13.12.10

Mas a culpa não foi sempre dos computadores?


Dezembro parece ser um mês especialmente pesado para a responsabilidade cívica dessas entidades quase tão humanóides como os mercados.

Já nem nos recordamos talvez mas, há exactamente onze anos, reinava por esta altura o pânico pela iminência de uma espécie de apocalipse se os computadores se revelassem incapazes de reconhecer a mudança de século, com o consequente colapso de aeroportos, bancos, centrais nucleares e quase tudo no mundo. O «bug do milénio», se bem se lembram.

No fim da primeira década deste século XXI, um verdadeiro terramoto, com vários tsunamis ainda em actividade e outros em grande fila de espera, foi ele também provocado pelas potencialidades desses malvados seres, bem mais perigosos do que a máquina a vapor e seus sucedâneos, sem que seja de todo previsível que Obama acorde no dia 1 de Janeiro de 2011 com a certeza de que tudo não passou de um sonho mau e que Wikileaks não é mais, afinal, do que uma nova marca de pastilhas elásticas.

Curiosamente, as primeiras vagas que nos atingiram agora vieram através de um outro «millennium», também já cheio, muito cheio de bugs. Isto deve andar tudo ligado, não?!
...
...

À margem da crise


Regressada há uma semana de dois grandes países – a Argentina e o Chile – vejo confirmadas, pelos dados e pelas conclusões revelados pelo Latinobarómetro 2010 (1), as minhas impressões de turista, embora pouco acidental: a América Latina vai bem, melhor do que há sete anos, e também se recomenda.

Esqueça-se a crise de 2008 e início de 2009, porque se estima que a economia do conjunto da região cresça 5,2% em 2010, o que revela uma solidez macro-económica notável e indiscutível.

Também, e trata-se de um dado importante sublinhado em todas as análises, aumentou entretanto significativamente o «apoio à democracia» (2) – de um modo geral, porque é óbvio que se registam diferenças, por vezes significativas, de país para país –, enquanto o calcanhar de Aquiles continua a ser a delinquência, com 90% dos latino-americanos convictos que podem vir a ser vítimas de crimes violentos.

O vigor da confiança na democracia aparece intimamente ligado às variações no plano económico. A década acaba bem melhor do que começou, nomeadamente com a crise do peso argentino e os receios das reacções à eleição de Lula. E «o caos económico tinha sido associado pelo conjunto das populações latino-americanas ao falhanço das políticas de privatização e de abertura comercial dos governos democráticos dos anos 90, que sucederam aos tiranos da trágica década de 80.» «Democracia» foi então associada por muitos a «corrupção», o que explica os péssimos resultados do Latinobarómetro de 2001.

Deixando agora de lado o relatório e os números – e haveria muitos a referir –, «regresso» às ruas de Buenos Aires e de Santiago do Chile (não necessariamente às de Atacama…): vê-se prosperidade, não se sente nem se fala de crise (a não ser, um pouco, no turismo, mas que é agora largamente alimentado pelos países vizinhos…), as perspectivas parecem tão vastas como as amplas avenidas que cruzam as duas cidades, os projectos tão firmes como os novos e lindíssimos edifícios que não existiam há poucos anos (Puerto Madero, nas antigas docas de Buenos Aires, está irreconhecível!), o lazer tão intenso como o número de restaurantes, de todas as categorias, cheios de gente a todas as horas, o poder de compra tão evidenciado num sem número de recentes complexos comerciais mais ou menos luxuosos.

Claro que o Chile (ainda) ficou pessimamente colocado no PISA 2009 e é verdade que, 24h depois do meu regresso, morreram mais de oitenta pessoas numa prisão de Santiago, em condições talvez impensáveis em qualquer país europeu. Mas o (bom) futuro próximo passa certamente mais por ali… do que por aqui. É só preciso andar de olhos abertos para regressar, com essa certeza, a esta velha Europa!

(1) Para eventuais interessados, coloquei online o Informe 2010, de acesso directo difícil na rede, e que é baseado no resultado de 19.000 entrevistas realizadas em 18 países.
(2) Para mais detalhes sobre este conceito, ver Informe 2010. pp. 38-49.

(A partir daqui.)
...
...

Dar abrigo a WikiLeaks


O Libération explica porque o faz - e muito bem, na minha opinião:

«Libération, anarchiste du Net ? En abritant le site Wikileaks, pourchassé à l’échelle mondiale, sacrifions-nous à l’idéologie de la transparence absolue, dans laquelle Michel Foucault voyait une forme insidieuse de totalitarisme ? En aucune manière. Les Etats démocratiques ont le droit de garder des secrets et d’agir, dans les formes légales, à l’abri de règles reconnues de confidentialité. Mais les organes d’information, sur le Net ou ailleurs, ne sont pas et ne doivent pas être des prolongements des Etats. Ils sont des contre-pouvoirs. Ils ont pour fonction d’informer le citoyen et s’efforcent, pour ce faire, de comprendre ce qui se passe dans les coulisses des organisations, publiques ou privées. Sous une forme radicale, c’est ce que fait WikiLeaks, qui a pris soin, il faut le souligner, de s’arrimer à des titres respectés de la presse mondiale pour rendre publiques les informations qu’il s’est procurées. Les attaques menées contre ces imprécateurs utiles n’ont à ce jour aucune base légale.

Et pour cause : en démocratie, le droit à l’information l’emporte sur la logique des pouvoirs ; s’en prendre illégalement à WikiLeaks, c’est, toutes proportions gardées, mettre en place une sorte de Guantánamo virtuel. Une menace que tous les journaux libres doivent dénoncer.»
...
...

