25.10.16

Tudo bons rapazes



«A lei proposta pelo Governo e apoiada pelo PS é inaceitável, já que exclui os gestores do Estatuto do Gestor Público e retira qualquer limitação aos salários. Mas a anterior lei do PSD não resolvia o problema: os gestores podiam receber a média dos últimos três anos. Ou seja, se Mexia fosse contratado para a Caixa, a lei do PSD permitia que viesse a receber 2,5 milhões por ano.»
Mariana Mortágua
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O mágico de Oz e a CGD



«O mágico de Oz vive de equívocos: foi levado por um balão desgovernado para ali, onde finge ser um poderoso feiticeiro a partir dos múltiplos truques que cria.

Assim governa Oz, até que surge a menina Dorothy. Para realizar o sonho desta, regressar a casa, o mágico tem de regressar ao mundo real. E deixar-se de ilusões. É este o dilema actual de Passos Coelho. Esperou durante um ano, de calculadora na mão, que o Governo caísse, por acção externa ou interna. Não desabou porque quer a política, quer a economia, não são ciências exactas. Durante todo esse tempo as intervenções importantes de Passos Coelho podem ser sintetizadas em sete entradas de Twitter e ainda sobram caracteres. Um ano depois, mudou de táctica. Agora fala sobre tudo. (…)

O novo cisma de Passos Coelho são os salários dos administradores da CGD. É um tema que aquece o sangue a qualquer português, especialmente nestes anos de austeridade. Passos parece ser sensato, coisa que o Governo não foi: ordenados destes precisam de explicações políticas transparentes. Sob pena de parecerem, aos olhos dos portugueses, um exercício de novo-riquismo. A questão é que Passos Coelho dispara mais longe: quer acertar não num pombo, mas num bando de pássaros. Ou seja, na recapitalização urgente da CGD. E aí espalha-se ao comprido, porque o chumbo da carabina acerta nos seus pés. O Governo de Passos Coelho empurrou com a barriga problemas como o do Banif e da CGD. Que tinham de rebentar, mais dia, menos dia. Aqui termina a magia do feiticeiro de Oz. Ou de Passos Coelho. O líder do PSD quer criar um grande movimento nacional contra um salário. O problema é que acerta no futuro da CGD, aquela entidade que um dia queria privatizar. Talvez devesse escutar Marcelo Rebelo de Sousa. Que, sensatamente, disse ao Governo que os salários deveriam ter que ver com os resultados.»

24.10.16

Merci, Wallonie

Calais



A evacuação começou hoje e foi assim o primeiro dia. Comentários para quê.
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Dica (421)




«La decisión de los socialistas desbloquea por sí misma la formación de Gobierno, independientemente de la posición que adopte Ciudadanos en la votación de investidura. Si los diputados del PSOE se abstienen en bloque, el PP no necesitará el voto afirmativo de los 32 representantes de esta formación para que su candidato se mantenga en La Moncloa. Ciudadanos, a su vez, espera que Rajoy decida mantener su compromiso con las 150 medidas que recoge el pacto que firmó en agosto con Rivera. En ese caso, volverá a votar a favor.
Pablo Iglesias, secretario general de Podemos, aprovechó en cambio esta circunstancia para reafirmar el discurso que lleva preparando desde hace años: en su opinión el PSOE se ha mimetizado con el PP y les ha dejado al menos una parte de su espacio político. “Hoy se constata el fin del turnismo como sistema de partidos; nace una gran coalición que nos tendrá enfrente como alternativa”, escribió en Twitter.» 
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CGD: Tudo legal, mais do que legal



Nós é que somos mesquinhos. E parvos também.
(Eu ainda sou do tempo em que existiam sindicatos bancários.)


«Ao salário mensal de 30 mil euros como presidente da CGD, António Domingues vai poder juntar a partir de Janeiro a pensão a que tem direito pelos descontos efectuados ao longo da carreira contributiva no BPI.»

Além disso: o Decreto-Lei n.º 39/2016, de 28 de Julho, isenta os administradores da CGD de um série de deveres dos gestores públicos.
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O marxismo do PSD



«Pode dizer-se que um partido está em bancarrota existencial quando o seu líder e um ex-candidato a chefe se colocam no camarote dos irmãos Marx e começam a repartir entre si os papéis destes.

As duas entrevistas, de Passos Coelho e de Aguiar-Branco, na sexta-feira, mostram que ambos gostariam de ser Groucho Marx. Passos Coelho fica-se, com a sua bondade muda e catastrófica, utilizando buzinas de bicicleta que já ninguém consegue ouvir, por ser Harpo. Aguiar-Branco, mais militante, só consegue ser Chico, conhecido pelo seu falso sotaque italiano. Este prefere sovar tudo o que mexe. São duas facções marxistas dentro do PSD que temos de respeitar. Passos Coelho repete o seu discurso de há um ano, onde só se fala de macroeconomia e se esquece o desemprego, a pobreza ou a esperança. É uma buzina ensurdecedora. Já Aguiar-Branco, transformado em ideólogo do marxismo passista, prefere a contundência: "Debaixo da pele de cordeiro social-democrata, António Costa é um lobo marxista."

