7.3.12

Pensamento do dia



«Mais vale ser ministro por mais alguns meses que "bloguer" toda a vida.» 

Punk Economics 2



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Já nada espanta nesta triste Europa



Cheguei ao vídeo logo pela manhã, através do Luís Menezes Leitão. Parece mentira mas trata-se de uma iniciativa da Comissão Europeia e tem o inacreditável título Growing Together

Três praticantes de artes marciais avançam com ar ameaçador para uma europeia, mas, quando esta se multiplica e os rodeia, baixam armas, «em harmonia». 


Como a cretinice não paga imposto, Stefano Sannino (há portanto o nome de um responsável…), Director Geral para o Alargamento da União Europeia, veio explicar que «the feedback from the target audience of 16 to 24 year olds "who understand the plots and themes of martial arts films and video games" had been positive». Três criancinhas esfomeadas do Biafra e arredores contra um alemãozinho ruivo talvez convencessem a classe etária dos 2 aos 7, não? 

Mas dadas as reacções mais ou menos generalizadas contra a iniciativa, o vídeo clip foi entretanto retirado
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6.3.12

Trabalhos por esse mundo (3)



Pescador, Lago Ingle (Birmânia)
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Gabo



Se ontem recordei que Pasolini faria 90 anos se fosse vivo, como não gritar aos quatro ventos que Gabriel García Márquez completa hoje 85?!

O «Gabo» foi certamente um dos escritores da minha vida e, durante muitos anos, responderia à tal pergunta parva sobre o livro preferido entre todos referindo Cien años de soledad. Em espanhol, sim, porque não esperei pela tradução para o ler, assim que saiu em 1967 (na foto, a 1ª edição, na cabeça do autor). Não sei se foi o «melhor livro escrito em castelhano desde Quixote», como terá dito Pablo Neruda, mas para mim foi um marco inesquecível. Entretanto, mudaram muito os tempos e vejo que, hoje, foi disponibilizada a versão electrónica que não lerei.

Pelo caminho, ficaram Os funerais da mamãe grande, O outono do Patriarca, O Amor nos tempos do cólera e muitos outros.

Até que, em 2002, me precipitei de novo para a primeira edição, em espanhol, de Vivir para contarla, relato romanceado das memórias da infância e juventude de GGM. A prometida continuação nunca veio (o que foi anunciado como um primeiro volume pára em meados da década de 50) e «essa» nunca lhe perdoei!... Releio hoje o que escreveu como epígrafe do livro: «La vida no es la que uno vivió, sino la que recuerda y cómo la recuerda para contarla.» Ele, «Gabo», faz parte integrante da minha vida, como a recordo, mesmo sem a contar...


P.S. - Em El País, vários textos a propósito do dia de hoje:
* Recorrido por la geografía de Gabo
* Lo que nació con García Márquez
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O Hotel Vitória como os jovens comunistas nunca o viram


 (1936)

Aqui.
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Ser comunista em 2012



Andava eu pelo Oriente, à procura de um outro texto, e esbarrei neste, de Santiago Zabala, cuja leitura recomendo vivamente.

Quando parece haver medo até de usar alguns termos (neste caso, «comunismo»), e tantos, insuspeitos, pretendem reduzir o horizonte à defesa de realidades bem menos estimulantes e que não regressarão a passados gloriosos (um capitalismo «melhorzinho», a «social-democracia»…), são textos como este que abrem novas avenidas para a esperança.

Alguns excertos:

«Ser comunista em 2012 não é uma escolha política, mas uma questão existencial. Os níveis globais de desigualdades políticas, económicas e sociais, que vamos atingir este ano por causa das lógicas de produção do capitalismo, não são apenas alarmantes mas ameaçam a nossa própria existência.

Embora alguns argumentem que não é necessário regressar ao comunismo para reconhecer estas emergências existenciais, pode ser que ele seja uma teoria prática útil, dado o significado que hoje adquiriu. É precisamente na sua grande fraqueza como força política que o comunismo pode ser recuperado como uma verdadeira alternativa ao capitalismo. O facto de ter virtualmente desaparecido da política ocidental, como programa eleitoral, não implica que não seja válido como motivação social ou alternativa. O que quero sublinhar é que ser hoje um comunista (ou um «protestor») não é necessário apenas pelas ameaças existenciais do capitalismo, mas tornou-se possível também pelo falhanço do comunismo soviético. (…)

O comunismo enfraquecido que temos em 2012 não aspira a construir uma outra União Soviética, mas propõe modelos democráticos de resistência social fora dos paradigmas intelectuais que dominaram o marxismo clássico.»
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5.3.12

Pier Paolo



Pier Paolo Pasolini faria hoje 90 anos. Com uma vida atribulada e mais do que polémica, e uma morte trágica, deixou-nos alguns belíssimos filmes, entre os quais «O Evangelho segundo S. Mateus», de 1964, certamente aquele que mais me marcou e de que me recordo melhor.

