28.10.14

Um outro mundo é possível



Crónica de Diana Andringa, hoje, na Antena 1:

Um estudo realizado por dois economistas, e recentemente publicado, analisou a forma como as pessoas imaginavam as diferenças salariais entre os executivos e os trabalhadores de base das empresas, que diferenças entenderiam como justas e quais eram, realmente, essas diferenças.

Como era de prever, a maioria dos inquiridos entendia que as diferenças eram grandes demais e, embora aceitando o maior salário dos executivos, defendia que a diferença deveria ser menor.

Até aqui, nada que surpreenda. O curioso é que a ideia que os inquiridos tinham sobre as diferenças salariais estava muito aquém da realidade. Na Áustria, por exemplo, os inquiridos julgavam que um Director Executivo ganhava 5 vezes mais do que um trabalhador não qualificado, mas ganhava 36 vezes mais. Na Dinamarca, não ganhava duas vezes mais, como os inquiridos pensavam, mas 48 vezes – e na Suécia 89 vezes. Nos Estados Unidos, em lugar de ganhar, como pensavam os inquiridos, 6,7 vezes mais, um Director Executivo ganhava 354 vezes mais. Em Portugal, onde os inquiridos apontavam um rácio de 5, ele é, de facto, de 53. E o Público recorda a propósito que, em 2013, Pedro Soares dos Santos ganhou 108 vezes mais do que a média dos restantes trabalhadores da Jerónimo Martins.

Sim, conheço o argumento, é o peso da responsabilidade. Mas será justificável que essa responsabilidade se salde nestes valores?

Dias antes, saíram notícias sobre um homem que terminava o seu mandato como presidente de um país. País pequeno, é certo, mas talvez não seja excessivo comparar as suas responsabilidades às de um Director de uma grande empresa. No entanto, José Mujica, uma vez presidente do Uruguai, não viu razões para mudar da casa onde há anos vivia com a mulher, nem para auferir um salário muito superior ao que necessitava para viver – e doava 90% desse salário a obras de caridade… E não se pode dizer que não tivesse responsabilidades. O seu foi o primeiro país do Mundo a enfrentar o narcotráfico, legalizando a produção e a venda da cannabis.

Vi as duas notícias com poucos minutos de intervalo, e corri o risco de acreditar que, digam o que digam, um outro Mundo é possível.


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No reino da zaragata



«Quem governa Portugal? Presume-se que Pedro Passos Coelho, o primeiro-ministro. Mas, por vezes, há dúvidas. Não será Tulius Detritus, o mestre da arte da discórdia que Júlio César enviou para conquistar a aldeia gaulesa de Astérix?

Desde os primórdios da sua chegada ao poder que a estratégia política do Governo tem sido dividir para reinar. É certo que dividiu tanto que acabou por se dividir a si próprio. Mas conseguiu colocar jovens contra idosos, funcionários do sector público contra os do sector privado, reformados contra trabalhadores no activo. (...)

Passos Coelho, como todos os governantes que se afundam devagarinho nas águas movediças que criaram, ataca os media, o melhor saco de pancada para políticos sem rumo. O seu destino está traçado. Agora Passos Coelho só se quer salvar e tentar um milagre nas eleições. Mas antes, provando a capacidade de reforma de que sempre deu mostras, conseguiu o milagre da multiplicação: depois de mais uma trapalhada no OE, criou um IRS com dois sistemas, um para quem tem filhos, outro para quem não tem. E o cidadão que escolha o que quer. Se se enganar, ganha o fisco. Portugal transformou-se na aldeia idealizada por Tulius Detritus. Por obra e graça de Passos Coelho.»

Fernando Sobral

Lido por aí (148)

Cavaco Silva deve condecorar Sócrates como ex-primeiro-ministro?



Parece que se trata do único, entre os 19 chefes dos governos constitucionais posteriores ao 25 de Abril, a não ter recebido (ainda?) «a máxima condecoração atribuída por destacados serviços prestados ao país, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo». A polémica está reaberta e há até quem escreva ao presidente da República, invocando todos os actos meritórios do último chefe de governo socialista.

Antes de mais, nunca me tinha apercebido desta tradição que considero absolutamente patética: bom, mau ou péssimo, qualquer cidadão que tenha exercido determinado cargo deve ser agraciado «por destacados serviços prestados ao país»? Porquê?

Recorda-se que «até» Santana Lopes recebeu a tal Grã-Cruz, apesar do seu curto e atribulado reinado (não das mãos de Sampaio, mas sim Cavaco Silva, cinco anos mais tarde). Portanto, caros socialistas, calma: alguém dará o colarzinho a José Sócrates, mais cedo ou mais tarde! E apertemos os cintos, porque Passos Coelho também o terá, numa próxima curva desta nossa triste historieta.

Aliás, que importância tem, a não ser para as vitrines dos netos, mais colar ou menos colar? Julgavam que isto era mesmo um país a sério? Pois não é.
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27.10.14

Vocações


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Louvores e aplausos, se faz favor


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Nicolau Santos, no Expresso diário de hoje (excertos).
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Lido por aí (147)


@João Abel Manta

* O cão que não ladrou (Francisco Louçã)

* Entre alucinação e miragem (Carvalho da Silva)

* Veinte propuestas de Podemos

União Europeia melancia



«Ronald Reagan chegou à Casa Branca dizendo coisas como estas: o contribuinte é uma pessoa que trabalha para o Governo mas sem ter feito concurso para funcionário. Em vez de se rever nelas, a União Europeia assemelha-se, cada vez mais, a uma melancia. Liberal por fora, bolchevique por dentro. Quanto mais defende o mercado e a livre escolha mais reforça o centralismo das decisões enquanto patrulha tudo o que se move fora das suas leis. (...)

