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18.9.12
Sem velas nem cartas de marear
«O Conselho de Estado irá discutir o enigma de como navegar num barco sem velas e sem cartas de marear. A tentação será a de entrar num tipo de governo em "modo Relvas". Um governo sem credibilidade que, para se manter, recua em todas as frentes e remodela os seus ministros mais inócuos. Mas poderá o País dar-se ao luxo de confundir o adiar de um naufrágio com a resposta que o poderá manter vivo na luta pela sobrevivência?»
Viriato Soromenho-Marques
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17.9.12
E os bispos falaram sobre a crise...
O Conselho Permanente do episcopado português acaba de divulgar um comunicado sobre a situação portuguesa, que considero lamentável, também mas não só, pelo seu carácter «redondo» e inócuo, sem vestígios de ousadia, frontalidade ou carisma de qualquer tipo.
Se é verdade que se recorda que deve haver « equilíbrio entre finanças e economia» e que os mercados estão «sujeitos a uma dimensão ética de serviço à humanidade», e se revela preocupação com o desemprego e a falta de equidade social, todo o tom de grande parte do documento é o de um apelo a que se garanta a «estabilidade política» pela «busca permanente do maior consenso social e político» já que, em democracia, «as “crises políticas” deverão ser sempre excepção» porque, «em momentos críticos, podem comprometer soluções e atrasar dinamismos na sua busca».
Mais explicitamente: é necessário superar «as legítimas divergências, num alargado consenso nacional» entre «governo e oposição, partidos políticos, associações de trabalhadores e de empresários, etc.» E mais ainda: «a coragem para aceitar que momentos difíceis podem ser a semente de novas etapas de convivência e de sentido colectivo da vida». Mas o que é isto?!!!
Nem uma frase de sobressalto explícito, claro, sem peias, em relação às medidas drásticas que a sociedade portuguesa, praticamente em bloco, está a recusar. Dois dias depois de as ruas do país terem sido inundadas por multidões de portugueses activos e em desespero pela situação em que o país se encontra, e querendo recuperar o futuro que lhes querem sonegar, os bispos deste país conseguem ignorar totalmente este acontecimento não lhe consagrando sequer uma palavra, uma vírgula, um dos quase 5.000 caracteres do texto! Enclausurados entre paredes.
Só a diminuta influência que a instituição que governam tem na vida concreta da esmagadora maioria dos portugueses fará com que este texto seja acolhido com um indiferente encolher de ombros. Mais um.
P.S. – Só agora li estas declarações feitas à margem do Documento.
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Para além dos ecrãs
O Filipe Caetano (sim, o mesmo que nos entra pela casa dentro, através da TVI) criou um blogue e escreveu um belo primeiro texto.
«São duas da manhã e tu dormes ao meu lado. Crio este blog a pensar em ti, para que um dia possas ler e perceber o país e o mundo que existia quando nasceste.(...)
Escrevo-te poucas horas depois de Portugal ter assistido a uma das maiores manifestações de sempre desde a revolução de 25 de Abril de 1974. Muitos milhares de pessoas saíram à rua, em várias cidades, mostrando a sua insatisfação com a situação do país. Protestam contra um Governo, contra os credores de um empréstimo que permite o pagamento de uma máquina estatal insuportável. Protestam porque não vêem saída. (...)
Mas desta vez não fui para a rua. Estava contigo ao colo e só pensava no futuro que vais ter. Sinto uma revolta imensa não pelas ultimas medidas do Governo. Só quem não estava atento ficou surpreendido. E muitos estavam desatentos. Sinto revolta pelo estado a que o pais chegou e pela enorme cegueira de quem pretende construir uma sociedade diferente à força quando não receberam um mandato para o fazer.»
Na íntegra aqui.
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O povo saiu à rua num dia assim
Um belo texto de Maria de Deus Botelho.
Sabes, Avô, hoje fui até à Avenida dos Aliados, no Porto. Fui juntar-me a tantos que, como eu, não quiseram ficar em casa desta vez e preferiram ser parte activa nesta luta por um país mais justo, um país mais solidário. Éramos tantos, Avô… Um mar de gente, de todas as idades. Vi crianças da idade do teu bisneto que não chegaste a conhecer, vi velhos da idade que terias hoje se a vida não te tivesse levado antes do tempo. Cruzei-me com homens e mulheres que podiam ser meus pais, que seguramente sacrificaram tanto para darem aos filhos a educação que muitos deles não tiveram e que, agora, os vêem sair do país em busca de um futuro que, aqui, já não têm.
