23.9.13

Na crista da onda e pelas piores razões



No Wall Street Journal, o texto sobre Portugal, que hoje todos citam: «Portugal Could Be Cooking Up a Storm». (Aqui na íntegra.)

«Now that the German elections are over, the euro zone needs to get back to crisis fighting. And top of the list of urgent problems is what to do about Portugal.
Uniquely among crisis countries, Portugal has seen no benefit from improving sentiment toward the euro zone. (...)

The risk is that the crisis is causing Portugal's elites retreat to familiar comfort zones just when they need to be embracing radical change. Viewed this way, the multi-dimensional chess game is the least of Portugal's problems. No doubt a way will be found to finesse the immediate financing challenge, most likely involving some official-sector debt rescheduling and a precautionary credit line. But that will only buy Portugal some more time. The question is, for what?» 
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É mais ou menos isto


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Passos Coelho versão Pilatos



«Enquanto os alemães se preparavam para entronizar Angela Merkel como a grande líder (...) Pedro Passos Coelho decidiu anunciar ao país que um segundo resgate está iminente. (...)
Um primeiro-ministro que se recusa a falar da flexibilização do défice (...) e decide falar numa acção de campanha no Ribatejo de que um segundo resgate estará em cima da mesa é, para se ser simpático, incompreensível e desconcertante. (...)

Mas Pedro Passos Coelho talvez tenha decidido expressamente anunciar o segundo resgate para que ele seja assumido pelos portugueses (...) através da sua particular narrativa. A culpa dos juros ultrapassarem, neste momento, os 7 por cento é da crise política, logo, de Paulo Portas. (...) Ouvir Passos Coelho anunciar a iminência do segundo resgate e pedir-nos para não "fazer de conta" que não houve uma crise no Verão é mais ou menos equivalente a declarar uma nova crise política da qual ele se prepara para lavar as mãos.»

Ana Sá Lopes

22.9.13

Ei-lo



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Mais alguns anos



... para lhes dar uso. 
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Era p'ra amanhã



Em Março de 2012, Vítor Gaspar fixou um dia para o regresso de Portugal aos mercados financeiros: 23 de setembro de 2013, uma segunda-feira.

Lá estaremos. Bateremos à porta dos ditos mercados, amanhã, pela fresquinha.

É p'ra amanhã / Bem podias viver hoje / Porque amanhã quem sabe se vais cá estar / Ai tu bem sabes como a vida foge / Mesmo que penses que está p'ra durar. 
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«Kitsch» político



Antonio Muñoz Molina publicou ontem no Babelia, de El País, um texto a propósito do kitsch nas manifestações a favor da independência da Catalunha, que pode ser trazido, sem grande esforço, para outras realidades bem próximas de nós. Não que esteja em causa qualquer sentimento de superioridade em relação ao que se vê por aí em termos de propaganda das próximas eleições autárquicas, mas lá que não falta kitsch é uma realidade indesmentível e bem reveladora do estado das mentalidades.

«El kitsch es al arte lo que la margarina a la mantequilla, (...) lo que la novela histórica a la historia, lo que Isabel Allende al mejor García Márquez, (...) lo que los anuncios turísticos de la Junta de Andalucía a la realidad de Andalucía, (...) lo que el hotel Alhambra Palace de Granada a la Alhambra de Granada.»
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21.9.13

79



... anos tem Leonard Cohen a partir de hoje.

Esqueço o poeta e o escritor e regresso a algumas canções dos seus dois primeiros álbuns, propositadamente em versões antigas – as primeiras em que o ouvi.








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Pois, isto pode complicar-se


Os estivadores europeus ameaçam prejudicar o tráfego marítimo de e para Portugal, caso o Governo de Passos Coelho não altere a nova lei laboral que regula o setor. Para o presidente do Sindicato dos Estivadores do Centro e Sul de Portugal, estão em causa centenas de postos de trabalho e o aumento de precarização da atividade de estivador.

O governo português já tinha sido directamente avisado.


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Tempestade perfeita: quatro em um



Esta frase de Miguel Sousa Tavares, da sua crónica no Expresso de hoje, arrisca-se a andar por aí durante uns dias porque exprime uma boa síntese:

«Desgraçadamente, o que se abateu sobre nós foi uma tempestade perfeita: Passos Coelho no Governo, Seguro na oposição, Cavaco na presidência e Merkel na Europa.»