Durão Barroso, em dez anos, mostrou o nível dos dirigentes e o contributo que têm dado para que a Europa seja hoje um museu de cera a nível global. Sabe-se agora que outro iluminado saído dos labirintos escuros de Bruxelas, Jyrki Katainen, e a Direcção-geral dos Assuntos Económicos de Bruxelas, escreveram uma redacção subordinada ao tema "Portugal". Elogia, claro, as "reformas fiscais" e depois, num momento de lucidez típica de Tio Patinhas quando encontra Donald, assegura que Portugal ainda tem "uma margem razoável para aumentar impostos". (...) Claro que é possível tributar mais. Talvez 100% do rendimento de trabalho. Nenhum português perecerá por causa disso. Claro que a UE terá uma solução. Recupera as senhas de racionamento como remédio. Os portugueses viveriam felizes.»

Fernando Sobral

26.10.14

No dia em que deixou a presidência



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Passos Coelho e cisnes brancos



Teimosia não é sinónimo de persistência, nem de tenacidade, e é raramente boa conselheira, sobretudo em épocas difíceis, quando aquilo que está em causa é garantir à governação uma imagem minimamente decente.

Manter Paula Teixeira da Cruz, Nuno Crato e, agora também Rui Machete, à frente de ministérios, depois de tudo o que se passou, é um erro que só vem tornar dramaticamente pior o fim do mandato de Passos Coelho.

Mas não só: afirmações ontem proferidas pelo primeiro-ministro, em que acusa comentadores e jornalistas de serem «patéticos» e «preguiçosos» por não apregoarem os êxitos do executivo, revelam um desespero já não contido, que soa, inequivocamente, a canto do cisne.

Preparemo-nos para o que se segue: em breve, virá a contestação dos resultados das sondagens. Alguém ainda se lembra de Santana Lopes, durante a campanha para as legislativas de 2005, quando afirmou que estava montada «uma megafraude em torno desta matéria» e ameaçou processar as empresas que falhassem previsões face aos resultados eleitorais?

E como se sabe, ao contrário do que reza a lenda, que os cisnes brancos não são mudos, mas que vão soltando, em vida, grunhidos e assobios, lá os vamos ouvindo, todos os dias, quando nos entram pela casa dentro.
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Lido por aí (146)

Liberdade, igualdade e democracia


No Público de hoje, um texto de Francisco Teixeira, que ajuda a pensar sobre conceitos fundamentais: 

«A principal crise do nosso tempo é democrática. Claro que a crise económica potencia a crise democrática. Mas a crise democrática é a mais decisiva das nossas crises. A democracia ocidental estrutura-se essencialmente à volta de três eixos: o eixo da liberdade (de expressão e económica), da igualdade (do equilíbrio na distribuição dos rendimentos económicos e sociais, perante e lei e de dignidades pessoal e familiar) e da democracia em sentido estrito, i.e., no sentido em que os cidadãos legitimam, com as suas escolhas individuais e colectivas, quem governa. Ora, estes três eixos estão em grave risco, senão em desabamento. O impressionante é que uma parte substancial das elites político-económicas se recuse, por um lado, a encarar a evidência destas crises e, por outro, contribua activamente para o seu aprofundamento. (...)

A crise da democracia como crise de legitimidade das formas de governação manifesta-se na crise do sistema representativo de eleição. (...) A ideia de sermos governados por representantes e não directamente tem, no essencial, que ver com duas razões: com a ideia segundo a qual as decisões políticas exigem um certo tipo de mediação discursiva e técnica entre as vontades individuais dos representados e as decisões finais, para as quais os representantes e o seu enquadramento institucional estão especialmente preparados; com a quantidade e complexidade das decisões das sociedades contemporâneas, por definição incompatíveis com as possibilidades decisionais directas. (...)

Por sua vez, a crise da democracia tem directamente que ver com a crise da igualdade como valor fundamental. (...) Quanto mais a democracia deliberativa se rarefaz no regaço de uma oligarquia, mais a desigualdade social e económica se acentuam, através dos mais diversos meios, como seja acabando com os principais instrumentos de ascensão social como a escola pública, o acesso à universidade ou desequilibrando as relação de força entre os empresários e os trabalhadores.

Debilitadas a democracia e a igualdade, a liberdade encolhe necessariamente. Desde logo a liberdade de expressão. (...) A perda da liberdade de expressão manifesta-se também, e talvez fundamentalmente, pela despolitização dos âmbitos sociais públicos e privados, onde as racionalidades que exprimam as conflitualidades e as cisões sociais serão, são, deslegitimadas e, até, proibidas, por instabilizarem aquilo que é dado por politicamente correto, o mesmo é dizer, racional. (...)

Sim, a democracia, a igualdade e a liberdade estão em crise. E sim, há uma divisão entre a direita e a esquerda sobre a natureza destes desafios, que passa pelo reconhecimento da deliberação e participação cívicas, sociais e pessoais, percebendo a necessidade urgente da renovação da mediação e deliberação política institucional, recuperando e rejuvenescendo as velhas tradições republicanas da cidadania activa e das escolhas directas.» 
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