1.9.13
A Constituição não valeu de nada aos 900.000 desempregados porque não foi respeitada
As redes sociais encheram-se de indignação em torno de uma frase que Passos Coelho disse hoje no encerramento da universidade de Verão do PSD: «Já alguém se lembrou de perguntar aos mais de 900 mil desempregados no país do que lhe valeu a Constituição até hoje?» Mas é fundamental colocá-la no seu contexto, porque anda toda a gente a espingardear à toa, sem sublinhar devidamente a importância do que foi afirmado.
«A Constituição diz que é devida protecção no emprego. Já alguém se lembrou de perguntar aos mais de 900 mil desempregados no país do que lhe valeu a Constituição até hoje? E, no entando, era suposto que tivessem confiança que as suas empresas e empregos continuassem. Mas não foi assim, porque as empresas não conseguiram sobreviver à usura do Estado, à fraca competitividade externa.»
O que o primeiro-ministro faz, com esta afirmação, é desresponsabilizar o seu governo das medidas que provocaram o catastrófico desemprego a que chegámos, «brincando» inaceitavelmente com a inutilidade da asa protectora da Constituição, como se esta fosse uma abstracção. A Constituição não valeu de nada aos 900.000 desempregados simplesmente porque não foi respeitada por quem foi eleito para o fazer. É isso que interessa sublinhar.
. Cenários para mais tarde conferir
Sucedem-se os discursos de rentrée mais ou menos enfadonhos, sem alma nem novidade, a campanha para as autárquicas está quase à porta, mas são as próximas legislativas que verdadeiramente importam e multiplicam-se as apostas em possíveis alianças pré ou pós eleitorais.
No DN de hoje, Bagão Félix puxa a brasa à sua dama e defende um cenário PS + CDS, com argumentos um pouco retorcidos mas tão válidos como outros quaisquer: sendo mais nítida a diferença ideológica entre os dois partidos «a dialética da coligação pode ser mais positiva». Porque não? Seria um bloco central como um outro qualquer. Sempre, sempre, dentro do arco da governação.
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31.8.13
Em jeito de despedida
«Vieille rengaine traditionnelle, cette chanson est intéressante à plus d’un titre. Elle fut faite vers 1800 en l’honneur de Robert Surcouf, grand corsaire français. Plus particulièrement car il venait de capturer le puissant H.M.S "Kent" avec son petit navire, la "Confiance", Aux Indes. Très populaire chez les marins cette chanson a pourtant vu ses paroles être modifiées à plusieurs reprises et ce jusqu’à la fin du XIXe siècle.»
. Grandes hinos
No Facebook, foi criada uma página dedicada a «Tesourinhos das Autárquicas 2013», que faz a delícia de muitos. Lá encontrei a notícia em que o Jornal de Negócios divulgou ontem a letra de hinos de alguns candidatos às eleições autárquicas. Fica aqui uma amostra. Comentários para quê. (Note-se que terão sido utilizadas músicas sem autorização de autores e editores – per supuesto...)
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Entretanto em Bogotá
É difícil imaginar Bogotá em cenário bélico quando, há apenas alguns meses, vi uma cidade calmíssima, próspera, virada alegremente para um futuro prometedor, «a Atenas da América do Sul», como se classifica pela intensa vida cultural que tem. Se é verdade que, em certas regiões do interior do país, a presença da guerra às FARC era uma realidade bem visível (por exemplo, num estrada entre Cali e Popayan, havia tropa bem musculada, armada até aos dentes, com altas trincheiras), o ambiente geral era mais do que pacífico e a Praça Bolívar de Bogotá parecia ser apenas a morada natural do Museu do Ouro mais extraordinário que alguma vez visitei.
E, no entanto, é todo um país que está agora em estado de guerra porque os camponeses estão numa greve de protesto que já há dura há mais de 12 dias, por causa do preço elevadíssimo dos produtos agrícolas e da falta de apoios do governo à agricultura, que tornam inviável a produção nacional de bens tão básicos como arroz, batatas ou leite, em virtude de Tratados de Comércio livre, assinados com os Estados e outros países que subsidiam a sua própria produção.
O presidente Juan Manuel Santos reconheceu as razões do trabalhadores, fez algumas promessas mas sem resultado suficiente. Os protestos continuaram, estenderam-se a todo o país e foi ontem anunciada a militarização da capital depois dos distúrbios de quinta-feira durante uma marcha de apoio á greve e foram mobilizados 50.000 militares para garantirem a ordem no país.