A surpresa generalizada com que este foi recebido quando apareceu, de um Pasolini marxista, ateu e anticlerical (até condenado anteriormente por blasfémia), mereceu-lhe o seguinte comentário: «Se sabem que sou um descrente, conhecem-me melhor do que eu próprio. Posso ser um descrente, mas sou-o com a nostalgia de não ter uma crença». O filme foi «dedicado à querida, alegre e familiar memória do papa João XXIII», que morreu antes de poder vê-lo. 

 Um belo Cristo, mais revolucionário do que pastor, que provocou a ira de alguns críticos e o entusiasmo de muitos outros.

 

Aqui, o filme na íntegra.
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Público: com eco de canto do cisne



O jornal Público apresentou-se hoje como dando um «salto» para um novo ciclo, ao fazer «atravessar em todo o jornal, de modo orgânico – e aplicada às notícias do dia – a filosofia de maior profundidade até agora sobretudo reservada ao P2».

Para começar, lamente-se a decisão, puramente demagógica, de distribuir hoje o jornal gratuitamente, o que impediu muitos dos seus leitores habituais de lhe terem acesso, já que, como era de esperar com 100% de probabilidade, «esgotou» rapidamente. Ninguém terá pensado nesta consequência ou foi um objectivo conscientemente assumido?

Acabei por comprá-lo online e não me convenceu.

Primeiro, não sendo fã nem anatematizadora de José Gil, não vislumbrei qualquer valor acrescentado na sua função de director do jornal no dia de hoje. Pelo contrário, todos os desenvolvimentos em torno da sua «sondagem imaginária» não saem do nível da mais pura banalidade.

Depois, e em termos gerais, não me parece – mas o futuro dirá se tenho razão, pelo sucesso ou insucesso das opções agora tomadas – que o leitor normal de um jornal diário tenha tempo e disposição para artigos tão longos como os que agora são apresentados (muitos de página inteira), sobre temas por vezes de interesse secundário, a não ser que a qualidade dos mesmos o justifique – o que não é de todo o caso, na minha opinião.

A ver vamos, mas…
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Não se pode despejar uma ideia



«No passado dia 10 de Abril a antiga Escola Primária da Fontinha no centro do Porto foi pacificamente ocupada por um grupo de activistas, que a recuperou, limpou, arranjou e lhe deu nova vida. No centro de um bairro degradado do Porto, a antiga escola estava há muitos anos fechada, abandonada e devoluta. Servia como centro de tráfico e consumo de droga, tornando-se num ponto perigoso daquele bairro. (…)

Com a ocupação ganhou nova vida, tornou-se num espaço cultural, onde as crianças do bairro da Fontinha podem brincar e desenvolver actividades de tempos livres em segurança. Tem uma programação variada e é um ponto de encontro e apoio social de toda a população da Fontinha.

Após a ocupação a Câmara Municipal do Porto mandou evacuar e enviou a polícia municipal numa brutal acção de despejo. Aproveitando o verão, as actividades continuaram na rua.

Meses depois a Assembleia Municipal deliberou a devolução do espaço ao grupo de activistas, desde que se constituíssem como associação, o que foi cumprido. (…)



O mínimo dos mínimos que pode ser feito é assinar esta PETIÇÃO, dirigida à CMP. 
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4.3.12

Da mansidão das tias aos princípios da avó Prazeres



Temo que as televisões tenham estado presentes e nos mostrem esta noite Vítor Gaspar no 498º aniversário de Manteigas. É que, depois de duas semanas de ausência, não estou psicologicamente preparada para o ouvir falar da avó Prazeres, dos dons que Deus nos deu para os pormos ao serviço do bem comum, dizer que «em tempo de crise e emergência nacional, os portugueses não têm regateado esforços», que «não culpam os outros pelos seus problemas nem esperam que sejam os outros a vir resolvê-los» e, sobretudo, que «não temos pressa e a história garante que venceremos a crise».

Há demasiadas parecenças com discursos também beirões (sem que as Beiras tenham culpa do que quer que seja), ainda bem presentes na nossa memória e dos quais não conseguimos libertar-nos. Somos bonzinhos, generosos, esforçados, sem pressas…

E o pior, verdadeiramente pior, é que a realidade parece dar-lhe razão, a ajuizar pela mansidão com que este povo está a aceitar as barbaridades do momento presente! Quando se olha para este país de fora, de longe, essa evidência torna-se mais dolorosa e até incompreensível – e muito difícil de engolir.
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Primaveras


Regressei à base, tenho estado a tentar perceber se algo de importante teria acontecido por cá nas duas últimas semanas, sem que eu me tivesse apercebido, e concluo que não: No pasa nada! Mas pasa em Espanha:

 

(Via Mariana Avelãs no Facebook)
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