13.12.16

Dica (456)




«Our political masters are in league with the Syrian rebels, and for the same reason as the rebels kidnap their victims – Money.»
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A poesia vai acabar?



Não sei se «a poesia vai acabar», mas ela é certamente importante hoje, quando o silêncio faz tanta falta. 

A Poesia Vai Acabar

A poesia vai acabar, os poetas
vão ser colocados em lugares mais úteis.
Por exemplo, observadores de pássaros
(enquanto os pássaros não
acabarem). Esta certeza tive-a hoje ao
entrar numa repartição pública.
Um senhor míope atendia devagar
ao balcão; eu perguntei: «Que fez algum
poeta por este senhor?» E a pergunta
afligiu-me tanto por dentro e por
fora da cabeça que tive que voltar a ler
toda a poesia desde o princípio do mundo.
Uma pergunta numa cabeça.
— Como uma coroa de espinhos:
estão todos a ver onde o autor quer chegar? —
Manuel António Pina, in Ainda não é o Fim nem o Princípio do Mundo. Calma é Apenas um Pouco Tarde.
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Um futuro que não seja velho



«A precariedade não é liberdade, muito menos oportunidade. A precariedade é uma praga que se alastrou a todos os setores, do espetáculo à Função Pública, dos supermercados aos gabinetes de advogados. A precariedade é um futuro velho, de praças de jorna e engajadores, com trabalhadores recrutados ao dia no Arsenal do Alfeite. São contratos diários ou semanais, mal pagos, renovados durante décadas nos call centers das grandes empresas. São anos de trabalho gratuito em estágios que nunca bastam para um emprego. A precariedade é o contrário do progresso, é a negação dos direitos conquistados pela dignidade do trabalho.»

Mariana Mortágua

Bob Dylan e a economia



«Os tempos estão a mudar e não só na política ou na economia. O galardão atribuído a Bob Dylan, o Nobel da Literatura, ainda parece a alguns um sapo difícil de engolir. (…)

Como Shakespeare, Dylan preocupou-se mais em encontrar os melhores músicos para tocar as suas canções. E, como diz, nunca se interrogou se as suas canções eram literatura. Como Shakespeare se preocupou sempre com a economia da sua música: permitir-lhe-ia sobreviver cantando, e fazer disso a sua vida?

As palavras de Dylan são uma lição de vida e um choque eléctrico em muitas convicções que descortinamos com demasiada facilidade em Portugal. Fazem pensar sobre a economia da cultura. Dylan conseguiu fazer a ponte entre a alta cultura e a cultura pop e a sua influência social foi enorme. O criador de "Blowin in the Wind" foi sempre fugindo do seu próprio êxito, criando rupturas como a que o tornou um proscrito quando agarrou numa guitarra eléctrica no festival de Newport, dominado por puristas. Foi trovador e contestatário, judeu e católico. O sucesso perseguiu-o sempre, apesar de tudo. E, sobretudo, nunca procurou a bênção do "establishment" nem das massas, esta cultura populista que agora sufoca as sociedades ocidentais. Não deixa de ser curioso que o Nobel, tendo nascido como um prémio literário, tenha sobrevivido como um aval político. E, até aí, o prémio dado a Bob Dylan vai contra a cultura hegemónica. Mesmo parecendo o contrário.»

Fernando Sobral

12.12.16

Dica (455)




«Um dia, a Itália será governada por um partido a favor da retirada do euro. Quando isso acontecer, a saída do euro transformar-se-ia numa profecia cumprida. Haveria uma corrida aos bancos italianos e aos títulos do tesouro.» 
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Espelho meu, espelho meu, haverá povo mais feliz do que o meu?



Num só dia, um SG da ONU e um Bola de Ouro. E um PR e um PM que continuam irritantemente felizes. 
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PSD congelou isso e muito mais



Ainda estamos no início do degelo.
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O calcanhar de Passos



«As sondagens são, muitas vezes, tão eficazes como Brutus quando se trata de terminar com uma carreira política. A da Aximage, que foi publicada na semana passada, é assustadora para Passos Coelho. Segundo ela, 60,3% dos portugueses acham que Rui Rio seria melhor líder para o PSD. Dentro do eleitorado social-democrata a opinião não é tão demolidora: a vantagem de Rio é de apenas 3%. A sondagem abre um debate interessante: o que é melhor para o país é pior para o PSD ou o que é ainda assim pior para o PSD é atraso de vida para o país? (…)

As facas e os garfos já estão sobre a mesa e Passos Coelho é o fiambre para a refeição. Compreende-se: o PSD esgota-se nas suas frases e nas de Maria Luís. Ninguém no país se comove com elas. Pior: estamos em Dezembro e a estratégia autárquica do PSD parece um conto de fadas. Lisboa, então, começa a assemelhar-se a um desastre eleitoral anunciado: com a recusa de Santana Lopes, Passos está perdido. Nem há táctica, nem estratégia. Só um imenso vazio de ideias. (…) Marcelo, em Belém, sorri. O momento do repasto aproxima-se. A guarda pretoriana avança. E Passos Coelho parece que ainda não percebeu que o próximo líder do PSD é capaz de não chegar num Citroën. Mas sim numa bicicleta. Para dar menos nas vistas.»

Fernando Sobral

11.12.16

Dica (454)




«La derrota de Renzi es una derrota del modelo de ruptura por arriba planteada por la troika para los pueblos del sur de Europa.» 
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Em Estocolmo foi assim



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Ausências


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O que desconhecemos



«A edição desta semana da revista Newsweek tem um robô na capa e a frase: "Esqueçam os emigrantes, são estes que vos vão substituir." O número é dedicado à nova economia assente na robótica e na inteligência artificial.

Descreve as profundas transformações em curso, os enormes investimentos e, como não podia deixar de ser, dá alguns exemplos dos efeitos no desemprego humano. Destaco um. Os carros sem condutor, que já são uma realidade, irão ter nos próximos anos um enorme impacto no setor dos transportes de mercadorias e em geral em todo o tipo de transporte. O motorista é uma profissão em vias de extinção. São milhões. A maioria não sabe fazer mais nada.

Mas esta Newsweek é interessante noutra perspetiva. A da ignorância.

Ignorância do que está a acontecer. A maioria das pessoas não se dá conta da evolução tecnológica e das suas implicações. (…) Ignorância também na responsabilização da crise económica. A Newsweek refere os emigrantes, na linha do pensamento primitivo de Donald Trump, mas o mesmo se pode dizer da Europa onde o emigrante é o culpado de tudo. No entanto, além das práticas catastróficas, não-produtivas e especulativas do sistema financeiro; além também de uma política capturada pelos muito ricos contra a maioria, cabe à evolução tecnológica a maior responsabilidade pela crise económica. (…)

A maioria dos media convencionais não está preparada, nem interessada, em tratar deste tipo de temas, preferindo consumir o seu e o nosso tempo com assuntos conjunturais. Entre outras coisas, como futebol e casos de polícia, dá-se uma excessiva relevância ao conflito político, aos partidos, aos políticos individualmente. Todos os dias, a todas as horas, ouvimos e vemos declarações, intrigas, trocas de insultos, na maioria dos casos sem o mínimo de interesse que não seja passar o tempo. É um evidente desperdício. (…)

Enfim, continuamos na estupidez natural enquanto a inteligência artificial se vai desenvolvendo.»