17.12.15

Antes dos smartphones

Anestesia linguística



Ricardo Araújo Pereira na Visão de hoje:

«Toda a gente já percebeu que a vida, em inglês, é mais fácil. As coisas passam a ser outras coisas, embora continuem a ser as mesmas. (...)
Quem trabalha são os trabalhadores, e não há trabalhadores desde a Revolução Industrial. Há project managers, web designers, sales assistants e controllers. Esta gente não vai beber um copo a seguir ao trabalho. vai a um sunset. (...)
Ninguém dá crédito nem atenção a um grupo de pessoas que esteja a tentar começar um negócio, a ver se pega. Mas se o mesmo grupo de pessoas se dedicar a montar uma start-up, será convidada a integrar uma incubadora, com vista à formação de clusters estratégicos que contribuam para a federação de players.»

Na íntegra AQUI.
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Dica (186)



Os vistos e os escondidos. (Mariana Mortágua) 

«Os vistos gold são como os offshores. O problema não está no abuso, mas na sua existência, já que ambos os regimes foram criados para facilitar o abuso.» 
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Marcelo e Shirley Temple



«Muitos anos depois de ter sido uma das crianças-prodígio de Hollywood, Shirley Temple recordou um dos seus dias mais dramáticos: "Eu deixei de acreditar no Pai Natal quando tinha seis anos. A minha mãe levou-me a um centro comercial e ele pediu-me um autógrafo".

Shirley Temple era mais conhecida do que o Pai Natal, e os seus autógrafos eram ouro. Talvez esse seja o grande dilema de Marcelo Rebelo de Sousa: em Portugal é, segundo alguns, mais conhecido do que o Pai Natal e ninguém duvida que ele é o candidato com mais hipóteses de ocupar o posto de Presidente da República em Belém. Maria de Belém ou Sampaio da Nóvoa são menos conhecidos do que o Pai Natal ou Shirley Temple, mas isso também não lhes tira hipóteses. (...)

Vivem-se tempos bem diferentes de quando Shirley Temple cantava a inocente "On the Good Ship Lollipop": o Banif e o sector financeiro mostram dias tempestuosos e de insegurança. Aqueles que Maria Luís Albuquerque e Cavaco Silva diziam ser de sol e de "cofres cheios". A política está de volta. Mas as finanças não se foram embora.»

Fernando Sobral

16.12.15

A coligação acabou – R.I.P.

Marisa Matias, candidata



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José Pacheco Pereira não apoia nenhum candidato a PR

Dica (185)



The Great Greek Bank Robbery. (Yanis Varoufakis) 

 «Since 2008, bank bailouts have entailed a significant transfer of private losses to taxpayers in Europe and the United States. The latest Greek bank bailout constitutes a cautionary tale about how politics – in this case, Europe’s – is geared toward maximizing public losses for questionable private benefits.»
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A voz constipada



«Há quem diga que, quando Frank Sinatra abria a boca, até Deus se calava. Um exagero, talvez. Mas o dono da voz do outro mundo foi um dia surpreendido, sem dizer nada, com um copo de "bourbon" numa mão e um cigarro na outra.

Gay Talese, na "Esquire" viu tudo e escreveu uma reportagem célebre: "Frank Sinatra está resfriado". Na política portuguesa ninguém tem a voz de Sinatra, capaz de calar tudo e todos. Não se poderia esperar tanto: neste sítio os silêncios valem mais do que as afirmações, os olhares iludem cumplicidades antigas, o risco é inimigo da frontalidade. Aqui todos parecem constipados. Sempre.

Carlos Costa não é, nem nunca poderia ser, Frank Sinatra. O mistério que encontramos nas baladas que este cantava não se encontra nas frases do Governador do Banco de Portugal ao longo dos anos. Estas não têm orquestração: são áridas e desinteressantes. Onde Sinatra empolgava, Carlos Costa provoca a compreensão. Sinatra enfrentava os fãs. Carlos Costa esconde-se dos microfones. É certo que Sinatra nunca teve um Novo Banco ou um Banif para resolver. Mas tinha Las Vegas, onde toda a vida sempre foi um jogo. Sinatra constipava-se, uma vez ou outra.

Há muito que Carlos Costa parece viver com a voz resfriada. E, neste momento, ouvi-lo era fulcral. Compreende-se que Carlos Costa não possa emocionar-nos com uma versão de "That's Life", mas poderia tentar surpreender-nos, recitando "My Way". Para percebermos o que tem andado a fazer o BdP nestes últimos tempos, à volta do Novo Banco e do Banif.

