29.12.15

Com amigos como Marcelo, o SNS não precisa de inimigos



«Perante as desgraças ocorridas no Serviço Nacional de Saúde em consequência dos cortes determinados pelo Governo PSD/CDS veio Marcelo Rebelo de Sousa afirmar-se um defensor do Estado Social e lembrar que até votou a favor da Constituição.

Deixemos para depois tudo o que o PSD fez para torpedear a entrada em vigor da Constituição e as tentativas golpistas que fez para a revogar por via referendária e fiquemos para já por Marcelo e pelo SNS.

Era Marcelo o líder do PSD, em 1996 e 1997, quando decorreu a IV revisão constitucional. O Projecto do PSD propunha nada menos que a eliminação da gratuitidade tendencial do Serviço Nacional de Saúde (já a transformação da gratuitidade em tendencial tinha sido proposta pelo PSD na revisão de 1989 e aceite então pelo PS). Em 1996 o PSD pretendia acabar com a gratuitidade, mesmo que tendencial.

Essa proposta do PSD foi amplamente debatida na Comissão Eventual de Revisão em 25/09/1996 e foi aí rejeitada pelo PCP e pelo PS em 14/05/1997 após um debate em que o PSD (pela voz de Marques Guedes) a defendeu energicamente.

Em plenário, o CDS fez sua a proposta do PSD, que foi votada favoravelmente pelo PSD e pelo CDS e rejeitada pelo PCP e pelo PS, não tendo obtido a necessária maioria de dois terços.

Marcelo Rebelo de Sousa era líder do PSD, que pretendia eliminar da Constituição a gratuitidade tendencial do SNS. Tão amigo que ele é agora do Estado Social.»

António Filipe, deputado do PCP, ontem no Facebook.
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Dica (191)




«Desculpem, mas não há peru, rabanadas e lampreias de ovos que me façam passar o engulho da factura que neste final do ano veio parar outra vez aos bolsos dos contribuintes por mais um banco que entrega a alma ao criador, no caso o Banif, no caso mais 3 mil milhões. É de mais, é inaceitável, é uma ignomínia para todos os que estão desempregados ou caíram no limiar da pobreza por causa desta crise e mais uma violência brutal para os que continuam a pagar impostos (e que são apenas cerca de 50% de todos os contribuintes).» 
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A ideologia e a realidade



«À guisa de brinde de fim de ano, Cavaco Silva decidiu oferecer-nos mais uma pérola na intervenção que fez, na semana passada, no encerramento do Conselho da Diáspora. "Observando a zona euro”, disse o PR, “verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba sempre por ser derrotada pela realidade".

O tópico é um dos temas fetiche de Cavaco Silva, mas é significativo que, em fim de mandato, o PR queira sublinhar o pouco que evoluiu ao longo da sua vida política. Para Cavaco, existe uma única maneira de ver o mundo e de tomar decisões, uma única maneira de pensar e de sentir, uma única perspectiva possível, um único interesse possível, um único objectivo possível, uma única atitude: a sua. Ele marcha bem, os outros marcham mal. Como o próprio explicou uma vez, Cavaco acha que duas pessoas que possuam a mesma informação não podem deixar de decidir a mesma coisa. Não querendo atrever-se a afirmar que a sua ideologia e que os seus interesses são melhores que os outros, Cavaco coloca-se, como sempre fez, fora do mundo, acima do mundo, acima da política, acima da ideologia. As suas opiniões não são opiniões, são factos. Ele não é político, não é ideológico, não defende interesses particulares. Os outros sim. A sua política é a política que é, a dos outros a política que não pode ser. Ele é… Deus.

Para Cavaco, a realidade impõe todas as escolhas e a política poderia reduzir-se a um programa de computador, alimentado pela informação relevante. Para Cavaco não há várias escolhas possíveis porque a realidade proíbe as escolhas. Cavaco é figadalmente contra a democracia, contra a possibilidade de escolher. A própria ideia de escolha e de vontade é infantil, impossível. E, quem tenta escolher, quem tenta moldar o presente e o futuro de acordo com a sua visão do mundo e a vontade dos cidadãos, choca contra a brutal violência da realidade, deixando “facturas por pagar”. Para Cavaco, a Natureza tem horror às escolhas. Cavaco finge que não sabe que cada um de nós tem interesses e desejos diversos, que diferentes grupos sociais têm diferentes visões e objectivos. Cavaco quer convencer-nos de que a política consiste em fazer sempre o jogo do mais forte, da “realidade”, em nunca tentar escolher. Cavaco é um colaboracionista na alma, sempre obedecendo ao mais forte e tentando convencer-nos a obedecer também, a nunca pensar, a não desejar.»

