17.9.12

E os bispos falaram sobre a crise...



O Conselho Permanente do episcopado português acaba de divulgar um comunicado sobre a situação portuguesa, que considero lamentável, também mas não só, pelo seu carácter «redondo» e inócuo, sem vestígios de ousadia, frontalidade ou carisma de qualquer tipo. 

Se é verdade que se recorda que deve haver « equilíbrio entre finanças e economia» e que os mercados estão «sujeitos a uma dimensão ética de serviço à humanidade», e se revela preocupação com o desemprego e a falta de equidade social, todo o tom de grande parte do documento é o de um apelo a que se garanta a «estabilidade política» pela «busca permanente do maior consenso social e político» já que, em democracia, «as “crises políticas” deverão ser sempre excepção» porque, «em momentos críticos, podem comprometer soluções e atrasar dinamismos na sua busca». 

Mais explicitamente: é necessário superar «as legítimas divergências, num alargado consenso nacional» entre «governo e oposição, partidos políticos, associações de trabalhadores e de empresários, etc.» E mais ainda: «a coragem para aceitar que momentos difíceis podem ser a semente de novas etapas de convivência e de sentido colectivo da vida». Mas o que é isto?!!! 

Nem uma frase de sobressalto explícito, claro, sem peias, em relação às medidas drásticas que a sociedade portuguesa, praticamente em bloco, está a recusar. Dois dias depois de as ruas do país terem sido inundadas por multidões de portugueses activos e em desespero pela situação em que o país se encontra, e querendo recuperar o futuro que lhes querem sonegar, os bispos deste país conseguem ignorar totalmente este acontecimento não lhe consagrando sequer uma palavra, uma vírgula, um dos quase 5.000 caracteres do texto! Enclausurados entre paredes. 

Só a diminuta influência que a instituição que governam tem na vida concreta da esmagadora maioria dos portugueses fará com que este texto seja acolhido com um indiferente encolher de ombros. Mais um.

P.S. – Só agora li estas declarações feitas à margem do Documento.
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4 comments:

Rui Almeida disse...

«O secretário da Conferência Episcopal (CEP) disse hoje em Fátima que a manifestação de centenas de milhares de portugueses, que este sábado saíram à rua em várias cidades, é uma “interpelação forte” para quem governa o país.

“Contamos que os nossos governantes saibam ler com discernimento essa manifestação da vontade pública”, declarou o padre Manuel Morujão, em conferência de imprensa, após uma reunião do Conselho Permanente do episcopado católico.

A iniciativa, que decorreu sob o mote ‘Que se lixe a troika. Queremos as nossas vidas’, é vista pelo secretário da CEP como e um “sinal” a que é preciso responder.

“Há confiança de que os governantes, num esforço de realismo, vejam aquilo em que podem servir o seu povo, sem penalizar aqueles que já estão demasiado penalizados e precisam de ser ajudados”, observou o sacerdote, após a divulgação de uma nota intitulada ‘Missão da Igreja num país em crise’.»
Da notícia da Ecclesia: http://www.agencia.ecclesia.pt/cgi-bin/noticia.pl?&id=92491

Joana Lopes disse...

Não tinha visto, Rui. Mas por que razão o documento oficial é tão inócuo e não fala disso, nem nada que se pareça?

voz a 0 db disse...

Olá Joana...

Há muita coisa que me faz confusão!

Mas sempre que leio afirmações deste género

"Direito ao trabalho. Este não deve ser concebido apenas como forma de manutenção económica, mas como meio de realização humana"

Desde quando o TRABALHO é u meio de realização humana?!? E quando estas balelas vem destes bacanos então é que a coisa está cada vez mais longe de ser resolvida!

Abr

Rui Almeida disse...

Não faço ideia, Joana. Li a notícia depois de ter lido este seu post. Calculo q seja por os bispos serem uns 30 e nem todos serem o das Forças Armadas.