crua, uma brutalidade. Admitindo até que para os cubanos se sintam mais felizes em Vila Nova de Milfontes do que em Cienfuegos, exporta-se trabalho de pessoas (com «lucro» considerável), porque o mundo tem menos dinheiro para comprar charutos e rum? O que pensará um destes médicos cubanos que sabe quanto ganha um colega espanhol, imigrante como ele e exactamente com a mesma função? Revolta? Aceitação com fatalismo?
E qual é o papel do governo português no meio de tudo isto? Utiliza o governo dos irmãos Castro como uma Manpower que paga salários mais ou menos miseráveis e fica com uma percentagem choruda?
Não entendo nem o «socialismo» do lado de lá, nem o da banda de cá…
O assunto foi agora retomado. Aparentemente, ninguém quer dizer quanto é que Portugal paga (entrevistas sobre o assunto estarão mesmo proibidas), mas supõe-se que cada médico receba 500 euros por mês (com instalação e transportes garantidos). Segundo várias fontes, o Estado português desembolsa 2.500 euros, dos quais a família do médico recebe 15 - o resto vai para os cofres cubanos.
Mas, pelo menos tão surpreendente como o facto em si, é o que diz o embaixador de Cuba em Portugal e sobretudo os termos em que o faz: a vinda de «médicos de um país socialista», pobre e sujeito ao bloqueio que é conhecido, insere-se num contexto de «exportação de serviços médicos», já que a crise mundial diminui as receitas «da exportação do rum, do açúcar e dos charutos».
Serei demasiado sensível, mas acho esta verdade, nua e crua, uma brutalidade. Admitindo até que para os cubanos se sintam mais felizes em Vila Nova de Milfontes do que em Cienfuegos, exporta-se trabalho de pessoas (com «lucro» considerável), porque o mundo tem menos dinheiro para comprar charutos e rum? O que pensará um destes médicos cubanos que sabe quanto ganha um colega espanhol, imigrante como ele e exactamente com a mesma função? Revolta? Aceitação com fatalismo?
E qual é o papel do governo português no meio de tudo isto? Utiliza o governo dos irmãos Castro como uma Manpower que paga salários mais ou menos miseráveis e fica com uma percentagem choruda?
Não entendo nem o «socialismo» do lado de lá, nem o da banda de cá…
Em breve, num café perto de si

«An innovative British company called Light Blue Optics has created the Light Touch, which transforms any surface into a 10.1in touch screen, reminiscent of the film Minority Report.»
Mais informação
(Via José Manuel Sanchez Gonzalez no Facebook)
Acho bem porque o papa pode ter direito de veto

«Esquerda quer casamento gay resolvido antes da visita do papa»
No discurso anual que fez ontem, em francês, ao Corpo Diplomático acreditado junto do Vaticano, Bento16 abordou detalhadamente a problemática da defesa do ambiente e foi nesse contexto que disse o seguinte (o realce é meu):
«Il est nécessaire de relever que la problématique de l’environnement est complexe ; on pourrait dire qu’il s’agit d’un prisme aux facettes multiples. Les créatures sont différentes les unes des autres et peuvent être protégées, ou au contraire mises en danger de diverses manières, comme nous le montre l’expérience quotidienne. Une de ces attaques provient des lois ou des projets qui, au nom de la lutte contre la discrimination, attentent au fondement biologique de la différence entre les sexes. Je me réfère, par exemple, à des pays européens ou du continent américain.»
(Discurso na íntegra aqui.)
Para bom entendedor: leis que permitam o casamento de homossexuais são contra natura. É uma afirmação demasiado grave para que nos limitemos a encolher os ombros.
P.S. Via Helena Velho no Facebook:

No discurso anual que fez ontem, em francês, ao Corpo Diplomático acreditado junto do Vaticano, Bento16 abordou detalhadamente a problemática da defesa do ambiente e foi nesse contexto que disse o seguinte (o realce é meu):
«Il est nécessaire de relever que la problématique de l’environnement est complexe ; on pourrait dire qu’il s’agit d’un prisme aux facettes multiples. Les créatures sont différentes les unes des autres et peuvent être protégées, ou au contraire mises en danger de diverses manières, comme nous le montre l’expérience quotidienne. Une de ces attaques provient des lois ou des projets qui, au nom de la lutte contre la discrimination, attentent au fondement biologique de la différence entre les sexes. Je me réfère, par exemple, à des pays européens ou du continent américain.»
(Discurso na íntegra aqui.)
Para bom entendedor: leis que permitam o casamento de homossexuais são contra natura. É uma afirmação demasiado grave para que nos limitemos a encolher os ombros.
P.S. Via Helena Velho no Facebook:

