31.5.16

O FMI no imbróglio grego e as lições para Portugal



«O FMI está numa crise de identidade e quem lê o Jornal de Negócios não estranhará essa conclusão, que releio a partir de uma análise que publiquei recentemente (deixo a discussão do que se passa na União Europeia para outras núpcias).

Por muito tempo, o Fundo foi um pilar dos "programas de ajustamento" que, testados em África e na América Latina, conduziram sempre a um mesmo resultado, transferência de rendimento para o topo da escala, destruição da pequena agricultura e urbanização, privatizações e especialização de cada economia no sector exportador, com consequências sociais devastadoras no empobrecimento e desemprego para parte importante da população. Mais recentemente, esta competência técnica foi usada para desenhar os programas para a Grécia, Irlanda e Portugal, e o resultado foi do mesmo tipo, ajustamento recessivo. Mas nem num caso nem noutro, no "Terceiro Mundo" ou na Europa, nunca os dirigentes do FMI mostraram alguma vulnerabilidade em relação aos efeitos da sua política. Até aos dias de hoje. (…)

Alguns dos dirigentes do FMI parecem por isso ter percebido agora a crise que têm em mãos. (…) Não é difícil concluir que estas palavras e boas intenções têm por ora pouco impacto. Quando o Fundo está a conduzir uma política concreta num programa para um país, estes protestos de generosidade social são evidentemente ignorados. (…)

No meio dos arrependimentos, chega entretanto a vez do susto. Durante a recente conferência para apresentação das previsões para 2016, Maurice Obstfeld, o economista-chefe do FMI, reconheceu que já temos crescimento muito débil desde há demasiado tempo e que esse resultado está ligado a baixos salários, além de criar a ideia de que elite económica é que beneficiou do tempo da austeridade (conferência de imprensa de 12 de abril de 2016). O Boletim do FMI, do dia seguinte, vai mais longe e reconhece uma deterioração da dívida pública, de novo (Boletim do FMI, 13 de abril de 2016). Um estudo de uma equipa do FMI considerava mesmo que uma das causas da recessão é o aumento da desigualdade nos últimos anos. Não saímos da cepa torta.

O FMI sugere uma solução: aumentar o investimento em infraestruturas, sobretudo o investimento público, ou seja, expandir os orçamentos (FMI, World Economic Outlook, cap. 3, outubro 2014). Por outras palavras, fazer exactamente o contrário do que tem vindo a impor aos vários países.

Será suficiente? Depende. William White, da OCDE, avisa que a próxima crise pode ser pior do que a de 2007 (podemos ter bancarrotas "épicas", diz ele). Talvez tudo resulte de ter sido fácil demais: lucros exagerados, sugere o The Economist, e especulação sem freio.

Era exactamente o que o FMI preconizava: libertem os capitais de regulamentos e restrições, soltem o monstro e teremos prosperidade. O resultado é o que está à vista e o FMI assusta-se com a sua criatura. Portugal, uma das cobaias desta operação, bem faria em atentar no fracasso do FMI.»

Francisco Louçã
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30.5.16

Marcelo no Museu de Cera


(Expresso diário, 30.05.2016)

O presidente da República vai ter uma escultura no Museu de Cera em Madrid. Vale a pena ler a notícia, mas houve algo que me espantou: diz Marcelo que o facto de dormir apenas três horas e meia ou quatro é «consequência da Revolução (25 de Abril de 1974) e do jornalismo». Do 25 de Abril? Tirou-lhe o sono?
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Dica (308)




«Nas negociações com a Turquia sobre a crise de refugiados, a Europa perdeu a superioridade moral. No início do ano, a União Europeia estava paralisada pela perspetiva de três ameaças simultâneas e potencialmente destrutivas: grexit, brexit e a crise de refugiados. Desde então, uma delas tem diminuído de intensidade, mas não desapareceu; a segunda permanece por decidir; e a outra está em perigo de explodir.» 
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O nosso homem em Berlim a tentar convencer a dona da Europa



«O nosso homem chegou ontem a Berlim, ao fim da tarde, com uma missão muito difícil, mas não confidencial. Todos sabemos que vai tentar convencer a dona da Europa a não aplicar sanções a Portugal por não ter cumprido o défice de 3% em 2015. E que vai também tentar sensibilizá-la para a ideia de que não faz sentido o Estado português, único acionista da Caixa Geral de Depósitos, não poder proceder ao aumento de capital da instituição.