É isso mesmo


… sem tirar nem pôr, Miguel Cardina.

Notícias do interior do mundo

Dizem-nos que não devemos querer saber disto. Que isto perturba a ordem das coisas. Que nos devemos apenas preocupar com o caroço, a fuligem dos dias, a democracia da urna a horas certas. Que podemos dormir descansados enquanto eles tratam das questões verdadeiramente importantes. Que sair da caverna é uma impertinência e uma insensatez. Que não devemos dar crédito a isto, porque neste caso dar crédito é pactuar com o roubo. E o roubo, já dizia um velho francês de barbas, é a designação que alguns atribuem à propriedade. Ler as palavras do poder é ser um comunista primitivo ou um anarquista australiano.
...
...

12.12.10

Vontade de voltar a partir


… ou ainda um pouco no Chile.


Pablo Neruda, La carta en el camiño
...
...

Afundados em silêncio



Pouco qualificados, e portanto não competitivos, com uma corrupção endémica que lhes abafa a criatividade, ansiosos, deprimidos e amargos, estranhamente dóceis e silenciosos, mesmo quando aderem significativamente a uma greve geral - são as conclusões de uma reportagem recente de FR24 sobre os portugueses (vídeo).

Sofrem em silêncio e depois vão-se embora, como sempre fizeram – 100.000 emigraram, em 2009.

Per omnia seculum seculorum, amen??? Talvez não...



(Fonte)
...
...

Só para francófonos


Une petite clémentine
Une petite clémentine, rentrant tard le soir, s'adresse à sa mamandarine. Tu ne diras rien a papamplemousse :
« Je suis sortie avec un joli citron qui me chantait la pomme. Comme j'étais pressée, il a eu un zeste déplacé... et maintenant j'ai peur d'avoir des pépins.»

C'est trop «cute».
Mais j'espère que sa mère ne lui a pas dit: «Orange toi avec tes troubles!»
Bonne journée! Et pourquoi pas... Elle ananas pour longtemps avec ses pépins; faudra qu'elle consulte un avocat afin de ne pas passer pour une poire...ils melon dit!!!
...
...

Um apoiante inesperado


Ontem, no Chiado.

(Foto por Paula Cabeçadas)
...
...

11.12.10

Desigualdades & inseguranças


Em Le Monde Diplomatique deste mês, um excelente artigo de Sandra Monteiro. A não perder.

CIMEIRA DA OTAN, GREVE GERAL
As desigualdades são a maior insegurança

No final de Novembro, com poucos dias de intervalo, Portugal foi palco de dois acontecimentos que mostram bem como existem, em linhas gerais, duas narrativas em disputa sobre o que se entende por segurança. O primeiro foi a Cimeira da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), que teve lugar em Lisboa a 19 e 20 de Novembro, e o segundo a Greve Geral de 24 de Novembro, a maior que o país conheceu em toda a sua história. A Aliança Atlântica privilegia uma concepção de segurança como resposta político-militar a ameaças que, em qualquer parte do globo, ponham em causa os interesses estratégicos dos seus Estados-membros. O movimento de contestação às políticas de austeridade que se traduziu na Greve Geral entende a segurança como a construção de sociedades de bem-estar, processo em que é dada prioridade ao combate às desigualdades socioeconómicas.

A primeira narrativa toma como um dado a existência, e até a multiplicação, de ameaças à segurança (das convencionais às sanitárias e ambientais), não actuando sobre as suas causas e acabando por recorrer a meios que tendem até a agravar os problemas A segunda narrativa procura intervir sobre as causas fundamentais da insegurança que corrói as sociedades (das assimetrias de rendimentos à injustiça fiscal, ao desemprego ou à pobreza), inserindo-se numa história de movimentos sociais que tem sido responsável pelas configurações de sociedades mais estáveis e morais, mais coesas e seguras, que conhecemos. (…)

É a clarificação de posições divergentes que dignifica a informação e o debate de ideias e que permite que os cidadãos participem na democracia como coisa sua. A imagem meramente ritualista dos acontecimentos, seja ela positiva ou negativa, que ignora os seus contextos e o que de substantivo neles está em jogo, assemelha-se, na melhor hipótese, a esses alimentos-lixo que podem dar alguma satisfação momentânea mas são vazios de nutrientes ou, na hipótese pior (mas realista), esconde a imposição mediática de falsos consensos políticos que só traduzem uma relação de poder. E, nas condições actuais, bem se sabe de que lado está o poder, o dos que tudo podem fazer, sem nunca pagarem por isso, porque outros são sempre chamados a pagar a factura. Até que um dia a devolvam ao remetente, de preferência com juros de mora e indemnização por danos causados.

(Na íntegra aqui.)
...
...

Espantoso

...
Neve em Paris, de novo e a sério.


...
...

Deve ser dos nervos…


… ou a explicação está na última frase?
«Uma das medidas em cima da mesa é a criação de um fundo para financiar os custos do despedimento. A solução, inspirada no modelo espanhol, impedirá os patrões de usarem o argumento dos elevados custos do despedimento como justificação para não criar novos postos de trabalho. Dessa forma, o Governo pretende também influenciar os indicadores internacionais, que colocam Portugal entre os países onde as rescisões individuais de trabalhadores efectivos são mais dispendiosas.»

Será que isto não é óbvio?
«É uma ideia totalmente peregrina que vai no sentido contrário ao necessário, que é gerar emprego. Serve apenas para que os patrões possam despedir sem encargos e depois contratar com mais precariedade e piores condições de trabalho.»

(Daqui)
...
...

Samba Wikileaks

...


(Via Rui Tavares no Facebook)
...
...