(Informação mais detalhada aqui.)
A América Latina está sempre pronta para grandes ebulições. É mais uma vez o caso, agora no país do café e das esmeraldas, mas avançará: está virada para o futuro, não na defesa de passados gloriosos.
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30.8.13
Assim como?
@Alfredo Cunha
Última sexta-feira de Agosto, os juízes do Constitucional já partiram certamente para fim-de-semana, Passos Coelho ameaça com um possível segundo resgate como se este não estivesse há muito no horizonte; por falar em coelho, na Coelha deve veranear ainda o nosso inefável presidente e eu estou neste momento numa casa onde passei belíssimas tardes de longas conversas com José Cardoso Pires. Penso nele, no país actual e como ele reescreveria, hoje, este texto que retomo porque nunca me canso de o reler.
«Lá vai o português, diz o mundo, quando diz, apontando umas criaturas carregadas de História que formigam à margem da Europa.
Lá vai o português… lá anda. Dobrado ao peso da História, carregando-a de facto, e que remédio – índias, naufrágios, cruzes de padrão (as mais pesadas). Labuta a côdea do sol-a-sol e já nem sabe se sonha ou se recorda. Mal nasce deixa de ser criança: fica logo com oito séculos.
No grande atlas dos humanos talvez figure como um ser mirrado de corpo, mirrado e ressequido, mas que outra forma poderia ele ter depois de tantas gerações a lavrar sal e cascalho? Repare-se que foi remetido pelos mares a uma estreita faixa de litoral (Lusitânia, assim chamada) e que se cravou nela com unhas e dentes, com amor, com desespero, ou lá o que é. Quer isto dizer que está preso à Europa pela ponta, pelo que sobra dela, para não se deixar devolver aos oceanos que descobriu, com muita honra. E nisto não é como o coral que faz pé firme num ondular de cores vivas, mercados e joalharia; é antes como o mexilhão cativo, pobre e obscuro, já sem água, todo crespo, que vive a contra-corrente no anonimato do rochedo. (De modo que quando a tormenta varre a Europa é ele que a suporta e se faz pedra, mais obscuro ainda).
Tem pele de árabe, dizem. Olhos de cartógrafo, travo de especiarias. Em matéria de argúcias será judeu, porém não tenaz: paciente apenas. Nos engenhos da fome, oriental. Há mesmo quem lhe descubra qualquer coisa de grego, que é outra criatura de muitíssima História.
Chega-se a perguntar: está vivo? E claro que está: vivo e humilhado de tanto se devorar por dentro. Observado de perto pode até notar-se que escoa um brilho de humor por sob a casca, um riso cruel, de si para si, que lhe serve de distância para resistir e que herdou dos mais heróicos, com Fernão Mendes à cabeça, seu avô de tempestades. Isto porque, lá de quando em quando, abre muito em segredo a casca empedernida e, então sim, vê-se-lhe uma cicatriz mordaz que é o tal humor. Depois fecha-se outra vez no escuro, no olvidado.
Lá anda, é deixá-lo. Coberto de luto, suporta o sol africano que coze o pão na planície; mais a norte veste-se de palha e vai atrás da cabra pelas fragas nordestinas. Empurra bois para o mar, lavra sargaços; pesca dos restos, cultiva na rocha. Em Lisboa, é trepador de colinas e de calçadas; mouro à esquina, acocorado diante do prato. Em Paris e nos Quintos dos Infernos topa-a-tudo e minador. Mas esteja onde estiver, na hora mais íntima lembrará sempre um cismador deserto, voltado para o mar.
É um pouco assim o nosso irmão português. Somos assim, bem o sabemos.
Assim, como?»
José Cardoso Pires, E Agora, José ?, 1977.
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Queridos «outdoors»
O calendário aponta para o fim da silly season, mas esta tem prolongamento garantido: a campanha para as autárquicas.
Se outros motivos não existissem, um estudo aprofundado sobre os outdoors, tanto no plano estético como no de conteúdos, daria uma bela tese de mestrado, talvez mesmo de doutoramento. O que está ali em cima não é deste ano, mas sim de 2009, e vale um milhão!
. «Agora vem aí a vingança»
... diz Pacheco Pereira e foi a primeira ideia que me ocorreu quando ouvi a declaração do Tribunal Constitucional.
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