Confiamos todos que o nosso agente em Berlim tenha sucesso na sua missão. A sua capacidade argumentativa e a sua simpatia são seguramente trunfos importantes com que jogará. Mas só no final de junho, após as eleições legislativas em Espanha, é que se saberá se o Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, teve êxito na sua missão junto da chanceler alemã, Angela Merkel. (…)

Marcelo é suficientemente diplomata para não lembrar a Merkel que, se vamos por aí, também a Alemanha deveria ser sancionada por acumular excedentes comerciais excessivos, acima do previsto pelos tratados europeus, desde há vários anos. Esperemos, contudo, que diga à senhora que manda na Europa que o anterior Governo português aplicou integralmente e para lá do que a troika, Bruxelas e Berlim queriam, a política de austeridade que preconizaram – pelo que sancionar Portugal pelos resultados de 2015 é sancionar também essa política. (…)

Terça-feira já teremos de volta o nosso enviado a Berlim. E nessa altura começaremos a saber se a sua missão foi coroada de sucesso.»

Nicolau Santos, no Expresso curto de 30.05.2016.
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Estivadores



Um belo texto. Recomendado.

O conflito portuário: vale a pena lutar!

O umbigo da Europa



«Os umbigos são, por natureza, pequenos. Aliás, os umbigos não servem rigorosamente para nada. São apenas uma cicatriz deixada pelo cordão umbilical, uma marca perene da ligação à mãe.

Por estes dias, a eventualidade da aplicação de sanções a Portugal por parte da Comissão Europeia é o umbigo de que se fala. Por cá e na severa Europa, que insiste em estrear este tipo de medida com Portugal.

Este umbigo distrai-nos do essencial. A Comissão está preocupada com umas décimas e presume que está aqui, na aplicação de uma sanção, a panaceia para todos os males. Não está.

O que por estes dias realmente perturba a construção europeia é bem mais significativo. A começar pela Espanha que, mesmo depois das eleições marcadas para 26 de Junho, poderá continuar num impasse governativo cujas consequências, sendo imprevisíveis, serão certamente negativas.

Antes disso, a 23 de Junho, a Europa ainda terá de assistir ao referendo no Reino Unido sobre a permanência, ou não, do país, na União Europeia. A vitória do não terá um efeito avassalador, obrigando a redesenhar uma União que ficará politicamente desequilibrada e poderá tornar os países do Sul da Europa ainda mais periféricos ao olhar de Bruxelas.

Em França, assiste-se a um brutal clima de convulsão social, com o país paralisado à conta de uma nova lei laboral que os sindicatos contestam com veemência nas ruas. O crescimento da economia está a abrandar e o presidente François Hollande surge cada vez mais manietado. As dificuldades francesas, a terceira maior economia da Europa, são um mau sinal para a coesão da União.

Depois, a Europa tem ainda que se haver com o problema dos refugiados. O Mediterrâneo continua a ser uma vala comum para milhares de pessoas que fogem da guerra, sem que se vislumbre uma solução duradoura para este flagelo. As mortes no Mediterrâneo passaram a ser de tal forma recorrentes que vão perdendo peso nos noticiários europeus. O horror transformou-se em rotina.

A tibieza que Bruxelas tem revelado nestas matérias, por contraste com a pesporrência em relação a Portugal, essa sim é inquietante, porque denuncia uma falta de visão de futuro da União Europeia. O mundo da Europa é bem maior do que o umbigo dos seus líderes. É esta a premissa que está a faltar.»