Mas, realmente, por muitos pecados que possam ser-nos atribuídos, mesmo tendo nascido como país com um filho a bater na mãe, aguentado mais de quatro décadas de ditadura à espera que uma cadeira partida dela nos livrasse, desperdiçado uma bela revolução, parece excessivo o castigo que os deuses nos reservaram para este início do século XXI! Isto deve estar perto do fim, não? 
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Também tu, Brutus?

Pensadores



António Guerreiro publica, no Ípsilon de ontem, mais um excelente texto: «Pensadores e filósofos» – uma óptima leitura para uma manhã de Sábado (os realces são meus).

«Dizia-se em tempos — agora já se diz menos, porque a “despoetização” chegou a todo o lado — que Portugal é um país de poetas. Aquilo que nunca se diz é que também é um país de “pensadores”. Não de filósofos, já que nesse domínio a tradição não é muito rica, mas de “pensadores”. As aspas significam que a palavra é aqui declinada como citação: é o nome dado a uma categoria que não existe com o mesmo sentido noutras latitudes culturais e para a qual se vão encontrando representantes, por aqui, de tempos a tempos. Por exemplo, um sociólogo como António Barreto, a partir do momento em que começou a ter um discurso que já não é limitado pelas regras, pela ordem e pelo método de um determinado campo disciplinar, começou a ser chamado “pensador” (sem fazer nenhuma pesquisa, já dei por duas ocorrências) e, mais importante do que a explícita nomeação, a ser tratado como tal (pelo menos, na televisão). Não se trata da categoria dos “pensadores privados”, que fazem da sua obra um caso de obstinação pessoal, à margem de cargos académicos e institucionais. E também não são filósofos porque a forma de pensamento que praticam não é filosofia, é antes uma indefinida disciplina de sapiência que tem muito de oracular. O “pensador” português adquire quase automaticamente esse estatuto se eleger a nação portuguesa (e a respectiva sociedade, de preferência numa perspectiva trans-histórica) como objecto. Por isso, aliás, é que a chamada “filosofia portuguesa” é campo fértil de onde brotaram e continuam a brotar “pensadores” e um vasto “pensamento”. Veja-se o que aconteceu a Eduardo Lourenço: como passou com armas e bagagem da filosofia para a literatura e como se pôs a “pensar Portugal” (como se ouve dizer tantas vezes), acabou por se tornar o nosso “pensador” por antonomásia, malgré lui, que merece muito mais do que esse epíteto e os equívocos e reverências que ele suscita. O seu grande pecado, como sabemos, foi ter dado a um dos seus livros mais célebres o título O Labirinto da Saudade e, pior ainda, o subtítulo Psicanálise Mítica do Destino Português, que foi lido como se não houvesse nele nenhuma ironia nem um segundo grau e fosse completamente permeável ao “irrealismo histórico” e à ideologia que pretende precisamente analisar. Na história dos nossos “pensadores”, há que distinguir duas espécies: os que nem mereciam ser, mas por razões culturais (ou por alguma falta de prudência) aconteceu-lhes essa desgraça; e os que trabalharam para o ser, por convicção e porque esse “idioma” os formou. Estes “pensadores”, ao contrário dos filósofos, têm um pensamento completamente transitivo, exclusivamente orientado para um objecto exterior. Têm uma pretensão de verdade e de revelação, e isso verifica-se no “estilo” e nos protocolos discursivos. Tendem, por isso, a ser ouvidos como oráculos. A filosofia, pelo contrário, conhece desde sempre o modo como o pensamento implica a linguagem. Para o filósofo, ao contrário do que acontece com o nosso “pensador”, não há pensamento que não seja pensamento do pensamento, não há pensamento que não seja experiência da linguagem. » O “pensador” — a categoria portuguesa com este nome — está cheio de visões do mundo, mas falta-lhe aquilo que desde sempre sobra no filósofo: uma visão da linguagem, uma interrogação sobre o significado das palavras. Daí a ilusão de transparência que transmite, que é uma transparência ingénua, semelhante à dos poetas que têm muita coisa para dizer e muitos sentimentos para exprimir. São, à sua maneira, realistas.»
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