José Vítor Malheiros

28.12.15

Et maintenant, que vais-je faire

Boas Entradas antecipadas


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E Marcelo também vai lá chegar?


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Dica (190)



Desistências presidenciais. (Francisco Louçã) 

«Se algum candidato ou candidata desistir, é porque quer favorecer a vitória de Marcelo Rebelo de Sousa na primeira volta. Como o seu eleitorado é transversal e tem sido um êxito a sua afirmação como “anti-Cavaco” ou pelo menos como “pós-Cavaco”, quem quer que se retire, deixando de polarizar votos, favorece a abstenção, perde votos até para Marcelo e só ajuda marginalmente outros candidatos … que demonstraram que são incapazes de ser suficientemente polarizadores por si mesmos, ou seja, que se mostram derrotados.

Mais vale que se trate a ideia da desistência como ela merece: os únicos candidatos que são pressionados a desistir pelos eleitores da sua própria área são os do PS, porque as suas candidaturas não definiram um campo forte nas eleições presidenciais. Esses eleitores sentem que o PS desistiu das presidenciais. É um erro pensar que algum acontecimento mágico vai resolver o problema criado pelo seu fracasso. Mais vale que os candidatos e candidatas deitem as mãos à obra.» 
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Tempo de brindes e favas



«Há uma tradição que se perdeu. Os bolos-reis deixaram, talvez por não ser politicamente correcto, de ter brindes e favas. Ou talvez porque os brindes deixaram de sair aos portugueses. E estes só têm de se contentar com favas sucessivas: são eles que pagam sempre os desvarios alheios.

Neste Natal após a "saída limpa", que agora parece ter sido uma "saída encardida", a fava maior foi a do Banif, óptima para pensarmos na consoada sobre o que não desejaríamos para Portugal nem em 2016, nem nos próximos anos. Sobretudo não desejaríamos que a elite fosse económica com a verdade. E que a partilhasse. Algo que só faz no momento de aumentar impostos e de pedir mais sacrifícios a um país pobre. A fava do Banif saiu ao novo Governo, porque o anterior preferiu, com a militante ajuda do Banco de Portugal, apresentar apenas brindes. (…)

O último momento de humor foi da responsabilidade de Cavaco Silva que veio dizer que "observando a Zona Euro, verificamos que a governação ideológica pode durar algum tempo, faz os seus estragos na economia, deixa facturas por pagar, mas acaba por ser derrotada pela realidade". Julgar-se-ia que Cavaco estava a disparar na direcção do Governo de Passos Coelho, o mais ideológico desde o de Vasco Gonçalves, mas não. Os seus alvos são os gregos e, presume-se, António Costa. Há quem não entenda que o pragmatismo é uma fava.»

Fernando Sobral

27.12.15

Dica (189)





«“Vamos fazê-lo como apoio ao programa anti-austeridade [do Governo português]. Estamos a criar uma coligação anti-austeridade por toda a Europa”, disse Jeremy Corbyn ao MorningStar.

“O Governo grego passou por um período terrível e o Banco Central Europeu tratou-o de forma vergonhosa. O caso mais interessante na Europa é agora o do Governo português e o seu programa anti-austeridade”, comentou ainda o líder trabalhista.» 
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Alípio de Freitas – RTP2, hoje, pelas 21:30



Documentário sobre Alípio de Freitas

Para lá da personagem que lutou, o filme é um espaço de encontro e diálogo com a pessoa de Alípio que continua ainda hoje a combater, porventura usando ferramentas diferentes, mas movido pela mesma perseverança.Em Portugal era padre, no Brasil foi revolucionário. Alípio de Freitas mudou-se de Bragança para São Luís do Maranhão em 1957. Deixou a pobreza para viver no meio da miséria. O golpe militar de 1964, que depôs João Goulart, afastou o padre português da igreja e aproximou-o dos comunistas. Zeca Afonso dedicou-lhe uma canção, depois de ele ter sido preso e torturado em 1970. O realizador Tiago Afonso ouviu as suas memórias e os seus ideais. Alípio continua a combater, mas agora usa outras armas.