Carlos Costa, depois da saída de Maria Luís Albuquerque, deixou de ter uma orquestra empolgante que lhe garantia uma voz perfeita. Não teve a sorte, como Sinatra, de ter um orquestrador como Nelson Riddle para lhe envolver a voz. Ainda assim, neste momento que não é para "swinging lovers", precisava-se de uma voz potente para fazer repousar os ânimos e evitar o nervosismo. Mas o problema é que encontramos, neste momento, um Governador do Banco de Portugal constipado. E sem voz.»

Fernando Sobral

15.12.15

New York, New York




Primeiras décadas do séc. XX.
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Gone with the Wind

Marcelo Rebelo de Sousa, criador de passados



Não valeria a pena recordar factos antigos e de importância secundária, não se desse o caso de Marcelo Rebelo de Sousa nos «prometer» que será presidente desta República dentro de algumas semanas e de isso constituir um perigo real.

Eu tenho uma história para contar sobre a sua veia criativa, não só de futuros possíveis mas também de passados fluidos ou mesmo inexistentes. Ou, se se preferir, sobre a sua enorme capacidade de inventar sempre o lugar em que fique melhor na paisagem. Trata-se de características talvez «louváveis» mas um tanto perigosas quando se tem na mão as rédeas de um país.

Em Março de 2008, uma jornalista do Público inquiriu um grande grupo de pessoas, do qual fiz parte, sobre a forma como tinham reagido à leitura, na Torre do Tombo, dos processos elaborados pela PIDE a seu respeito. Do referido grupo fazia parte MRS e algumas das suas declarações foram extraordinárias pela imaginação que revelavam. (O dossier está online, com destaque, a vermelho, para o que se refere a MRS, mas copio para aqui um excerto)

«O professor de Direito e conhecido comentador televisivo descobriu que foi vigiado de perto a partir da altura em que entrou para a Faculdade de Direito: "Penso que nasci para a PIDE aos 16 anos." O pai de Marcelo, Baltazar Rebelo de Sousa, foi governador-geral de Moçambique, ministro da Saúde e depois do Ultramar. Era um dignitário do regime, o que nunca era esquecido nas anotações que a PIDE fazia sobre o filho, que alinhava pela oposição liberal.

Uma aproximação à descrição que era feita dele nas notas da polícia: "Fulano de tal [eu], que tem ideias perigosas, por sinal filho de Sua Excelência o Sr. Governador ou Ministro, consoante as alturas, estava a distribuir propaganda subversiva no dia x às tantas horas" ou a "colar cartazes" - o que se fazia de madrugada, mas nem por isso deixavam de aparecer as horas certas mencionadas.»

As reacções não se fizeram esperar, primeiro no blogue de Vítor Dias «O Tempo das Cerejas» (que, por azar tecnológico, deixou de estar acessível na sua primeira versão), depois neste, em cadeias de mails trocados com a jornalista que elaborou o dossier, finalmente em cartas ao director do jornal, de Vítor Dias e minha, que foram publicadas pelo menos parcialmente.

Retomo parte do que então escrevi:

É natural que MRS tenha processos abertos na PIDE e que lá estejam alguns dos factos que vêm relatados no Público. Mas não todos. Choca, sobretudo, a impressão geral de história oposicionista que quer deixar no leitor. Ninguém é obrigado a ter passados "com bom aspecto", o que não vale é burilá-los.

Por exemplo: MRS diz que «nasceu para a PIDE» aos 16 anos (em 1964, portanto) porque, enquanto o pai era dignitário do regime, ele pertencia à «oposição liberal». Oposição liberal em 1964? Alguém se lembra do que poderá ter sido? Se pretende referir-se à ala liberal de Marcelo Caetano, essa só nasceu uns cinco anos mais tarde.

Diz também que a PIDE registou que ele, de «ideias perigosas», era visto a colar cartazes e a distribuir propaganda subversiva de madrugada. Cartazes? Como escreveu Vítor Dias, só se fossem recreativos. Outros só foram permitidos, e poucos, nas campanhas eleitorais de 1969 e de 1973 e, aí, ninguém viu MRS do lado das oposições – nem a PIDE! Propaganda subversiva? De que organizações: do PCP, maoistas? Dos católicos progressistas, garanto eu que não eram. Etc., etc., etc.

MRS acabou por responder, em carta ao jornal, na qual referia que as «actividades subversivas» a que aludira se relacionavam com uma associação estudantil, denominada ADOC (???), a que pertencera.

N.B. – José Pacheco Pereira reuniu quase todos os textos desta polémica, que os mais curiosos podem ler AQUI.
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