29.5.16

Isto é um Hino?




Não dá para substituir pela Casa da Mariquinhas?
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O cardeal Clemente e os colégios



Não vislumbrei o cardeal nos degraus do Parlamento, mas talvez lá tenha estado assim, vestidinho de amarelo.

Que a Conferência Episcopal tenha apoiado expressamente a manifestação de hoje (e a notícia não é fruto de manobra de jornalistas, é da sua própria agência de informação), é inédito e absolutamente vergonhoso. Nunca fez algo de paralelo quando se tratou de protestos contra o empobrecimento da população portuguesa, ocorrido nos últimos anos, contra a emigração forçada de centenas de milhares de portugueses, etc., etc.

Ainda bem que os bispos portugueses mostram de que lado estão e quais são as suas escolhas. Quanto menos pessoas forem enganadas, melhor será para a sanidade deste pobre país.
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E hoje é dia dele (de futebol)



«Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador de futebol. Jogava muito bem, era uma maravilha, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna de pau que já passou pelos campos do meu país. Como adepto, também deixava muito a desejar.(...)

Os anos passaram e, com o tempo, acabei por assumir a minha identidade: não passo de um mendigo de bom futebol. Ando pelo mundo de chapéu na mão e nos estádios suplico:
– Uma linda jogada, pelo amor de Deus! 
E quando acontece o bom futebol, agradeço o milagre – sem me importar com o clube ou o país que o oferece.»

Eduardo Galeano, Futebol, Sol e Sombra.

Temas realmente importantes

Dica (307)




«But while we haven’t had many business leaders in the White House, we do know what kind of advice prominent businessmen give on economic policy. And it’s often startlingly bad, for two reasons. One is that wealthy, powerful people sometimes don’t know what they don’t know — and who’s going to tell them? The other is that a country is nothing like a corporation, and running a national economy is nothing like running a business.» 
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Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos



«Em 1977 o grupo Banda do Casaco editou um álbum histórico: "Hoje há conquilhas, amanhã não sabemos". Era quase premonitório do que se iria passar.

Nesse ano passou discretamente por Portugal uma missão do FMI, que voltaria em força anos depois para "salvar" o país dos problemas financeiros e dar o discreto aval ao Governo do Bloco Central que haveria de preparar o terreno para a entrada na CEE. E na camisa-de-forças que, a troco de fundo estruturais sem fim (…), entrámos. E de onde só muito dificilmente sairemos. (…) É certo que há uma elite política que defende que Portugal deve estar subordinada às ideias e aos ditames da Europa, mas é isso que tem levado a esta sangria que nos custou em grande parte o BES, o Banif e o que adiante se verá. O que suceder à CGD demonstrará que autonomia ainda teremos até sermos uma província de Bruxelas.

Tudo isto pode parecer um pensamento radical, mas o certo é que a troco de conquilhas imediatas colocámos nas mãos dos superiores interesses da Alemanha o nosso destino como nação soberana há mais de 900 anos. Não é coisa de somenos. Tal como a destruição de valor acumulado por gerações, como sucedeu no caso extremo da PT (sem consequências legais para ninguém) ou nos milhares de pequenos investidores no BES ou no Banif. A pouca riqueza portuguesa evaporou-se sem consequências. Não admira que, a continuar a pressão europeia, que poderá por em causa a continuidade do Governo de António Costa, Portugal poderá ser apenas um pequeno reduto periférico que pouco valor tem para uma Europa construída à volta da estratégia de Berlim. Onde a periferia deixou de ser relevante. (…)

Não andamos muito longe de nos confrontamos novamente com decisões históricas que muito têm a ver com o esgotamento da nossa presença na União Europeia e na zona euro. A menos que desejemos continuar esta forma de ficção em forma de tutela em troca de algumas conquilhas de duvidosa qualidade que servem apenas para ir aumentando a nossa dívida e hipoteca nacional.»

Fernando Sobral