(Daqui)


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Acudam à direita que a matam!



Uma «pérola» de Rui Cardoso Martins, no Público de hoje.

«Defenestrada a PàF do Palácio do Governo, sequestrado o PS pela, ai que horror Virgem Santíssima, esquerda comunista, só faltava a Paulo Vírgula Portas um novo submarino a explodir na cara dos portugueses: o Banif.»


Na íntegra AQUI.
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O ano em que tudo mudou



Vale muito a pena ler o texto de São José Almeida no Público de hoje. Uma espécie de resumo da matéria, não dada mas vivida.

Excertos:

«Se há um ano lhe dissessem que Pedro Passos Coelho ganhava as eleições legislativas de 2015 e que António Costa as perderia, acreditava? E se lhe acrescentassem que Passos tomaria posse como primeiro-ministro para, passados 12 dias, cair no Parlamento perante uma moção de rejeição do programa de Governo apresentada pelo PS e aprovada com o voto favorável do BE, do PCP e do PEV, daria uma gargalhada de incredulidade? E se lhe assegurassem que horas antes da votação o PS assinou com o BE, o PCP e o PEV, acordos bilaterais, abriria a boca de espanto? E se lhe avançassem em seguida que, apesar de o PS ser o segundo partido no ranking eleitoral, Costa seria empossado primeiro-ministro e o seu programa de Governo salvo no hemiciclo pelo BE, pelo PCP e pelo PEV, da moção de rejeição apresentada pelo PSD e pelo CDS, escangalhava-se a rir?

Pois é. Sem que ninguém sequer imaginasse possível, 2015 foi um ano cheio no domínio da política e nem as mais ousadas previsões conseguiram antecipar a reviravolta que o país viveu. Uma reviravolta que não é apenas formal e reduzível a jogos partidários e parlamentares, representa um corte real com uma maneira de fazer política e uma alteração estrutural no modelo de funcionamento do sistema político português.

De um momento para outro, a forma de funcionar da política institucional mudou. Há quem atribua a viragem a uma necessidade de sobrevivência política e à fome de poder do líder do PS. Mas a facilidade com que Costa o fez indicia que houve uma ruptura mais profunda e que o secretário-geral dos socialistas apenas surfou a onda que já estava em formação. Isto é, que a radicalização à direita que representou a governação do Governo conjunto do PSD e CDS, provocou a resposta à esquerda e abriu espaço a uma mudança no PS que possibilitou o entendimento deste partido com as formações da extrema-esquerda parlamentar. (…)

Quando se viu perder eleições e apenas com 86 deputados (em 2001 tinha tido 74), Costa olhou em volta e avançou para abrir um caminho até então nunca realmente tentado, um acordo à esquerda. Mas ao nível do que é a mudança de regime não basta a disponibilidade de António Costa para fazer história, ou segundo outras análises, a sua vontade de ser poder a todo o custo. Há um factor decisivo: a disponibilidade do PCP para permitir que o PS seja Governo. (…)

Depois de ter sido ultrapassado pelo BE e pelo CDS em número de deputados, ainda que a CDU tenha ganho mais um mandato parlamentar, num total de 17, para obter os seus objectivos estratégicos, o PCP alterou a sua posição táctica e estendeu a passadeira vermelha a Costa. E até o PEV, que ocupa dois dos mandatos conquistados pela CDU ganhou o protagonismo de assinar um acordo com o PS.

Determinante para a solução de Governo do PS com apoio à esquerda no Parlamento foi a anuência do BE. Aliás, a forma como o Bloco de Esquerda deu a volta por cima é um dos acontecimentos políticos do ano. Depois de em Novembro de 2014 ter saído dividido do Congresso e com uma solução de liderança fragilizada que apostava numa direcção colegial e em manter Catarina Martins como porta-voz, o Bloco recuperou eleitoralmente, transformando-se no terceiro partido e mais que duplicando o número de deputados passando de 8 para 19. (…)

Um dos momentos em que Catarina Martins marcou pontos na campanha foi precisamente quando, no final do debate televisivo com Costa atirou para cima da mesa a garantia de que o BE apoiaria um Governo do PS mediante três condições: os socialistas deixarem cair a baixa da TSU, o congelamento e novos cortes nas pensões e prestações sociais e o regime conciliatório de cessação de contractos laborais.» 
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