11.1.10
Sem Eric Rohmer

Morreu hoje, com 89 anos, um dos grandes realizadores franceses da chamada Nouvelle Vague, juntamente com Godard, Truffaut, Renais, Rivette, Chabrol e alguns outros. Também editor dos Cahiers du Cinéma, deixa uma longa lista de filmes que vai de 1950 a 2007 - com um estilo subtil muito próprio, obcecado por análises formais detalhadas e que ousou dizer um dia que «as palavras são mais importantes do que as ideias». Cinema demasiado francês, disseram muitos, certamente datado em termos de Nouvelle Vague. Mas magnífico.
Entre muitos filmes possíveis, dois excertos dos meus preferidos: «Ma nuit chez Maud» (1969) e «Le genou de Claire» (1970).
Entre muitos filmes possíveis, dois excertos dos meus preferidos: «Ma nuit chez Maud» (1969) e «Le genou de Claire» (1970).
Uma estátua em 18.000 homens

(Clicar na foto)
Já conhecia esta extraordinária fotografia, mas revi-a hoje porque a recebi por mail.
Foi tirada em 1918, num campo de treinos em Camp Dodge, no Iowa: 18.000 homens preparando-se para a guerra.
(Ler mais)
Foi tirada em 1918, num campo de treinos em Camp Dodge, no Iowa: 18.000 homens preparando-se para a guerra.
(Ler mais)
Só faltavam as Conservatórias, ó céus…
Punham as mangas-de-alpaca, moviam-se como num aquário, abriam lentamente uns belíssimos móveis com uma espécie de persianas de tabuinhas e retiravam uns grandes livros onde iriam registar nascimentos, mortes, casamentos, divórcios e não sei se mais alguma coisa. Havia filhos normais, outros ilegítimos e muitos de pais incógnitos. Cada cidadão esperava calmamente pela sua vez, sentado numa cadeira de pau, depois de ter fixado a cor da gravata de quem seria atendido imediatamente antes. Não existiam máquinas com senhas nem painéis electrónicos e ninguém sonhava com a hipótese de fazer paciências num PC nas horas de menor movimento. As conservatórias eram uma boa montra do cinzentismo, em tempos de ditadura.
Tudo é hoje diferente e ainda bem: o atendimento é muito melhor, mais rápido e mais eficaz. Por causa do Simplex e / ou pelo progresso da humanidade.
O que não estava previsto é que, em 2010, os conservadores de registo civil assumissem a repulsa que levou no passado muitos portugueses a desertarem por não quererem matar pessoas, pretendendo invocar o estatuto de objectores de consciência por não aceitarem casar quem tem o mesmo sexo. Consciências curtas, certamente, prepotentes e ainda totalmente cinzentas.
E o mais extraordinário é que haja quem diga que sim, que os funcionários podem, eles próprios, considerar a lei inconstitucional, enquanto outros desejam que esta inclua uma cláusula que preveja a possibilidade de objecção.
Este país ensandeceu?
(A propósito desta notícia)
Tudo é hoje diferente e ainda bem: o atendimento é muito melhor, mais rápido e mais eficaz. Por causa do Simplex e / ou pelo progresso da humanidade.
O que não estava previsto é que, em 2010, os conservadores de registo civil assumissem a repulsa que levou no passado muitos portugueses a desertarem por não quererem matar pessoas, pretendendo invocar o estatuto de objectores de consciência por não aceitarem casar quem tem o mesmo sexo. Consciências curtas, certamente, prepotentes e ainda totalmente cinzentas.
E o mais extraordinário é que haja quem diga que sim, que os funcionários podem, eles próprios, considerar a lei inconstitucional, enquanto outros desejam que esta inclua uma cláusula que preveja a possibilidade de objecção.
Este país ensandeceu?
(A propósito desta notícia)
10.1.10
Do reino dos cornópios
Ainda nem cheguei ao fim do livro, mas não resisto a referi-lo de novo, porque A volta ao dia em 80 mundos, de Julio Cortázar (*) é de leitura imprescindível.
Irei pondo aqui alguns excertos.
«Que sorte excepcional ser sul-americano, e ainda por cima argentino, e não sentir-me obrigado a escrever a sério, a sentar-me diante da máquina com os sapatos engraxados e uma noção sepulcral de gravidade do instante. (…) Nada mais cómico do que a seriedade entendida como valor prévio a toda a literatura importante (outra noção infinitamente cómica quando postulada), essa seriedade do indivíduo que escreve como quem vai a um velório por obrigação ou dá uma massagem a um padre.»
(*) Cavalo de Ferro, 2009, 336 p. Leia-se a recensão de Ana Cristina Leonardo na sua Pastelaria.
Irei pondo aqui alguns excertos.
«Que sorte excepcional ser sul-americano, e ainda por cima argentino, e não sentir-me obrigado a escrever a sério, a sentar-me diante da máquina com os sapatos engraxados e uma noção sepulcral de gravidade do instante. (…) Nada mais cómico do que a seriedade entendida como valor prévio a toda a literatura importante (outra noção infinitamente cómica quando postulada), essa seriedade do indivíduo que escreve como quem vai a um velório por obrigação ou dá uma massagem a um padre.»
(*) Cavalo de Ferro, 2009, 336 p. Leia-se a recensão de Ana Cristina Leonardo na sua Pastelaria.
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