Estavam lá gerações inteiras, Avô. Pais que levavam os filhos e filhos que levavam os pais. Avós que se apoiavam nos netos e netos que estavam ali também pelos seus Avós. Todos em luta serena e pacífica.
Fomos pacíficos mas não fomos silenciosos. Ouviram-se cânticos, gritaram-se palavras de ordem; bateram-se palmas e lançaram-se assobios; cantou-se o Hino, Avô, A Portuguesa, que sempre te encheu o peito. Empunharam-se cartazes com dizeres mais ou menos criativos. Tudo feito por gente que se recusa a desistir, que renega a resignação, que insiste em lutar.
Hoje, Avô, eu fiz aquilo que me ensinaste toda a vida: ergui bem alto a cabeça e exigi os direitos por que tanto lutaste. Hoje, a minha voz também se fez ouvir, contra o exagero, contra o sacrifício desmesurado, contra o retrocesso. Hoje, fui verdadeiramente tua neta: um soldado na luta incessante por um futuro melhor, mais digno, mais verdadeiro.
Foi o começo, Avô. Será preciso muito mais, será necessário ser muito melhor. Mas hoje, Avô, eu fiz aquilo com que sonhei tantas vezes: eu comecei mesmo a mudar o mundo.
Se cá estivesses, provavelmente ter-me-ias pedido cautela; assim, vieste comigo e a tua voz foi a minha voz, a tua força foi a minha força. Foi quando te senti em mim que me lembrei do cântico que tantas vezes cantámos no jardim da casa da aldeia: “…o povo é quem mais ordena…”. Também se cantou, Avô. Bem alto, como deve ser. O povo saiu à rua. E fez-se ouvir.
(Daqui.)
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16.9.12
Manifestação – Reunião do Conselho de Estado
No dia 15 de Setembro o país tomou as ruas para dizer BASTA!, naquelas que foram as maiores manifestações populares desde o 1º de Maio de 1974. Exigimos o rasgar do memorando da Troika e a demissão deste governo troikista.
Se o governo não escuta, que escute o Presidente da República e o seu Conselho de Estado.
Não é não!
Não queremos apenas mudanças de nomes, queremos mudanças de facto. A 21 de Setembro iremos concentrarmo-nos junto ao Palácio de Belém para demonstrar que 15 de Setembro não foi uma mera catarse colectiva, mas um desejo extraordinário de MUDANÇA DE RUMO!
A Luta Continua!
Que se Lixe a Troika! Que se Lixem os Troikistas! Queremos as Nossas Vidas!
(Daqui)
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O humor não faltou
(Foto roubada no Absurdo)
A força foi esta
Coelho, Gaspar & companhia: ontem foi o primeiro dia do resto das vossas vidas
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Manifestação: o melhor debate
... dos que vi ontem, na minha opinião: Adelino Maltez, Viriato Soromenho-Marques e Carlos Amaral Dias, na RTP1.
Ver e ouvir AQUI.
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Remodelação ministerial?
Se, ao contrário do que espero, Passos Coelho continuar a ser PM e vier a fazer umas mudanças cosméticas nos ministérios, deixo-lhe aqui, humildemente, a sugestão de que não se esqueça desta fiel (e eficiente) seguidora.
. A nave dos loucos
Pausa nas imagens sobre a Manifestação para chamar a atenção para este texto que vem bem a propósito, depois do se viveu ontem nas ruas.
«Quanto a Sua Excelência, que outrora, por um décimo disto, apelava à revolta popular contra o governo eleito que ele próprio empossara, suponho que o melhor agora seja seguir o conselho do professor Marcelo: tudo fazer discretamente. Todavia, mesmo na discrição é necessária prudência: admitindo que o SIS ainda existe e que os seus relatórios não seguem apenas para a maçonaria, Sua excelência deve estar informada de que o ambiente está de cortar à faca. Os nossos insubstituíveis constitucionalistas saberão melhor do que eu que existe alguma escapatória constitucional que autorize a demissão de um governo por manifesta loucura superveniente de alguns dos seus membros determinantes.»
Miguel Sousa Tavares, Expresso, 15/9/2012
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