Escondam as avozinhas e as criancinhas! E os porquinhos, porque estes também não têm onde se esconder! Ficamos descansados: Aguiar-Branco confessa que nunca será "o António Costa do PSD". Não será, porque em vez de ir combater para ser presidente de uma Câmara Municipal (coisa onde deveria dar o exemplo, como líder nacional) vai antes concorrer a uma Assembleia Municipal. Assim nunca será Costa. Nem Brutus. O que sossegará Passos Coelho. Afinal depois de descobrir que António Costa é um "lobo marxista", que devora sociais-democratas ao pequeno-almoço, Aguiar-Branco poderá quanto muito candidatar-se a pequeno ou médio intelectual do PSD. Porque ele vislumbra algo impossível de descobrir: Costa pode ser acusado de muitas coisas, mas de ser um lobo marxista é um manifesto erro de óptica. Com mais facilidade, Aguiar-Branco pode ser acusado de ser marxista (facção Chico ou, se nos esforçarmos muito, Harpo). Porque aquilo que debita na entrevista mostra o problema do PSD: a falta de ideias para ser uma alternativa credível.»

Fernando Sobral

23.10.16

A França no seu labirinto

Ai PSOE, PSOE!…




Por 43 votos, talvez a Espanha tenha decidido hoje o primeiro dia do resto de uma outra vida. Alô, Pasok? 
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«Revolução Húngara»: foi há 60 anos



A chamada «Revolução Húngara» começou numa terça-feira, 23 de Outubro de 1956, no centro de Budapeste, com uma manifestação de milhares de estudantes que tentaram ocupar a rádio para transmitirem as suas exigências: fim da ocupação soviética e a implantação de um «verdadeiro socialismo». Foram detidos e quem do lado de fora exigia a sua libertação foi alvejado pela polícia a partir do interior do prédio.

Espalhada a notícia, a revolta alastrou primeiro a toda a cidade de Budapeste e depois ao resto do país, provocou a queda do governo e a sua substituição. Mas em 4 de Novembro deu-se a invasão pelas tropas do Pacto de Varsóvia e a resistência não durou mais de seis dias.

Pouco mais de duas semanas, portanto, que se saldaram por duas dezenas de milhares de mortos e por um verdadeiro êxodo de cerca de 200.000 húngaros, sobretudo jovens, que fugiram do país e pediram asilo um pouco por toda a Europa e também na América, do Norte ao Sul. Conheci uns tantos na Universidade de Lovaina, uns anos mais tarde, e já falei dessa experiência neste blogue.

Hoje a Hungria tem um governo que é talvez o mais sinistro de toda a União Europeia, sem que esta pareça importar-se suficientemente com o facto, líder de uma política militante de rejeição de refugiados e de construção de muros que os deixem à porta. Os estudantes de 56 são agora velhos ou já morreram. Gostava bem de saber o que pensam disto tudo os meus amigos Eva, Nicholas e Elisabete, mas perdi-lhes o rasto… 
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Dica (420)




«Slavoj Žižek on refugees, Bernie Sanders, and the American pol who scares him worse than Donald Trump.
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O grau zero da democracia



«Que uma personagem tão caricatural, execrável e inverosímil como Donald Trump possa aspirar a ser Presidente da maior potência ocidental – e arraste atrás de si tantos milhões de eleitores, embora insuficientes, felizmente, para garantir-lhe a vitória – é um sinal alarmante da degradação da democracia na América. Mas se pensarmos que esse sinal já se projecta noutras regiões do planeta, desde a Ásia à própria Europa, então os motivos de preocupação ganham proporções inéditas nas últimas décadas, mais concretamente desde o pós-Guerra. (…)

Estaremos, assim, perante uma crise global das democracias, um canto do cisne das promessas da globalização do mercado livre e, por extensão irresistível, das sociedades abertas em que ele deveria, supostamente, prosperar?

Ora, precisamente, um denominador comum deste fenómeno é a tendência crescente para o isolacionismo, o fechamento das fronteiras, o temor do estrangeiro – alimentado, é certo, pelo terrorismo – e, last but not the least, a recusa da globalização. Uma globalização que, cavalgando na onda do capitalismo financeiro e da desregulação dos mercados, foi ampliando o número daqueles que dela se sentem excluídos e vítimas, com ou sem razão objectiva – mas reféns de fantasmas que os aprisionam nos seus medos.

É o desnorte da globalização, com as suas insustentáveis assimetrias, que favorece a emergência de um Putin – ou de um Trump. (…)

A 8 de Novembro os americanos vão votar em dois candidatos nos quais, segundo as sondagens, uma significativa maioria deles não confia. Trump é o que se sabe, mas Hillary Clinton – que, em circunstâncias normais, deveria ganhar por larguíssima maioria face a um perigoso marginal – não escapa ao estigma da duplicidade, do cinismo e da promiscuidade de interesses que acabaram por moldar o perfil mais sombrio da sua personalidade. (…)

Se fosse americano, votaria decerto em Hillary, mas por defeito. Para tentar escapar ao grau zero da democracia que ameaça a América – e o mundo.»

Vicente Jorge Silva